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sexta-feira, 12 de abril de 2013

O alvorecer de uma nova religião

O cristianismo-feliz, ou cristofelicianismo, é uma religião da Nova Era, derivada do antigo e ultrapassado cristianismo, e caracterizada por sua interpretação literal do texto bíblico, com ênfase nos aspectos homofóbicos, xenofóbicos, sexistas e racistas que eventualmente aparecem nesse livro.

O Culto

As principais características do seu culto são templos lotados com multidões em incontrolável transe autoinduzido, expulsões (no grito) de todos os demônios, diabos, pragas, exus, entidades, “caboclos”, santos e quaisquer outras divindades não pertencentes ao panteão cristão-feliciano, e a prospecção in loco de eventuais financiadores para a obra de Deus (divindade que tentaremos descrever mais adiante). Para as pregações no púlpito é necessário árduo treinamento do pregador, que deverá adquirir uma voz possante e ensurdecedora, com a qual exortará a plateia a abrir suas carteiras e entregar parte de suas economias. A voz possante do pregador também se faz necessária nos momentos de alegria e êxtase, quando é anunciada a morte de algum inimigo de Deus pelas suas próprias mãos, e quando são recordadas as verdades-felicianas.

O deus da religião cristã-feliciana

O deus da religião cristã-feliciana possui características deveras peculiares, todavia, fomos persuadidos a não descrevê-las nesse blogue, por medo de que algum mal entendido provocasse uma represália de seus seguidores mais ortodoxos, ou até do seu próprio deus, que costuma ser cruel e impiedoso. Mas, em resumo, é aquele deus vingativo do Antigo Testamento, mas que, de vez em quando, fica inexplicavelmente compassivo e bondoso.

A origem do nome


O nome cristofelicianismo deriva da antiga expressão “Cristo é feliz!”, supostamente bradada pelos primeiros fiéis como resposta à exortação de cada uma das sete verdades-felicianas. Cristão-feliciano (ou, às vezes, cristão-feliz) é como costuma-se chamar o seguidor do cristofelicianismo.

As sete verdades da religião cristã-feliciana


1- Deus amaldiçoou o povo africano
2- Deus criou a mulher para servir ao homem
3- Deus abomina os homossexuais
4- Deus matou John Lennon
5- Deus matou os Mamonas Assassinas
6- Deus afundou o Titanic
7- Deus é amor

 De um pequeno grupo, para o mundo inteiro

O Cristofelicianismo veio a público depois que seu maior representante conseguiu o cargo de presidente da CDHM - Comissão de Direitos Humanos e Minorias. O movimento tomou notoriedade depois que alguns humanos pertencentes a grupos minoritários entenderam que a entrega da presidência da CDHM a um cristão-feliz representaria uma ameaça a futuros avanços na área. Entretanto, a eleição da presidência deu-se sem nenhuma ilegalidade (apesar do contrassenso), o que evidencia a forte influência da nova religião, não só no meio político, mas em todas as esferas da sociedade.

[PAUSA PARA O CAFÉ...]
 ...

Agora falando sério

Não se trata de denegrir religião ou religiosidade alguma, mas de observar os limites. Não os limites impostos ou não por leis ou pela Constituição (na qual alguns bolsonaros da vida buscam equivocadamente um delirante “direito ao preconceito”), mas os limites do bom senso. “Africanos estão fodidos porque não aceitaram a Deus.”, “A Aids é culpa dos homossexuais”, etc. Em pleno século XXI há pessoas que se satisfazem com essas respostas tão inocentes e simplistas para problemas nada inocentes e nada simples! É claro que é um direito de qualquer um aceitar ou não qualquer explicação para qualquer coisa, mas não é direito de ninguém usar (ou abusar) de seu justo direito à fé para incitar ódio e violência a pessoas ou grupos de pessoas. Veja isso: em pleno século XXI (ou talvez, quem sabe, por causa do sec. XXI) há pessoas que sentem prazer em imaginar que um assassinato poderia ser justificado por uma causa divina.



Fico imaginando quanto tempo falta para as pessoas se sentirem à vontade para sair à rua dando tiros em mim ou em você, não por causa de um tênis ou cinco reais - mas em nome de uma divindade.

Observe a fala do pastor (fazendo de conta que fala com o cadáver): “esse foi em nome do Pai, esse em nome do Filho e, esse, em nome do Espírito Santo”. Percebeu o prazer no seu rosto e na sua fala enquanto ele se imaginava na presença de uma pessoa alvejada por três tiros? Percebeu o gozo da plateia? Se isso não é incitação ao ódio e à violência, então podem me internar. Por isso, sem rodeios: se essa aí é a “trindade” (ou como quer que a chamem) eu quero mais é que o cu dela pegue fogo! (o cu DELA, não o meu, nem o seu, nem o de ninguém) E que ela, se quiser me dar três tiros, não seja covarde em mandar um mensageiro, mas que o faça pessoalmente!

Divirta-se (ou não) com mais pérolas do cristofelicianismo




quinta-feira, 12 de julho de 2012

Dionísio, insuficiência hepática e Festiqueijo

(Esse texto trata de assuntos locais)
Visite Carlos Barbosa e confira o Festiqueijo 2012 (mas, por gentileza, evite regurgitar nas vias públicas)

Andam dizendo que falo mal de nossa festa-mor, o Festiqueijo, por causa de um ou outro texto que você pode conferir aqui e aqui, mas, na verdade, apenas desclassifico, a meu modo, essa nossa mania de trocar os nomes das coisas. Repito que não há nada de errado com dionisíacos e bacanais, desde que sejam chamados de dionisíacos e bacanais. Não tente chamar de festa familiar uma encenação de orgia. Não tente chamar de degustação uma beberragem. E tudo estará bem.

O nome que damos às coisas é, ainda, mais importante que a coisa em si. Duvida? Repare que as palavras, todas elas, são carregadas de magia. No mito da criação, Deus criou as coisas através das palavras. Através de semelhante processo mágico nós também criamos e modificamos muitas coisas.

Se andar trôpego na praça da matriz (devido ao abuso de álcool no fim de semana) é tido como uma afronta aos bons costumes, o mesmo é permitido e legitimado através da instituição festiva denominada Festiqueijo. Ou seja: criamos um tempo e um espaço para o exagero.

Estou exagerando? Talvez. O fato é que olhamos com nojo para aquele mendigo que dorme no banco da rodoviária abraçado a uma garrafa de cachaça, mas, no dia seguinte, nos divertimos vendo nossos pares sendo carregados para a ambulância que presta serviços de "reposição de glicose" aos fundos do Salão Paroquial, próximo ao portão de saída do Festiqueijo (por falar nisso, fico me perguntado quantos adolescentes são atendidos dessa forma, à margem do sistema, depois de um porre no Festiqueijo. Tomara que eu esteja enganado quanto a isso...). Em suma, muito do que não é moralmente aceito na maior parte do ano e na maioria dos espaços públicos ou privados, tem a possibilidade de ser temporariamente permitido durante esse tempo festivo, nesse espaço específico.

Várias vezes me disseram que "frango é frango e palmito é palmito" nessa questão de relacionar o uso do álcool com uma festa local. De fato, não dá para generalizar (obviamente). Eu nunca saí da festa de ambulância, tampouco a maioria dos que conheço saíram. Mas não há nada mais divertido do que sentar-se ali por perto e contar quantas vezes a ambulância sobe e desce fazendo o trajeto salão-hospital-salão nos dias mais movimentados da festa. É hilário.

E, é claro, é culpa das pessoas que exageram (dizem), não da festa. Ok. Mas ainda prefiro entender que não é uma questão de "achar culpados" (de novo o moralismo). Prefiro entender que isso é obra de Baco, de Dionísio, que, como divindades que são, reconhecem uma homenagem quando veem uma e nos dão a honra de sua presença. Mas nós, por outro lado, não somos bons anfitriões, uma vez que não reconhecemos publicamente nossos principais convidados. Ainda nos escondemos atrás de inocentes vaquinhas coloridas que, se por um lado enfeitam a cidade, por outro mostram o quanto somos infantis quando o assunto é assumir que as coisas que gostamos são as mesmas que condenamos nos outros.


Em resumo: o Festiqueijo não é um sucesso por causa da "alta" gastronomia que oferece, mas por proporcionar um tempo e um espaço para o exagero.

Visite o Festiqueijo (se puder, porque isso aqui não é pra qualquer um) e divirta-se!

Se beber (sic), não dirija...







sábado, 21 de abril de 2012

Descriminalização do aborto.


 


Só quem tem Deus no coração sabe o que é amor...”
Provérbio facebookiano

A recente decisão do STF sobre o aborto de fetos anencéfalos é motivo para fogos de artifício. Só não os solto porque esse gasto não estava previsto no meu orçamento. Explico (o motivo da festa, não o meu orçamento): a opção por interromper uma gestação é (ou deveria ser) uma decisão exclusiva das mulheres que se encontram nessa situação porque a elas compete dar continuidade ou não a uma coisa que está acontecendo dentro dos seus próprios corpos. Negar à mulher essa autoridade sobre o seu corpo é nada mais do que restringir-lhe a liberdade. Ou melhor: é nada mais do que continuar a restringir a sua liberdade. Engana-se o leitor que pensa que os tempos de opressão feminina perderam-se num passado medieval. Eles persistem. 
 
Repare que a maioria dos líderes religiosos (que, sem exceção, são contrários ao aborto sob quaisquer pretextos) são homens. Repare, ainda, que os líderes da maioria dos movimentos antiaborto são homens. Repare, enfim, que homens não engravidam. Isso seria o bastante para encerrar a discussão. Mas vamos além.

Eu disse que a opressão persiste. Não pensem que o assunto acabou depois do auê sobre um certo Rafinha Bastos que fazia piadas sobre mulheres estupradas e que queria comer não sei quem com feto e tudo, pois a moda continua (com menos alarde, já que agora o “humorista” aprendeu a não citar nomes): segundo esses reacionários (num disparate proferido antes ou depois do caso Vanessa, não lembro) as mulheres não deveriam sequer amamentar em público. Seria feio, nojento, etc., a não ser que fossem gostosas. Quer discurso mais sexista? Agora, além de tudo, os homens escolhem quem pode mostrar os seios e quem deve escondê-los. 

- Ah, mas é só um programa de humor...

Não. Não é só um programa de humor. É a reprodução constante e sistemática de um discurso que não é de hoje. O humor é uma arma e uma ferramenta perigosa. Disfarçado sob o manto de humorista e protegido pelas gargalhadas de uma plateia desatenta é possível professar páginas e páginas de um Mein Kampf de absurdos sem que ninguém perceba o que está acontecendo.

Da mesma fora, protegido por um belo terno e acompanhado de cânticos, améns e aleluias, é possível declamar a mesma poesia (numa edição mais antiga, talvez) sem que ninguém note a semelhança. E lá se vai a mulher, de cabeça baixa, fazer o que lhe é ordenado: servir aos homens, parir seus herdeiros, amamentá-los às escondidas (a menos que os seios sejam agradáveis à lascívia masculina) e fazer coro às regras que atravessam a história - todas ditadas por homens. É o poder da esposa que ora.

Por isso a decisão do STF deve ser comemorada. É um passo a mais em direção à liberdade, sobretudo a das mulheres. Feministas do mundo inteiro, comemorai! O estado mostrou que continua sendo laico, a despeito de símbolos religiosos pendurados em repartições públicas (dos males, o menor). Um avanço, sem dúvida. Há, entretanto, quem tem a esperança de que o Congresso reverta a decisão do STF. Bem, se isso ocorrer, talvez seja o caso de trocar os bandeiraços por manifestações a base de coquetel molotov. Talvez. No dia em que o Congresso questionar uma posição como esta – a de não obrigar uma mulher a levar a cabo a gestação de um corpo sem cérebro - não estaremos longe de virar uma república fundamentalista cristã, como alguém já profetizou por aí. Nada contra cristãos em particular. Só contra o fundamentalismo. 
 
A questão não é preservar o direito à vida (vida de um grupamento celular sem consciência), mas preservar o direito de as pessoas decidirem pelo que pode ou não acontecer dentro de seus próprios corpos. Digam o que quiserem, mas enquanto estiver dentro da barriga de uma gestante, o que quer que lá esteja, só deveria permanecer lá com o consentimento da mulher. Depois que essa criatura tiver nascido, sob amor e vontade da mãe, defenderei o direito dela viver como defenderei o de qualquer outra pessoa. Mas não antes. Quem vive pregando que não temos o direito de “tirar vidas” esquece que temos o dever de diminuir o sofrimento. Esquece que às vezes o estuprador (como um deus) também dá e tira vidas. Esquece que uma gravidez de risco coloca duas vidas a perder. Esquece que um feto anencéfalo não é um ser humano senão na aparência.

Dar às mulheres o justo direito de decidir sobre o que pode ou não acontecer dentro delas mesmas não vai transformar o mundo num matadouro de crianças. Maternidade é um direito, não um dever. Quem é contrário ao aborto em casos de estupro, risco de vida e anencefalia continuará tendo o direito de levar adiante a sua própria gravidez quando se encontrar numa situação semelhante - mas não pode obrigar as outras pessoas a fazer o mesmo.

Somos seres humanos. Faz mais de 200 mil anos que nosso cérebro deixou de ter apenas a função de dizer ao estômago quando agir. Hoje ele serve também para decorar telefones de clientes e fornecedores. No entanto, talvez a sua maior função seja a de nos tornar humanos - os queridinhos da criação - esses bichos estranhos que falam de amor.





segunda-feira, 1 de agosto de 2011

Festiqueijo 2011 - eu estive lá

Não adianta. Creio que nada mudará minha opinião sobre essa festa (a menos que mudarem o nome dela para Festiporre ou algo parecido).

Falar de todo o resto é mais do mesmo

Por mais que os organizadores tenham se empenhado em trazer novidades, em acrescentar algo novo à festa, nada mudou em essência. E é uma pena que seja aplicado tanto empenho e tanta dedicação num festival como esse, que pretende ser uma coisa, mas na verdade é outra..
Tudo bem, tenho que admitir: milhares de pessoas vêm a Carlos Barbosa no Festiqueijo. E isso pode ser bom.
Milhares de pessoas desembarcam dos ônibus em frente ao calçadão, entram no Salão Paroquial pela porta da frente e saem pela porta dos fundos, onde o ônibus que as levará de volta está esperando. Algumas passam pelo Varejão e pela Feira da ACI. As poucas pessoas que circulam além do calçadão são aquelas que se perderam e não conseguiram achar a saída da cidade. O que essas pessoas realmente conheceram de Carlos Barbosa? O Salão Paroquial? O Varejo da Tramontina? O nome da Rainha?
Bom... isso deve ser o bastante. E o pessoal da feira da ACI deve ter um incremento nas vendas (do contrário não estariam lá). Isso é bom. Mas o preço que se paga...
O preço que se paga” a que me refiro não é só o valor monetário. É o preço de se criar uma cultura de fantasmas. De mitos. De celebração do nada.
Pessoas vivem me dizendo que o Festiqueijo traz visibilidade à cidade. Pode até ser (assim como a porra do Motocross). Mas a pergunta que eu sempre faço é: quanta? Quanta visibilidade? Números... mas não somente o número do público pagante e de garrafas consumidas. Quero o número de quantas pessoas realmente investiram em Carlos Barbosa por causa do Festiqueijo. Quero saber quanto essas pessoas realmente investiram. Quantos investidores o Motocross e o Festiqueijo nos troxeram? Quais? Quem são? Quanta renda geraram? Quantos empregos? Quais benefícios? Onde? Por quanto tempo? Se não é posível gerar ao menos alguns dados estatísticos sobre isso, também não é possível tratar a festa como uma religião e acreditar cegamente que ela trará benefícios que não podem ser mensurados. Em contra partida, posso assegurar que existem números bem concretos sobre os resultados que um município obtém ao compactuar com uma “cultura de festa e álcool” como temos em Barbosa. Os Bombeiros Voluntários que o digam. Só eles sabem quantos jovens são conduzidos ao hospital semanalmente beirando o coma-alcoólico. Achamos engraçado.

Gostaria de saber o que realmente fica na memória dos visitantes, além da lembrança de um porre homérico e da foto com a vaquinha

Eu fico indignado! Tenho, no Facebook, amigos de Bento Gonçalves, Caxias do Sul, Porto Alegre, da p*ta que o pariu, enfim. Estes amigos tem muitos outros e (quem conhece o facebook sabe do que estou falando) é possível acompanhar os diálogos e os comentários de muita gente que esteve aqui – mas só vejo fotos de (1) gente bêbada, (2) gente comentando sobre a ressaca fenomenal que está enfrentando, (3) gente falando em voltar no ano que vem para “encher a cara de novo” e (4) surpresa: gente dizendo que não gostou. Não vi ninguém elogiando a gastronomia (eles elogiam o fato de poder comer à vontade). Não vi ninguém elogiando os vinhos (elogia-se o fato de beber à vontade).
Portanto: Dedustação de vinhos no Festiqueijo – mito. Um que outro apreciador de vinhos até poderá haver. Mas estive lá no dia 30 e não vi gente fina degustando vinhos. Vi gente fina alterada pelo álcool, isso sim. Aliás, Carlos Barbosa produz vinho?... Deixa pra lá...
Degustar queijos - mito. Eu gosto de queijos. Fui ao Festiqueijo e não consegui degustar merda nenhuma. Não havia a menor condição. Deslocar-se de um estande a outro era uma verdadeira epopeia.
Gastronomia: bom, se você chama  coxa de galinha, pastel de queijo, pizza e polentinha com queijo de gastronomia, e roda 1200 Km até Carlos Barbosa para sentir o prazer de apreciar essas iguarias... tudo bem.
Saí de lá com a roupa imunda. Perdi a conta de quantas pessoas derramaram bebida na minha camisa – não por o salão estar lotado, mas por já terem perdido os reflexos necessários para andar em linha reta segurando um copo.

Hipocrisia tem limites

Passei três semanas ouvindo aquele discursinho idealista de que nossa festa é um festival gastronômico, uma festa para a família, uma festa para conhecer a cultura local, para encontrar velhos amigos, para fazer novos amigos, etc. Não vi nada disso. Encontrei dois amigos, conheci alguns que poderão ser amigos no futuro (mas isso também dá pra fazer na zona). A única coisa que consegui fazer em paz foi tomar o cafezinho perto da porta da saída. Lá estava tranquilo (leia-se: lá ninguém caia em cima de mim). E o café estava bom.
Não sou puritano. Não tenho nada contra, swing, orgias, bacanais e eventual uso de determinadas substâncias entorpecentes... Mas me revolto com essa aura de glória com que se costuma cobrir esse festival que, na verdade, não passa de uma festa a Baco impulsionada por certo instinto de manada e algum possível oportunismo.
Se mudarem o nome do festival para Festiporre, então tudo bem. Se tiver que tirar os sapatos e as roupas antes de entrar, melhor ainda. Todos pelados bebendo pra valer e fazendo tudo aquilo que a sociedade normalmente não permite num evento barbosense chamado Festiporre. Pelos menos seria algo mais sincero.
Se você leu até aqui talvez goste do texto sobre o Festiqueijo 2010. Ele ainda se aplica a esse de 2011 e aposto minhas unhas dos pés que ele se manterá atual por um bom tempo.



quarta-feira, 22 de junho de 2011

Bom feriado a todos!

Saudações, amigos leitores deste insano sítio, o famigerado Macaco Escrevedor.

Antes de mais nada, faz-se necessário esclarecer que o autor deste blog, quando sentou-se em frente ao computador, não fazia a menor ideia sobre o que escrever. Mas a proximidade do chamado “feriadão” fez com que surgisse a necessidade(?) de enfeitar a Internet e brindar os queridos leitores com algumas linhas, por banais que fossem. Afinal, há gosto para tudo.

Reparem, então, que acabei de escrever a palavra “banal”, e a primeira coisa que me veio à mente foi o motivo do feriado que se aproxima. Mas creio que já falei o bastante sobre feriados religiosos. Ou talvez não. Não sei.

Então vamos falar sobre coisas boas. Falaremos sobre a segunda-feira.

A segunda-feira, na minha humilde (e irrelevante) opinião é o dia mais feliz da semana. Ela marca o final de uma série de imbecilidades que somos mais ou menos obrigados a engolir durante o sábado e o domingo. A partir desse dia, podemos voltar a circular tranquilamente pelas ruas centrais da cidade sem o perigo de atropelar pessoas alcoolizadas. Também cessam os infernais tuncs-tuncs-tuncs que costumam sair dos porta-malas de alguns carros cujos proprietários talvez seja melhor não adjetivarmos aqui.

Na segunda-feira, a polícia não costuma passar a 100 km/h atrás sabe-se lá de quem. Também não costumamos ouvir fogos de artifício neste dia, tampouco pastores bradando nas igrejas (se bem que, por aqui, eles fazem seus tumultos nas terças). Reparem que as pessoas até diminuem o uso das buzinas dos automóveis, chegando quase a existir um princípio de gentileza no trânsito. Mas é só um princípio. Que ninguém pense que nós, motoristas barbosenses, somos mais ou menos gentis do que os outros só porque paramos nas faixas de segurança (na verdade, a maioria de nós só para o carro para que os pedestres possam vê-lo melhor).

Repare que, depois da segunda-feira, a medida em que a semana vai passando, o nível de bestialidade das pessoas (não de todas, é óbvio) vai aumentando, de forma que a sexta-feira chega a ser um dia perigoso. Tome cuidado com trânsito (até as bicicletas transformam-se em máquinas assassinas), e jamais entre em discussão com alguém numa sexta-feira!

Adentrando o sábado à noite começamos a verificar altos índices de animalidade nas pessoas. Durante a madrugada podemos observar os níveis mais bestiais do comportamento, que dificilmente são observados nas outras noites, e que só são chamados de bestiais pela falta de outro qualificativo, uma vez que as bestas da natureza sentem-se ofendidas com tal comparação.

Os que sobrevivem à bebedeira do sábado transformam-se em verdadeiros demônios depois de acordarem às três da tarde de domingo. Os que não beberam até cair no sábado, provavelmente o farão no dia seguinte. E nem vou falar dos acidentes de trânsito porque (agora estou preocupado) estarei na estrada também.

Essas reflexões espontâneas (e propositalmente exageradas) me levam a acreditar que, na verdade, o chamado fim de semana não é propriamente o fim da semana, mas o início dela, de modo que, no restante da semana, as pessoas estão descansando das atividades do sábado e domingo enquanto pensam que trabalham. Chego a cogitar a hipótese de que o verdadeiro trabalho atribuído às pessoas (embora não saibamos por quem) é exatamente aquele executado de sexta a domingo. O outro é só fachada. Coisa do diabo.
 
Então, podemos concluir que nesse "feriadão" o trabalho será dobrado. Teremos dois dias a mais de tarefas e loucuras programadas, compromissos sociais e religiosos, rituais acasalatórios (com ou sem álcool), compromissos matrimoniais a cumprir e, como não poderia deixar de ser, os sobreviventes deverão, ainda, apresentar estômago para o Fantástico.

Qualquer leitor perceberá que o outro período também pode ser descrito com as mesmas palavras que descreveram o sábado e o domingo no início do texto: uma sucessão de imbecilidades que somos mais ou menos obrigados a engolir. Entretanto, sinto-me mais seguro na imbecilidade de uma mina de carvão de segunda a sexta do que na imbecilidade da maioria das pretensiosas “diversões” de fim de semana praticadas por boa parte dos exemplares da minha espécie. Nada como fugir para as colinas ou abrigar-se no porão (que é o meu caso).

Que nesse feriado de Corpus Christi,  os deuses imortais mantenham nossos corpos íntegros!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A boa e velha limpeza social - e a minha inocência

Limpeza social é um termo que pode parecer um tanto forte, exagerado, mas ainda é o melhor para designar certas coisas estranhas que volta e meia podem acontecer em qualquer cidade, principalmente aquelas com um maior potencial turístico.

Não é raro ver ou ouvir de pessoas importantes consideradas importantes, discursos que beiram a eugenia, com frases do tipo: "é um absurdo esses índios circulando na frente da minha loja", ou "por que ninguém leva esse mendigo embora?" e outras coisinhas do tipo. No meu trabalho, certa vez, tive que ouvir o seguinte: "no caso dos índios, quando têm crianças junto, é muito simples: é só levar pra rodoviária e botar dentro de um ônibus"... [som de inspiração profunda e expiração] [pausa] ...Olha, eu juro que faço força pra não citar o nome do(a) ilustríssimo(a) cidadão(a) que abriu a nobre boca para falar essa merda. Mas falou. Na verdade não cito o autor dessa sapientíssima colocação porque sou covarde mesmo (peso 54kg, sou de fraca compleição física, e se me processarem estou fudido, porque não tenho grana para um advogado).

Por isso, deixemos assim (ou "deixe estar" como se ouve na TV); não vamos falar sobre isso, até porque eu posso estar mentindo, não tenho provas, ninguém vai acreditar nessa merda e, com a sorte que tenho, é bem capaz de aquela atitude ("bota num ônibus e manda embora") ser considerada a atitude perfeita por maioria de votos. Então vamos fazer de conta que este é um texto de ficção (e é mesmo) que fala sobre as coisas estranhas que eu acho que acontecem na cidade de Charlie Barganha.

Isso mesmo, meu nome é Sidnei e moro na cidade de Charlie Barganha, pequena cidade do interior da República Federativa da Nova Noruega; um país maravilhoso, situado no continente Sul-Pampeano, onde "tudo é caro porém perfeito". A pobreza, aqui, não consegue procriar; e se chegou de fora, haverá de retornar. Assim canta o hino da cidade de Charlie Barganha.

Poderíamos fazer um poema épico.

Mas, voltando à realidade, às vezes fico preocupado. Olho pela janela às cinco e meia da tarde, quando há aquele congestionamento digno de "cidade grande", e penso em quantas daquelas pessoas podem ser coadjuvantes nessa ideologia de limpeza social. Depois, para tentar me acalmar, procuro adivinhar o contrário: quantas daquelas pessoas podem estar preocupadas com essa questão. Descubro que não há contrários e finjo uma resposta agradável.

***

Quando, no futuro, todos estiverem trancados dentro de suas casas, digo, caixas de habitar (longe de índios e indigentes) relativamente "a salvo" uns dos outros, devidamente alienados e adestrados na arte de se comunicar através de grunhidos, alguém dirá que a culpa foi do Prozac. E de mais ninguém.

Fórmula estrutural da fluxetina
Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Fluoxetin_Structural_Formulae_of_both_enantiomers.png
Que bom que eu estou lendo Cem anos de solidão.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Uma pequena pausa (e uma grande dúvida)

Obs.: Quando me sentei em frente ao computador, a ideia era discorrer sobre como 200 metros de asfalto sobre um punhado de ruas já calçadas poderiam trazer mais qualidade de vida (?) para o barbosense. Porém minha musa inspiradora me disse que não vale a pena discutir com os homens-carro.

Por isso, fica valendo o texto a seguir, que é mais pertinente e não agride a inteligência do leitor (aquele que tem cabeça e pés ao invés de faróis e rodas).



UMA PEQUENA PAUSA (E UMA GRANDE DÚVIDA)

Os vegetarianos também precisam de carne, dizem...


Entre contos, opiniões e histórias, decidi fazer uma pequena pausa para o que poderíamos chamar de uma breve reflexão sobre o sentido de escrever, mesmo sabendo que isso trará mais dúvidas do que respostas.

Tenho observado que tem sido comum "escritores" como eu transformarem seus espaços paranoico-pseudo-democráticos-cibernéticos (ou blogues) em uma espécie de analista gratuito onde, eventualmente, destilamos nossas angústias e frustrações para a eventual e prazerosa leitura de outros paranoicos cibernéticos - leitores que, por coincidência, compartilham da nossa visão de mundo (ou parte dela), visão esta que não é exagerado chamar de ideologia.

Sendo assim, a pergunta que dirijo a mim mesmo (e a quem sentir-se apto a responder) é a seguinte: Que efeitos a minha escrita (e a sua, e a de qualquer blogueiro) produz em meus (seus) leitores? Não no leitor amigo, mas no estranho? Leitores desconhecidos e conhecidos desafetos?

E, por extensão: Por que escrever?

De que adianta falarmos das boçalidades de um Bolsonaro, dos anacronismos de um Casamento Real, dos crimes internacionais cometidos pelos Estados Unidos (ou não, vá lá, há liberdade para isso também...) se estamos falando para nós mesmos e para nossos pares? Seria essa prática de escrita nada mais do que uma espécie de masturbação coletiva? Até que ponto um pequeno texto como este, perdido nessa vassalagem que é a Internet, tem um poder maior do que o de agrupar formigas ou o de atrair os aplausos dos meus seguidores e as vaias dos detratores?

Por outro lado, poderíamos estar escrevendo sobre orquídeas. Automóveis. Decoração. Escrevendo algo útil, como já me disseram. São dois extremos que, se não se tocam, se observam de longe, pensando um no outro e reconhecendo, com vergonha, algum parentesco.

Entretanto, enquanto me faço essas perguntas, conscientizo-me de minha atitude contraditória (mas que me desobriga a falar de orquídeas) e assumo que minha personalidade se recusa a cruzar os braços e crer na fatalidade das coisas. E, além do mais, (e embora não pretendo salvar o mundo) prefiro acreditar que, de algum modo, esse trabalho de formiga escrevente vale mais a pena do que o de crítico de decoração. Prefiro acreditar que talvez ainda exista algum indeciso por aí esperando só um empurrãozinho do acaso para topar com algum texto interessante que o faça desligar a TV e pegar o controle remoto do seu pensamento, nem que seja por quinze minutos, numa ida qualquer ao banheiro (e nem que seja, ainda, para pensar que é livre para apensar). E se for através de textos melhores, melhor.

Enquanto isso, sigo curtindo a minha liberdade de pensar que estou fazendo a minha parte (ou ao menos parte dela). Continuarão acontecendo bizarrices (locais, regionais ou universais) que me deixarão com vontade de botar o meu lado satírico para trabalhar, porque, afinal, também faço parte desta tragédia. E enquanto os deuses não esclarecem minhas dúvidas, posso permanecer nessa brincadeira de acreditar porque, afinal, o mais legal desse jogo é acreditar que a realidade também é uma ficção. Ficção não somente de autoria da indústria do notícia, indústria da verdade (porque a verdade é, sim, um produto para se vender). Nesse jogo, prefiro crer que nós, escrevedores de blogues incompreendidos, também somos ficcionistas. Ao menos nos esforçamos para tal e, enquanto esse analista cibernético for relativamente acessível, tanto melhor para nosso frágeis egos.

Quanto às respostas, por enquanto me viro com esta (é provisória e me ocorreu agora): Escrevemos porque temos fé. Fé em nossa frágil ficção, porque esta nos constrói.

Agora, se me permitirem, retiro-me para observar a paisagem. Vou apreciar os pneus rolarem silenciosos pela mais nova rua asfaltada da cidade. E os problemas de verdade, que fiquem onde estão: escondidos nas entrelinhas de outros textos.

terça-feira, 19 de abril de 2011

Aniversários versáteis

É bem verdade que falar de política do pão e circo em blogues já virou clichê, mas não consigo resistir. Sobretudo quando posso utilizar elementos da nossa cultura local como exemplo.

Aos fatos: no primeiro de maio, data em que tradicionalmente “homenageamos” a figura do trabalhador, aqui, nas colônias no Além-Tejo, algum marqueteiro esperto teve uma ideia brilhante: comemorar o aniversário de uma empresa. Só não sei se a ideia ocorreu há mais de cem anos (o que comprova a visão de futuro e o empreendedorismo nato de nossos antepassados) ou se foi num momento posterior à criação da empresa (o que comprova que nada acontece por acaso e que Deus está do nosso lado). Mas, seja por milagre, coincidência ou esperteza, em Carlos Barbosa, primeiro de maio é, antes de mais nada, aniversário da nossa Fantástica Fábrica de Panelas e, por extensão (e por ser inevitável), dia do trabalho. Do trabalho.

Na nossa terra, confundir trabalho com trabalhador é comum. Como um não existe sem o outro, nada melhor do que simplificar as coisas: eles bem que poderiam ser sinônimos. Mas deixemos os detalhes gramaticais de lado. Estávamos falando de pão e circo. No dia primeiro de maio vamos celebrar a chegada do pão.

Quanto ao circo, a ACBF já fez aniversário. Em abril. Não sei bem em que dia, mas sei que na festa de aníver da nossa “laranja mecânica” (Kubrick, perdoai-nos) teve bolo com velinhas, cover do Élvis e show de pagode. Uma festa de aniversário mais ou menos comum, com um aniversariante alaranjado. Há quem diga que alguns convidados também eram laranjas... Enfim, ruas com decoração laranja, meios-fios laranjas. O mundo é uma laranja (segundo Chapolin)...

Não tenho dúvidas que a paixão pelo trabalho e a paixão pelo futsal são frutos de um mesmo processo. Na verdade, nosso pão e nosso circo saem das mesmas mãos e, com a graça divina, caem em nossos pratos e lares. Mas, diferente da Roma Antiga, no nosso caso, não é o governo o principal fornecedor desses elementos fundamentais. Ou então, o governo está deixando de ser quem pensávamos que fosse. A ideia de sermos governados, de fato, não por representantes no Executivo ou Legislativo, mas por empresas, por presidentes vitalícios escondidos atrás de suas instituições gloriosas, ou por grandes interesses de meia dúzia de famiglie tradicionais não me parece absurdo. Aliás, me parece bem coerente.

Mas tenho que terminar esse texto e não estou muito feliz com ele. Sempre fico com a impressão de que os meus títulos prometem mais do que o texto dá. Mas, de qualquer forma, tenho que colocar um ponto final nesse textículo e cuidar dos meus testículos, afinal, barbosense que se prese deve amar suas panelas e suas laranjas. Incondicionalmente.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Ser ou parecer? Uma questão moderna

Parecer é ser. Sobretudo em tempos de modernidades virtuais, exageros vãos e ignorância exacerbada. Se pensarmos, então, na ditadura da imagem, não há o que dizer. Eu não sei exatamente o que sou (e não considero que alguém o saiba) mas posso saber exatamente o que pareço ou quero parecer ser. Posso manipular essa aparente aparência (ops!) a meu favor. Posso parecer interessado naquilo que te interessa. Posso parecer não gostar daquilo que você não gosta. E você jamais saberá a verdade. Talvez ninguém sequer queira saber a verdade. Ou talvez, ainda, as pessoas fujam da verdade, com medo de encontrá-la e verem seus mundinhos afundarem no mar sólido e sórdido da realidade. (O fantasma de Narciso está assombrando os meus textos outra vez...)

Dia desses um amigo de uma dessas redes sociais (que deveriam se chamar "redes antissociais") reparou na minha foto do perfil do usuário (a mesma foto que ilustra o meu perfil nesse blogue, onde eu apareço num ambiente surrealista portando uma cuia de chimarrão e mordendo a bomba) e a considerou inadequada para a minha pessoa, ou melhor, para o meu "papel social". Tenho certeza de que ele não foi o primeiro a considerar tal absurdo, mas foi o primeiro a comentar isso comigo.

Acontece que meu trabalho é o meu trabalho e Facebook é Facebook. E, ainda, eu sou eu, e sou (ou pelo menos me considero) anterior e superior aos meus papéis e aos sistemas em que esses papéis se inserem, sejam eles família, escola, trabalho ou redes sociais. Eu estou no controle e decido até onde quero levar esse joguinho de aparências. É fato que usamos diversas máscaras de acordo com diversas situações: ou você faz isso (cumpre as expectativas do sistema em que está inserido no momento), ou você é expurgado. Mas repare no detalhe: expectativas do sistema em que se está no momento. Eu não sou o meu trabalho, até porque (que me perdoem os teóricos sociais que eu ousei ler até agora) hipocrisia tem limites. Ou seja: eu uso a imagem que eu quiser no meu perfil, seja eu gari ou presidente da república (o que eu jamais seria, a menos que eu mudasse de opinião), e que frustrem-se as pessoas que esperavam ver outra coisa. Não estou aqui para atender às parcas expectativas de meia dúzia de néscios ou de quem quer que seja que esperava ver o sua própria fuça no MEU perfil de usuário.

Hipocrisia tem limites. Uma coisa é agir (ou não) de acordo com as convensões tácitas de um determinado sistema. Outra coisa é se emocionar com isso ao ponto de tornar-se uma prostituta do olhar alheio (com o devido respeito à categoria). Se você é um bombeiro, por exemplo, você é um bombeiro. O "parecer" é posterior, flexível e questionável. Há pessoas que parecem ser feitas de ouro (porque as regras de um determinado sistema diz que elas devem se comportar como tal), mas na verdade são feitas de fezes. E a fezes disso tudo, é que isso é o "normal". É assim que funciona. No grosso desse mundão você não precisa ser nada, contanto que pareça.

Bem aventurados os que parecem, porque, em verdade vos digo: deles será o reino da Terra.

Isso tudo, junto com a cerveja que estou bebendo agora (ops, eu não deveria ingerir álcool, dizem meus algozes!), me faz chegar à óbvia conclusão de que parecer é o mesmo que ser. Obama é o exemplo máximo dessa teoria. Mas eu, particularmente, prefiro que me caiam as bolas a ter que "parecer" assim ou assado só porque a lua está cheia ou minguante. Não tenho estômago para esse joguinho de abraços e sorrisos. Sou naturalmente antipático e minha simpatia se limita ao necessário para criar um bom ambiente. Ao estritamente necessário.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O maior porta-retratos do mundo

Lembro-me vagamente de histórias de índios que tinham medo de serem fotografados. Acreditavam que suas almas ficariam aprisionadas para sempre no interior da câmara ou no papel fotográfico. Eu tinha mais ou menos seis ou sete anos quando meu avô contava essas histórias.

É realmente excitante pensar na máquina fotográfica como sendo uma arapuca do diabo para pegar almas descuidadas. Na taba, a explicação mítica para a química incompreensível da fotografia talvez alimentasse longas noites de histórias contadas ao redor do fogo. Na taba e, também, aqui. Isso poderia explicar por que o céu parece ter cada vez menos estrelas: porque as almas, ao invés de irem para lá, ficam aprisionadas por aqui, em books, e-books, facebooks e outdoors. Enfim, enquanto criança, minha tendência era acreditar mais na explicação mítica da fotografia do que nas emulsões e cristais de prata da ciência. De qualquer forma, almas cativas sempre serão mais interessantes do que cristais de prata.

Mais tarde ouvi falar de um tal de Narciso (não me pergunte o que isso tem com fotografia, não faço ideia...), aquele que teria se apaixonado pela sua porópria imagem refletida na água e danou-se por causa disso. Então a magia da câmara fotográfica (ou câmera, como preferem os moderninhos) passou a oscilar entre uma armadilha demoníaca e uma bênção divina. Sim, porque se Narciso fosse barbosense e tivesse uma Sony, não teria se afogado. Talvez.

Nosso admirável mundo nos trouxe muito mais do que fotografia. Deu-nos câmeras digitais, Internet, televisão HD, etc. Poderíamos dizer que estamos, mais do que nunca,  na era da imagem. Podemos nos apaixonar por nossa própria imagem e compartilhar esse sentimento instantaneamente com uma enorme quantidade de amigos. Sem remorsos. E quando nossa imagem quase perfeita não nos for mais satisfatória, podemos nos apaixonar por uma espécie de reflexo de nós mesmos produzido em alta definição pelo discurso televisivo. É só escolher um ator, um personagem da novela, um herói do BBB, enfim, uma persona enlatada que talvez  seja parecida conosco; em que possamos amar nela aquilo que ela contém de nós.

O que estava demorando nesse texto:

Não é preciso dizer que os municípios da região serrana do Rio Grande do Sul não fazem parte do Brasil. Todos sabemos que estamos anos-luz a frente do restante do país. Tudo por aqui é mais avançado, evoluído. Todos os nossos problemas já foram resolvidos há mais de um século. Somos mais do que primeiro mundo. Somos O Mundo. Repito: Se Narciso fosse barbosense, não teria se afogado.

Por aqui nós já compreendemos tudo sobre tudo. Já aprendemos tudo sobre imagem, discurso televisivo, narcisismo, psicanálise, panelas de pressão, etc. Já superamos a “crise da família” (aliás, nunca tivemos tal crise) e, por isso mesmo, a TV saiu da sala de estar para superar a si mesma, redefinindo sua geografia suas funções. Basta chegar em Carlos Barbosa e reparar no enorme painel eletrônico instalado na entrada da cidade*. Nesse painel, entre um comercial de panelas e um de talheres, aparece a imagem de colaboradores operários da nossa Grande Fábrica de Panelas. Reza a lenda que todos os funcionários foram fotografados (querendo ou não) e que todos sorriram (querendo ou não); mas ainda não tive tempo para averiguar. Pode ser mentira.

Que isso sirva de exemplo para as outras empresas e os outros municípios. Nossa comunidade é a nossa sala de estar. Somos uma enorme família de milhares de pessoas e o papai Tramontina nos presenteou com um enorme Espelho de Narciso, protegido por grades e por leis estaduais (do contrário não poderia estar ali) e, principalmente, protegido por nós. Ninguém vai se afogar olhando para ele. Ninguém terá a sua alma aprisionada como acreditavam aqueles índios burros. Todos precisamos dele para saber quem somos e quanto valemos. Precisamos dele para nos amarmos e sermos amados.


* No meu fabuloso texto sobre o trevo de acesso a Carlos Barbosa esqueci de mencionar que ele contaria com programação local de TV a cabo.

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

O salário dos deputados

Sei que a reflexão é tardia, mas é interessante. 

Estava em casa apreciando meu momento de ócio com alguns amigos. Cerveja na mão. Televisão ligada. Uma partida de futebol. 

Como eu entendo muito de futebol, estava prestando atenção em outras coisas: na propaganda da cerveja (aquela que faz um barulhinho que lembra xixi caindo no vaso), no patrocinador que ornamentava a bunda do árbitro (a Lupo), naqueles logotipos da Coca-Cola que dão a impressão de estarem de pé ao lado das goleiras, e na alegria dos torcedores. Nem sei quem estava jogando. Eram os amarelos contra os brancos (não as etnias), e também não lembro ao certo o placar. Era uma tabuada do dois.

Alguém falou do salário dos deputados - aqueles filhos da puta. Arrisquei-me a pedir quanto os filhos da puta que jogam futebol recebem. Após uma breve reflexão, alguém declara: "o Ronaldinho deve ganhar em torno de 11 milhões por mês, só que não sou eu que pago" (não, são os Illuminati, que conseguem dinheiro repassando o e-mail da menina cega com câncer).

Sorvi um gole da minha cerveja, lembrei-me das minhas meias Lupo na gaveta do armário e da "Coca-Cola nossa de cada dia" na geladeira. Lembrei também do vendedor de melancias gremista que tentou me lograr no troco e que se vangloriava por ter uma "camisa oficial".

- Que bom que os únicos filhos da puta do Brasil  são os políticos. 

***

Certamente o famigerado salário dos deputados é um absurdo - só que o salário de um ronaldinho também  é! Mas disso ninguém reclama! Quando vira notícia é transformado em algo bom, pra torcedor sentir orgulho do seu clube. É transformado num exemplo de garra e superação, num mito e toda aquela balela que serve para tentar justificar uma renda absurda. 

Um mundo onde um jogador de futebol vale mais do que qualquer outro profissional só pode ser um mundo muito doente. E não será a extinção dos políticos a cura. Nós assistimos a esse espetáculo, pagamos ingresso, pagamos tributo aos  patrocinadores, sonhamos com o tênis de 700 pilas. Chamamos isso de arte.

Daqui a quatro anos talvez a cena se repita, mas o grosso do eleitorado estará mesmo  preocupado com o destino do Ronaldinho, com o paredão do BBB ou com as metas da empresa onde trabalha como um escravo. Até aqui nada de novo. Enquanto houver televisão para dizer-nos o que dizer e futebol para discutirmos, estaremos livres desses problemas complicados. Eles devem ser discutidos pelos políticos numa eterna pelada sem campo, sem árbitro e sem torcedores. Nos disseram que é assim que deve ser: "Falem do Tiririca", "falem do salário dos deputados", "agora, voltem a falar de futebol. O Jornal Nacional fica por aqui. Boa noite e até amanhã!".

Pronto. Acabei de atender ao apelo.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

E a revolta continua...

Mais um texto na linha de implicância com as maravilhas da modernidade ou pós-modernidade (vá lá, não sei a diferença...).

Na Internet ninguém quer ficar preso a um só texto, a um só site. O rio de links precisa fluir mesmo que sua correnteza nos leve sempre aos mesmos locais. Mesmo que os locais não sejam nada originais.

As informações, sejam elas wikipedianas ou submarinas, precisam ser, sem exceção, comercialmente úteis. As próprias exceções (se forem reais) podem ser medidas pelo seu potencial mercadológico.

Há, entretanto, comédia na tragédia. Após assistir Efeito Borboleta, coloquei no Google: teoria do caos. O resultado? Este: "compare preços de teoria do caos no BuscaPé" . Só Deus sabe quanta merda existe na Web.

Saí da frente do computador com a impressão de ter sido enganado. Apalpei meus bolsos e senti minha carteira lá. Alívio. Mas o relógio não mentiu. Mostrou-me que foram debitados exatos 30 minutos de minha vida na simples busca pela busca de qualquer coisa. 

Mas falar de teoria do caos é da hora...
A Internet é a verdadeira Terra de Ninguém. Lá o tempo não passa. Ela não é uma ferramenta, mas um enorme vibrador massageando egos mundo afora e, claro, vendendo produtos essenciais à felicidade humana. Você nunca acessou uma página e recebeu a mensagem dizendo que você é o milionésimo usuário e deve clicar no link para retirar o seu prêmio? Fico me perguntando se alguém ainda clica nessas porcarias. Ou se o "empresário" que paga para colocar esses anúncios acredita que alguém ainda clica naquilo. Não basta termos que assistir a um mar de publicidade torpe na estrada? Será que no futuro teremos que engolir um anúncio, também, a cada vez que abrirmos a geladeira? Ou a cada vez que puxarmos 30 cm de papel higiênico para limpar  o ânus? Na verdade a Internet é também um atentado contra a estética.

Mas sou favorável à inclusão digital. Só que isso é outro assunto, outro debate com outras consequências. Entretanto, ainda espero pela aclamada "revolução digital" que chegaria com a Internet. Vi algumas mudanças, umas positivas, outras negativas e uma maioria sem cor nem sabor. Particularmente estou feliz por poder comprar livros na Estante Virtual e palhetas para saxofone no Mercado Livre (na minha cidade só tem panelas, queijo e carros). Também agradeço à "revolução" por poder tirar minhas dúvidas ortográficas no Priberam e por ter meia dúzia de leitores que me permitem dispensar o analista. Fora isso...

Por falar em analista, um velho colega de trabalho apareceu-me, há tempos, com uma resenha do Analista de Bagé nas mãos. Na verdade, ele queria que eu fizesse a resenha porque ele não havia encontrado na Internet. Curioso isso. Era um trabalho para um curso de administração da UCZ (Universidade do Coronel Zorbi). Depois desse dia eu passei a acreditar que a Internet fora criada por um grupo de universitários. E compreendi o porquê. Talvez isso tudo tenha a ver com as polaridades do velcro. Tenho um primo entrando na oitava série que jura que jamais ouviu qualquer professor ensinar qualquer coisa sobre a Internet além de como criar e-mail e consultar o Google. Nem mesmo os professores dos cursinhos de informática. Mas, como não poderia deixar de ser, meu primo fica assim... fascinado com os anúncios... Para ele, isso basta...





segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

Das polaridades do velcro

A epopeia de um consumidor que só queria ouvir seus discos

***

-- Provavelmente é um problema com o seu CD, senhor...
-- Mas eu ouço esse CD no carro, no PC. Por que o problema seria com o meu CD?
-- É que esse CD é muito antigo, senhor. Provavelmente é algum formato desconhecido pelo leitor...
-- CD muito antigo (sic)? Formato desconhecido?

***

Resumindo: atualmente, sempre que quero ouvir meus CDs favoritos, preparo pacientemente uma cuia de chimarrão, respiro fundo e dirijo-me à garagem onde sento-me confortavelmente no banco dianteiro direito do meu carro. É o único lugar onde ainda consigo ouvir meus discos com uma qualidade que não provoca náuseas e um certo conforto. A vista lateral constitui-se de uma prateleira bagunçada com ferramentas, espetos para churrasco e todo o tipo de coisa cortante, perfurante e enferrujada que possa causar tétano. À minha frente há uma parede nua. Do outro lado estão duas bicicletas empoeiradas e com os pneus vazios. Ouço meus CDs num poderoso (risos) Pioneer DEH-546 dos anos 90 (quase tão antigo quanto meus CDs favoritos) que iria parar no lixo por causa de um probleminha no visor. Sim, eu salvo coisas que iriam para o lixo. Sou pobre, claro.

***

Há muito tempo venho defendendo que há uma estupefação generalizada com a tecnologia. Uma glorificação da mesma. Há pessoas que idolatram o MP15! Outras passam boa parte do seu dia realmente preocupadas com questões filosóficas do tipo: qual é a diferença entre uma TV de plasma e uma LCD? Entre HD e Full HD? Entre Dual Core e Quad Core? E não são os vendedores. Aliás, os vendedores são, em geral, os que menos se preocupam com isso, talvez por intuírem a essência de todo esse imbróglio. Os vendedores dominarão o mundo!

É claro que a tecnologia existe para nos servir. Nada melhor do que saber que seu DVD novinho, que você acabou de pagar, em breve será brutalmente substituído pela nova onda do momento: o novíssimo e poderosíssimo blu-ray (com direito a erro de ortografia). Por que raios essa merda não se chama blue-ray? Peço ajuda aos universitários? Enfim, quando finalmente conseguirmos comprar essa merda, ela será obsoleta. A tecnologia existe para nos servir, repito. Para que possamos desfrutar de momentos agradáveis com a família assistindo a um bom filme, etc. Sem dúvida. Não tente duvidar disso publicamente.

A tecnologia sempre avança, porque é ela quem nos serve, certo? Vejamos: No século passado, na era dos vídeos cassetes, chegou a existir (ou ainda existe, não sei) um tal de HD VHS. Aquilo era (ou é) um formato de vídeo  que conseguia armazenar filmes em resoluções altíssimas em fitas VHS (aquelas fitas enormes de vídeo cassete que todos acham engraçadas). Legal, né? Antiquadas fitas VHS podiam armazenar filmes com resolução superior a qualquer DVD. Só voltamos a atingir aquela resolução (em meios domésticos) recentemente, com o blu-ray escrito errado e HDTV. É a mesma ladainha com o vinil x CD. 

O consumo precisa crescer sempre (que novidade!). O mundo pode acabar se as pessoas pararem de consumir trecos e troços eletrônicos, e o fato desses trecos e troços existirem não significa que eles sejam necessariamente melhores ou mais acessíveis do que o troço que existia antes. Significa apenas que nós temos que tomar bem no cu e começar agora mesmo a guardar grana para comprar esse novo treco se quisermos assistir aos lançamentos da Disney quando ficarmos velhinhos.

O consumo precisa crescer e nós devemos comprar o MP15 porque, afinal de contas, ele veio depois do MP14 e, portanto, deve ser "melhor". Além do mais está na promoção. Você ainda ouve MP3 no ônibus, seu alienado? De que planeta você veio? 

O consumo precisa crescer para que computadores velhos sejam doados às nossas escolas e bibliotecas.

O consumo precisa crescer e meus filhos servirão para me lembrar disso. Se não fossem nossas crianças estaríamos ainda vivendo como no tempo das cavernas, usando fechos de velcro, dando pauladas na cabeça das nossas mulheres e saindo com a do vizinho. O consumo precisa crescer para que a tecnologia avance sempre, rumo ao futuro, porque sem consumo e sem tecnologia não teríamos comida enlatada e tampouco chiclete. Levaríamos horas para ir a Garibaldi e jamais saberíamos que os cubanos estão fodidos. Não teríamos como aquecer o leite em 30 segundos. Sequer saberíamos o que são 30 segundos. 

Não saberíamos os nomes das constelações e, por isso, não teríamos horóscopo.

O consumo e sua filha, a tecnologia, existem para que possamos assistir ao Faustão em alta definição de som e imagem. Dessa forma podemos descansar melhor no domingo e, na segunda-feira, trabalhar mais para continuar consumindo e dar continuidade ao movimento dessa roda maravilhosa que nos traz tantos prazeres e nos alivia de tanta dor e sofrimento. 

E que ninguém se questione sobre como o avião consegue voar. Ele voa como voam os anjos. Iremos nós, mortais, perscrutar os desígnios do Criador? Iremos nós questionar aquilo que nos engrandece? 

Vou guardar uma graninha e comprar o meu blu-ray bem quietinho. E não há erro ortográfico (só implicância minha). E se ele não reproduzir meus CDs favoritos não tem problema: a culpa é minha. Além disso posso adaptar o velho Pioneer do carro ao som da minha sala através da magia da fita isolante. Ele será, novemente, um pioneiro.

sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Feliz 2011!

Ufa! Consegui passar o Natal controlando a minha boca, a minha pena e o meu toca-discos. Não falei mal do Papai -Noel, não escrevi alfinetando a publicidade bagaceira que só sobrevive graças ao Natal e o disco dos Garotos Podres não violentou nenhum cedezinho de canções natalinas. Não sei se sobreviveria a um mesmo nível de sacrifícios no reveillon.
Fato é que, com minha boca, meus logins e meus alto-falantes artificialmente acalmados, as pessoas voltaram a querer minha amizade. Deve ser a magia do Natal. "Só pode", diria o José. Os presentes ajudam: com mais dinheiro para gastar as pessoas tendem a ser mais amáveis e a fazer mais amigos. Eu mesmo consegui dezenas de abraços, favores e caronas investindo não mais do que R$ 50,00 em presentes. Utilizei até mesmo a palavra "abençoado". Creia. (Não sei se já falei sobre a arte de ser gente , mas algo me diz que os atores são mais felizes, ao menos enquanto atuam).

Continuando a minha tragédia: em 2011 quero atualizar o ELETROFALO semanalmente. Ele terá também mais imagens e vídeos. Em 2011 farei uma tatuagem e cuidarei da minha rinite com mais amor. Em 2011comerei mais fígado suíno, menos chocolate e mais alface. 

Em 2011 farei amigos e influenciarei pessoas. 

Em 2011 comprarei mais artesanato indígena. 

Dois mil e onze será um ano bom porque todo o ano novo é bom, embora ninguém saiba o porquê. É mais ou menos como Deus. Ele existe e é bom. Ponto.

***

Passar um tempo me policiando para tentar atender às expectativas alheias foi uma experiência agradável (não só para mim), mas devo confessar que passar um ano inteiro fazendo isso deve ser muito frustrante. Por isso, foda-se. Já passou o Natal, 2010 já era e eu não sou bem assim. Agora que esse torpor coletivo está quase acabando podemos voltar à normalidade. À realidade (seja lá o que ela for). A realidade em que as pessoas fazem cocô, bestemam, e perdem o ônibus. A realidade em que as pessoas se agridem e a praça central é suja e sem graça. A realidade em que os DVD's não funcionam como deveriam e a ejaculação precoce volta a ser permitida. A realidade do Fantástico e do Faustão sem mirabolâncias natalinas e sem protetor solar. A realidade em que novamente passaremos doze meses gestando e esperando pelo parto de mais um novo ano, com a boa e velha resignação e mediocridade de sempre.

Feliz 2011!


segunda-feira, 30 de agosto de 2010

Trevo de acesso - milagres da arte e da engenharia

O novíssimo trevo de acesso de Carlos Barbosa é, sem sombra de dúvida, a fusão perfeita entre a matemática e a poesia. Uma verdadeira obra de arte. Tentarei em breve postar fotos ou vídeos para que o leitor possa ter uma ideia mais clara das formas e características de tal prodígio da engenharia.

Claro que não sou engenheiro, por isso, não sou exatamente a pessoa mais qualificada para falar dos detalhes técnicos do trevo. Entretanto, minha experiência como motorista e usuário do Trevo me dá certa liberdade para avaliar alguns aspectos dessa refinada obra de engenharia (sim, agora existe um Trevo com letra maiúscula - apesar de não se tratar exatamente de um trevo...). Como um reles motorista (de carrinho popular antigo, mas tudo bem...) não pude deixar de me impressionar com a segurança que o novo Trevo de Acesso a Carlos Barbosa oferece aos turistas e usuários em geral. Todo o trajeto percorrido é iluminado  e sinalizado de forma perfeita, de modo que, mesmo à noite e com neblina, o usuário tem a mais absoluta certeza de estar dirigindo com segurança. Segurança total! Qualquer pessoa, mesmo semi-analfabeta, não terá quaisquer dificuldades para saber qual caminho tomar. O Caminhoneiro não terá qualquer dificuldade em encontrar os caminhos que levam às indústrias. O Turista jamais ficará em dúvida sobre como chegar ao Festiqueijo, ou à Maria-Fumaça, ou a qualquer um dos nossos incontáveis e indescritíveis pontos turísticos. Não há o menor desperdício de espaço ou de tempo, pois o trevo foi desenhado para oferecer o mais alto nível de excelência em logística. Cada palmo foi exaustivamente planejado para que o usuário pudesse sempre fazer o percurso mais curto, mais econômico e ecologicamente correto.

A tecnologia presente nessa obra é espetacular. Além do aparato de sinalização e iluminação  ultra moderno (que é controlado por quatro super-computafores NEC  SX-9), o trevo ainda conta com uma tecnologia  capaz de assumir o controle do carro assim que o usuário se aproxima da cidade, conduzindo o automóvel para onde o passageiro pretende ir. Por enquanto poucos carros estão equipados para usufruir dessa tecnologia, o que obriga os motoristas a utilizarem o trevo da maneira clássica (com as mãos no volante). Foi pensando no futuro que essa tecnologia foi introduzida, uma vez que, depois da duplicação da RS-470 (por volta de 2097) em conjunto com os progressos econômicos fomentados pelo governo de Aynda Cruzes, o carro pilotado pela rodovia será uma realidade em toda a República Sul-Riograndense.

Mas foi a sensibilidade artística do projetista do trevo o que mais me impressionou. Isso não é uma simples obra de engenharia rodoviária. É uma Obra de Arte. Um Poema Rodoivário. Eu pude sentir isso na primeira vez em que transitei por ele. E ainda sinto. É poesia pura. Não se explica poesia, mas vou tentar explicar essa obra de arte. 

Primeiro devemos lembrar que o engenheiro (digo, poeta) teve o impulso artístico de (re)criar a realidade na mente do motorista-leitor-espectador que por ali passa, através dos recursos semióticos disponíveis, porque, para o poeta, a vida não basta.  É só olharmos o exemplo do final do trevo (no sentido São Vendelino - Garibaldi). Nesse ponto, a pista estreita-se repentinamente, fazendo surgir diante do motorista-leitor-espectador uma linda, frágil e delicada... ponte. Essa ponte (poeticamente falando) nos diz algo sobre a fugacidade da vida, sobre a brevitude de nossa existência sobre o mundo. Numa hora estamos vivendo e, de repente, a vida cessa, e estamos nós a cruzar a ponte, a navegar com o Barqueiro Sombrio rumo ao além...

Se o motorista-leitor-espectador optar por visitar a estação da Maria-Fumaça (não aquela no Centro, mas aquela ali no Triângulo) o Poema Rodoviário o levará para um sinuoso e difícil acesso à direita. Ao transitar por esse acesso é impossível não lembrar da saga dos Imigrantes, pois o caminho estreito, a curva acentuada, a sensação de medo, o perigo,  a desorientação, tudo nos faz lembrar dos heroicos tempos da colonização italiana, das dificuldades da viagem para o Brasil, do trabalho árduo, das incansáveis horas de labuta para construir o mundo que Deus sonhou.

Depois, inevitavelmente, o turista (para sair da cidade e voltar para casa) é obrigado a passar pela rótula da Tramontina Cutelaria. Lá ele verá máquinas, empilhadeiras e caminhões circulando e transportando nossas riquezas. Com sorte poderá ver um ou outro Trabalhador na sua incansável luta para fugir da miséria moral que assombra o resto do Brasil. O turista terá a oportunidade de, novamente, refletir sobre o incansável labutar da nossa gente na construção de uma sociedade mais justa e mais humana.

Nos dias de neblina, transitar pelo Poema Rodoviário fará o motorista-leitor-espectador sentir-se literalmente no início da Criação. A escuridão total, o andar sem ver nada em frente  (apesar da total segurança) remete aos idos tempos bíblicos, quando só existia a escuridão e o Verbo. Então o Verbo diz: Faça-se a luz!! E eis que surgem, altivos e iluminados, a Torre, o Trabalhador de Aço e o outdoor da ACBF - maravilhas do progresso - tudo remetendo ao grande ato criador de Deus, o grande Supervisor, que criou o Homem, a mais bela, perfeita e trabalhadora das criaturas. O Homem, que deu nome aos animais. Que invetou o salame, a brítola e os talheres... Que inventou a mulher e o fumo de corda. Enfim, o Homem, que inventou a Arte para ver a si mesmo também como um Deus...

Explicar uma obra de arte é esvaziá-la, distorcê-la. Por isso vou encerrar minhas elocurbações acerca do nosso maior ponto turístico, o Trevo. Eis o Trevo, simplesmente. 

O futuro é nosso!