Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador contos. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 12 de julho de 2011

O pai a vapor

Seu Antônio chegou ninguém sabe de onde e instalou-se ao pé do pequeno morro, não do lado onde passava a estrada de terra (que descia em direção à Capital), mas do outro.
Construiu a sua casa e constituiu família, trabalhando como agricultor, na base da pequena elevação de terra que o protegia (acreditava ele) do Minuano.
O tempo passou. Antônio assistiu ao nascimento de uma filha e ao desaparecimento da pequena elevação de terra, que fora removida para dar lugar à linha férrea, construída entre a sua casa e a estrada.
Em pouco tempo o lugar paradisíaco que Seu Antônio escolhera para morar havia se transformado num bonito e movimentado vilarejo, que continha até uma plataforma de embarque. Plataforma instalada bem em frente à casa de Antônio que, ao contrário da reação que teríamos hoje, ficou muito feliz por ter sua propriedade tão bem posicionada e valorizada. “Fiz uma boa escolha”, pensava ele toda a quarta-feira, quando o trem passava pelo vilarejo, enquanto olhava a beleza das pessoas e das coisas ao seu redor.
Um pássaro que voasse no sentido leste-oeste, ao olhar para o chão veria, nesta ordem: a estrada de terra que descia a serra em direção à Capital, uma linha férrea que ladeava a estrada até o vilarejo, uma belíssima plataforma de embarque (que, inclusive, contava com casinhas para abrigar os pombos famintos), uma pequena rua cuidadosamente pavimentada e, por último, a casa de Antônio (tudo minuciosamente alinhado, disposto em linhas paralelas). Mas o que realmente encantava o olhar dos pássaros era a plantação de milho de Seu Antônio, situada atrás de sua casa. Encantava, não tanto pela abundância de sementes, mas principalmente pelo formato triangular da propriedade. As terras de Seu Antônio tinham o formato perfeito de um triângulo equilátero. Essa peculiaridade devia-se ao fato de que a propriedade era cuidadosamente (e literalmente) cercada pelos trilhos do trem. Tal triângulo ferroviário era o recurso utilizado na época para “manobrar” a locomotiva a vapor, quer dizer, colocá-la na direção oposta a que estava anteriormente, de modo que pudesse retornar pelo mesmo caminho por onde viera. E funcionava assim: A locomotiva chegava ao vilarejo e parava na plataforma e, enquanto os passageiros subiam e desciam dos carros, o maquinista desconectava-a dos vagões e a fazia seguir em frente até ultrapassar o primeiro vértice. Em seguida, em marcha à ré, seguia pela segunda face do triângulo até o próximo vértice, quando a locomotiva tornava a andar para a frente até encontrar a terceira face do triângulo, onde voltava a conectar-se com os vagões, desta vez na outra extremidade do conjunto de carros, estando, desta forma, pronta para retornar pelo mesmo caminho.
De fato, o trem não “passava” pelo vilarejo. Apenas tocava-o para depois retornar.
Depois de executar tantas tarefas pesadas, o maquinista tinha direito a um merecido descanso antes de seguir viagem. Uma pausa de dez minutos. Descansava invariavelmente encostado à parede da casa de Seu Antônio, ao lado de uma janela com floreira por onde Anita, filha de Antônio, servia ao maquinista saborosas xícaras de café.
Não demorou para o pai de Anita perceber que eles poderiam estar apaixonados e que,  por causa disso, deveria ter uma conversa com o possível pretendente.

- Olá! Disse Seu Antônio.
- Olá.
- Não estaria na hora de o senhor ir até a locomotiva liberar o excesso de vapor?
- Ah, não, Seu Antônio. Nesta semana a Companhia instalou uma válvula automática que libera o vapor excedente automaticamente. É uma joia!

Na semana seguinte o trem tornou a visitar o vilarejo. Todo o procedimento se repetiu e o condutor foi (como sempre) até a janela degustar o café de Anita. Convencido de que deveria dar um jeito naquela questão, Seu Antônio foi novamente ter com o maquinista:

- Olá!
- Olá!
- Não estaria na hora de o senhor ir até a locomotiva e fazer soar o apito para avisar os passageiros que o trem está para partir?
- Ah, não, Seu Antônio. Ontem a Companhia acabou de instalar outro dispositivo automático, uma espécie de relógio que faz com o que apito soe automaticamente no horário exato da partida. Uma joia!

Na semana seguinte, Antônio continuou a observar o maquinista, que desta vez descera da locomotiva antes de executar as manobras costumeiras, e dirigira-se direto à janela onde a bela moça já o aguardava com o café. Seu Antônio já o esperava para a prosa costumeira.

- Olá!
- Olá! Respondeu o maquinista.
- Será que, por causa do saboroso café de minha filha, o senhor não se esqueceu de manobrar a locomotiva, como de costume?
- Ah, não, Seu Antônio. A Companhia acabou de instalar um complexo mecanismo e um conjunto de alavancas nos trilhos que permitem que a locomotiva execute esse trabalho automaticamente.

E os três ficaram observando a grande máquina fumegante que, sem qualquer auxílio humano, soltara-se dos carros, percorrera o triângulo e voltara a conectar-se na outra extremidade do comboio. Depois do espetáculo os homens voltaram a conversar.

- Uma joia! Disse o maquinista. Daqui a alguns minutos ela, sozinha, dará o apito da partida e eu saberei que é hora de ir embora. Se eu não tomar cuidado ela parte sem mim.
- Pelo visto, em breve a Companhia não vai precisar mais de maquinistas.
- Na verdade já não precisa, ela só necessita de alguém para abastecer o reboque com lenha e carvão, acender a fornalha da locomotiva e fazer a limpeza da caldeira no final do dia.
- Vejo que não tenho saída. Então... será que não está na hora de o senhor ir até o meu machado, abastecer a minha caixa de lenha e acender o fogão para o nosso almoço?

Assim o maquinista casou-se com a filha do Seu Antônio. Passou a trabalhar numa pequena fábrica de panelas, operando as máquinas a vapor que impulsionavam as lixadeiras. Logo construiu uma casinha em seu próprio triângulo de terra que, rumando com a propriedade de seu sogro, fazia com que a terra de ambos constituísse um bonito losango.
Foi uma boa escolha”, pensou Antônio, enquanto produzia fumaça com seu cachimbo.

*
*          *

Bem, é chegada a hora de pedir desculpas ao leitor porque até o presente momento o fizemos acreditar que o protagonista desta história fosse Seu Antônio. Mas não. Creiam ou não, nossa personagem principal é a própria locomotiva. E se até agora não lhe demos um nome é porque acreditamos que também ela não passe de mais uma personagem plana, como Seu Antônio, Anita ou o maquinista. Ademais, a singularidade da personagem dispensa o uso de um nome.
O fato é que o tempo foi passando e a locomotiva foi sofrendo modificações. As constantes melhorias e atualizações promovidas pelo Companhia logo possibilitaram que a locomotiva trabalhasse por conta própria. Em pouco tempo ela estava de posse de inteligência e vontade própria. Aprendeu a ouvir e a falar. Deixou de ser um equipamento com preço e proprietário para, através de um longo processo judicial, ganhar a sua liberdade. Deixou de ser escrava para tornar-se sócia da Companhia.
As pessoas gostavam de viajar nela. Os mais íntimos conversavam, trocavam conselhos e confidências, dicas de amor, culinária, calúnias e canções típicas. Ela era o orgulho da comunidade.
Houve festa no dia em que ela recebeu uma importante modificação patrocinada pelo Tigers Club local: um conjunto de pneumáticos e sistema de direção. Daquele dia em diante ela poderia andar em qualquer local. Não estaria mais limitada aos trilhos.
Agora a locomotiva frequentava festas, ia à igreja, reuniões de partidos, jogos de futebol, enfim, tudo o que um cidadão normal poderia fazer. Inclusive acessar a Previdência Social.
Aposentou-se e, de repente, numa manhã em que degustava um novo tipo de carvão mineral de ação prolongada, sentiu-se inundada por uma sensação diferente e, até certo ponto, atormentadora. Percebeu que talvez fosse incapaz de morrer.
Lembrou-se dos funerais de Seu Antônio, Dona Anita, e do seu amigo maquinista. Lembrou-se também de pessoas ilustres que já partiram. Estavam mortos há muitos anos e pensou que talvez devesse levar-lhes flores no cemitério. A locomotiva, materialista que era (e sabedora de sua origem mecânica), não estava bem certa de que a vida continuava do outro lado, apesar de ser uma assídua frequentadora da Igreja.
Ela percebeu, então, que jamais poderia amar alguém a ponto de ter filhos. Costumava assistir prazerosa aos adeus e despedidas de famílias inteiras nas plataformas de embarques, e sabia que, por mais tecnologia que incorporasse, jamais teria o privilégio humano de ter uma família para abraçar, rir e chorar, ou deixar heranças, conforme fosse o caso.
Diante disso, ela própria determinou que sua família seria o próprio povo do vilarejo. E ela não estava de todo enganada. Aquela gente era, de algum modo, uma espécie de família que ela ajudou a construir. Decidiu que aqueles habitantes seriam, a partir daquele dia, seus próprios filhos e filhas.
Pensou em como avisar as pessoas sobre isso e concluiu que a melhor forma de se mostrar (ou de agir) como pai e mãe daquele povo seria colocando-se numa posição em que pudesse exercer liderança (tal qual um pai) e oferecer conforto (como uma mãe). Candidatou-se à prefeitura local.
Depois de uma breve disputa com a oposição (“aquela gente que vem de fora pra mudar nosso jeito de falar” – diziam as pessoas) ficou acordado, por vontade geral da população, que ela (a máquina) teria o direito a candidatar-se até mesmo ao cargo de Bispo, se o desejasse. Candidatou-se e, como o previsto, elegeu-se prefeito municipal. Naquela ocasião mandou construir uma outra locomotiva, parecida com ela mesma, que continuaria a visitar o vilarejo e alegrar os moradores e visitantes, muito embora não fosse permitido que aquela réplica tivesse dispositivos automáticos.
Ainda hoje, passados muitos anos, aquela máquina detém o poder na região, embora não se admita mais locomotivas nos cargos públicos. Na verdade, aquela gente que ela considerou seus filhos cresceu e, hoje, poucos sabem que aquela máquina existiu e ainda existe. Atualmente ela continua a governar a região com mão de ferro (literalmente), escondida no seu galpão, soltando baforadas do seu belo cachimbo. Ela é, agora, uma espécie de poder oculto, que governa não só a coisa pública às escondidas, mas também boa parte das das maiores empresas privadas da região, embora a maioria das pessoas prefira acreditar que são governadas por representantes legitimamente eleitos. Parece que o povo do vilarejo não precisa mais de um grande pai comum e, por isso, a locomotiva passa os seus dias trancada no seu galpão, angustiada e deprimida, dando ordens aos seus correligionários (eleitos ou não) e tendo sonhos suicidas em que o antigo maquinista substitui o carvão de sua fornalha por gelo e neve.
 
Mal sabia Seu Antônio que no futuro o seu vilarejo seria todo cercado por trilhos de trem, que as propriedades seriam todas limitadas por infinitas conexões ferroviárias e que as próprias pessoas passariam a estar ligadas por trilhos invisíveis controlados por aquela engenhoca maravilhosa que manobrava e apitava automaticamente em frente a sua casa. Mal sabia Seu Antônio, na sua inocente boa vontade, que somente os pássaros que sobrevoavam a estação férrea estariam livres daqueles terríveis trilhos.

terça-feira, 5 de julho de 2011

A voz do Sol

Erasmo, o catador de latinhas, costumava deleitar-se olhando as estrelas e adivinhando mundos desconhecidos. Gostava de acreditar que, em algum lugar lá em cima, pessoas como ele também estariam contemplando o céu e adivinhando mundos; e ria quando imaginava que pudesse existir um outro Erasmo, catador de latinhas, morando numa daquelas estrelas e levando uma vida igual a dele, como se o universo fosse um grande lago, onde a parte de baixo fosse o reflexo da parte de cima.
Na verdade, Erasmo só parava de pensar nessas coisas quando sentia a necessidade de pensar em como sobreviver. Numa dessas ocasiões ouviu alguns amigos afirmarem que na universidade as pessoas bebiam muita Coca-Cola, tratando-se, portanto, de um mercado inexplorado. Além disso, ouviu dizer que lá não havia concorrência na catação das latas e que as lixeiras costumavam ser limpas, contendo, no máximo (além das latinhas) papel e embalagens de cigarros vazias. Não precisaria, portanto, sujar as mãos em lixeiras ancestrais que poderiam conter, talvez, até a própria matéria primordial (aquela a que os alquimistas se referiam) usada por Deus para fazer as estrelas.
Não demorou a entrar em ação. Catou seus sacos e seu carrinho com rodas tortas de bicicletas órfãs e desceu a ladeira em direção ao campus (sempre que ouvia alguém pronunciar essa palavra, lembrava do cemitério. Tinha a imprecisa certeza de que, há muitos anos, ouvira alguém chamar o cemitério de campo, ou campus, ou algo assim, santo).
Lembrava-se da sua infância enquanto descia a ladeira suavemente. Pensava nos mortos que já vira entrar no cemitério, transportados em carrinhos semelhantes ao seu. Imaginou-se descendo a ladeira com um carrinho daqueles, carregando um defunto. Depois, vislumbrou-se no caixão, sendo conduzido ladeira abaixo pela estátua nua da praça. Riu.

A universidade, no domingo, era pouco movimentada. Logo que chegou, Erasmo tratou imediatamente de procurar pelas lixeiras de plástico afim de localizar o precioso material. Na verdade havia muitas lixeiras, mais do que no centro da cidade. Mas havia poucas latinhas. Talvez o caminhão do lixo houvesse passado antes dele, na sexta ou no sábado.
Estando longe da sua casa, decidiu ficar por ali, até segunda ou terça-feira. Fez o que sabia fazer: sentou-se num canto de modo a não incomodar ninguém (sobretudo os homens de azul que já lançavam olhares escorregadios) e cobriu-se com uns trapos. Ficou ali, entregue às estrelas que ele tanto conhecia e admirava.
Dormiu e acordou na segunda-feira, já perto da hora do almoço. Retirou de uma de suas sacolas plásticas a refeição previamente preparada por sua irmã, que deveria estar pelas bandas da linha férrea, onde havia fábricas e muitas caixas de papelão. Ambos sabiam que era preciso explorar lugares novos (que seriam, necessariamente, encontrados debaixo deste sol), e que isso poderia demorar um tempo. De qualquer forma, sabia que ela conseguia mais dinheiro prestando serviços aos operários na saída das fábricas do que catando papel. Mas isso não o incomodava. Havia comida para mais de um dia (se fosse preciso) e água nunca lhe faltava. Ele a buscava numa torneira qualquer. Erasmo sabia que onde havia um gramado bem cuidado havia uma torneira. Como no cemitério. Por precaução sempre trazia uma garrafa presa na lateral do carrinho, a qual aproveitava para abastecer sempre que encontrava uma torneira à deriva.
No campus, tinha medo de se aproximar do lugar onde havia mais pessoas. Ele sabia que não era bem-vindo nesses espaços com gente diferente comendo em mesinhas redondas colocadas em grandes espaços coletivos. Ao mesmo tempo tinha a impressão de que essa gente diferente também tinha medo dele. Mesmo assim, a universidade passou a fazer parte do roteiro de Erasmo, que a visitava de tempos em tempos, mais pela facilidade em descer a ladeira do que pela quantidade de alumínio coletado.

De fato já havia percebido que ali, diferente do que ouvira falar, as pessoas não consumiam tanta Coca-Cola. Não mais do que em qualquer outro lugar e até menos do que na estação rodoviária. Entretanto, uma coisa era certa: não havia concorrência. Erasmo, até agora, era o único catador de latinhas a se aproximar do campus, se bem que ele próprio reconhecia que jamais se aproximara dos locais onde circulavam os homens de azul. Sabia, ou melhor, sentia que aqueles homens não permitiriam que ele se aproximasse demais. Para não perder a viagem, limitava-se a coletar as escassas latinhas depositadas nas lixeiras do estacionamento. Sempre nos horários de menos movimentação. Nunca aos domingos. O caminhão não deixava nada para os domingos.

***

Certo dia, posterior à noite em que trocaram a água de sua garrafa por cachaça, Erasmo amanheceu cheio de coragem e enveredou em direção à praça de alimentação do campus. Sem medo e sem documentos. Quando percebeu que um dos seguranças corria em sua direção, abandonou o carrinho e, munido apenas de uma sacola, pôs-se a correr também. Sabia que não chegaria até as lixeiras e, por isso mesmo, já antecipava o momento em que  o homem de azul chegaria para xingar a sua mãe de puta e arrastá-lo para fora dali. Mas seguiu, corajoso.
Conforme o previsto, sentiu o homem chegar e segurar seu braço fazendo-o parar. Mas não ouviu o xingamento, pois quando o segurança abriu a boca, ao invés de impropérios e saliva, saíram apenas raios de luz. Muita luz, como o farol de uma motocicleta que estava prestes a atropelá-lo. Olhou ao redor e, iniciado o tumulto, percebeu que as demais pessoas também emitiam luz pela boca no lugar de palavras. E as luzes saiam e iluminavam lixeiras, paredes, chão, vitrines, e os rostos pálidos das outras pessoas, projetando sombras e imagens. Imagens às vezes sujas e feias, às vezes complacentes. Imagens indignadas e indignantes nas quais, muitas vezes, ele se reconhecia.
As pessoas não pronunciavam palavras -- projetavam imagens.
No momento em que Erasmo não pôde mais suportar o medo e gritou, todas as luzes de todas as bocas se apagaram. Ouviu, então, o seu próprio coração e não pôde deixar de sentir um cheiro que o fazia lembrar-se de um livrinho de alquimia que encontrara, há anos, na lixeira de perto da igreja. Cheiro de livro antigo que o padre velho recolhera do inocente coroinha e atirara ao lixo com repulsa. Era o cheiro da roupa do homem de azul que o prendia pelo braço.
Antes de ser também ele jogado para fora dali, Erasmo pensou em justificar-se (afinal, não queria incomodar ninguém) dizendo que precisava de latas de alumínio para vender na cooperativa de reciclagem. Achou também que deveria pronunciar a palavra “desenvolvimentossustentável” (cujo significado ele desconhecia, mas que fascinava as pessoas instruídas). Com um esforço gaguejante, abriu a boca que tremia de medo e pronunciou o primeiro fonema. O segundo. O terceiro. Pronunciou a primeira palavra. A segunda. Parou.
Ninguém parecia compreender o que ele queria dizer. A multidão se entreolhou e, pouco a pouco, pequenos fachos de luz voltaram a sair das bocas das pessoas. O coletor de latinhas fechou os olhos antevendo o conforto de um desmaio, mas não houve escuridão. Mesmo de olhos fechados Erasmo conseguia ver os pequenos raios luminosos que saiam das bocas.
Assim, de olhos fechados, ele ficou observando as imagens que as pessoas diziam dele. Uma luz mostrava que a pessoa que a emitiu estava com medo. Outra mostrava angústia. As luzes das pessoas que estavam mais distantes mostravam curiosidade, vontade de se aproximar. As mais próximas mostravam que as pessoas queriam se afastar. Luzes fortes e fracas, coloridas e pálidas. Logo o coro de luzes voltou a iluminar os olhos fechados de Erasmo com uma insuportável sinfonia silenciosa de cores e imagens. O único ruído audível era o do seu próprio coração.
Com um golpe violento o mendigo desvencilhou-se do homem (que já não o prendia) e correu com toda a força que suas velhas pernas permitiam.
Passou pelo carrinho de rodas de bicicleta, atravessou o estacionamento trombando em arvorezinhas e pedestres incautos, subiu escadas, pulou muretas, derrubou bancas de flores, espantou folhas de jornais que esvoaçaram em alvoroço junto aos pombos.
Correu o quanto pode. Subiu a ladeira. Atravessou ruas e avenidas, praças e parques, de modo que só parou de correr depois de muito tempo, quando já escurecia. Parou ofegante, em frente à estátua de uma mulher nua que derramava água de um vaso. “Uma água que sem fim”. Olhou para a estátua (com medo de que ela também o enxotasse dali com possíveis luzes cor-de-mármore) e ficou esperando. Levou algum tempo para perceber que, além do próprio coração, podia ouvir também o burburinho da água que caía.
Logo descobriu que aquela estátua era a única coisa no mundo com a quem ele podia conversar. Ela contava-lhe histórias de tempos idos, não com a voz de luz, mas com voz de gente, com palavras. Ele narrava as suas aventuras e contava confidências ao pé do ouvido. Com o tempo, aprendeu que conseguia compreender as palavras de qualquer coisa que emitisse luz, embora só as palavras daquela estátua atraiam-no. Apaixonaram-se como se apaixonam as pessoas de carne. Junto dela ele aprendeu a amar e a cantar.
Assim Erasmo terminou seus dias, tendo aquela estátua como companheira. Pessoas de muito longe vinham à praça para assistir aquele espetáculo que era Erasmo declamando poemas e cantando canções antigas, trepado num caixote de feira que servia de palanque. Quem gostava costumava retribuir com trocados, sorrisos e exclamações luminosas que saiam de suas bocas e se misturavam com a alegria dos anúncios eletrônicos e as incertezas dos semáforos. Mas, para além dos edifícios, Erasmo sabia que as próprias estrelas escutavam-no admiradas. Era o que lhe afirmavam aquelas pequenas luzes que brilhavam no céu.



sexta-feira, 17 de junho de 2011

Storie e racconti III - Baile, Chevette e Farroupilha


     Existe, no interior da nossa cidade, um local conhecido como Três de Paus. Trata-se de uma encruzilhada que tem esse nome por causa da disposição das estradas que, ao se cruzarem, não o fazem de forma perpendicular, mas num ângulo semelhante ao que se cruzam as clavas de um três de paus de um baralho espanhol, baralho muito utilizado na região para jogar a escova (ou escoba).
     A história a seguir foi contada por A. T. e I. K., uma dupla de heróis barbosenses, descendentes de alemães, com residência e emprego fixos e que, por incrível que pareça, são jovens demais para morrer e velhos demais para o rock 'n' roll.
     Aos fatos...
     A posse de uma habilitação para dirigir, em conjunto com o recém adquirido Chevette de A. T., possibilitaram aos dois amigos inaugurarem uma nova fase de suas vidas: os bailes (também chamados de reúnas). Agora poderiam ir aos bailes que quisessem, quando quisessem (sem depender do “ônibus no local de costume”) e, de quebra, levar as meninas (que pudessem) para passear de Chevette depois do baile. Chevette 1973.
     Ocorre que “levar as maninas para passear”, naquela época, não era algo tão factível como é hoje. Não foram poucas as vezes que nossos aventureiros tiveram que regressar dos bailes na solidão do banco da frente, carregando as meninas somente na imaginação, onde elas faziam companhia à lembrança do patrão que os estaria aguardando no trabalho na manhã do dia seguinte.
     Diante de tanta consternação (já que o carro não carregava as meninas), não tardou para o pequeno Chevrolet ver-se obrigado a carregar outras atribuições. Em pouco tempo, sempre que retornavam dos bailes sozinhos, “aprontar pelas colônias” tornou-se uma questão de honra. Mas não se assustem, porque a direção era defensiva, e a diversão era algo que, se não substituía um amor fugaz de domingo, servia de vingança, embora nem sempre houvesse vítima.
     Por isso, nossa dupla dinâmica possuía vários planos. Cansados de voltar para casa sozinhos e solteiros, eles decidiram que no retorno da próxima reúna iriam aplicar o “plano B”.
     O tempo passou. Veio o domingo: o padre abençoou, o churrasco findou e a noite chegou. Baile acabou e ninguém namorou. Cansados de cantarolar as rimas da Banda Barbarella, decidiram que era chegada a hora de sair do salão e aplicar o tal plano.
     O “plano B”, ao contrário do que se poderia imaginar, não envolvia prostíbulos e afins. Não o “plano B”. Este consistia em fazer uma “macumba” na encruzilhada, por pura diversão, para rir da vizinhança e ouvir o fala-fala. Dirigiram-se ao Três de Paus e lá, bem na encruzilhada, estenderam uma toalha, colocaram cigarros, acenderam velinhas, dispuseram flores e copos com cachaça que, acreditem, já estavam no porta-malas do chevette aguardando a ocasião, juntamente com uma galinha de patas amarradas que já não tinha vontade de cacarejar. Tudo arrumado, faltando somente a cereja do bolo (ou da macumba). Houve uma breve troca de olhares e eis que cada um saca do seu bolso uma calcinha que roubou como pode do varal de sua casa. A de A. T. era, de longe, a mais bonita, pois era quase nova e tinha alguma rendinha, enquanto que a de I. K. já estava bastante usada, era enorme, tinha o elástico destruído e o tecido a beira de rasgar-se. Mas eram calcinhas, e foram cuidadosamente estendidas, de forma a dar equilíbrio e leveza ao conjunto. A obra de arte estava pronta. E o Chevette os conduziu ao conforto do lar.
     No dia seguinte, a presença daquela oferenda (que seria a primeira a ser vista na região) deu o que falar. Todos queriam expor a sua teoria:
    - É trabalho pra obter amor, não há problemas em chegar perto.
    - Não. É oferenda pra acabar com casamento. Tem que passar longe.
    - Que nada! Isso tudo é bobagem! Podem aproveitar os cigarros que a embalagem está lacrada.
    E assim, cada um expos a sua teoria, até que, o mais sábio de todos, aproximou-se da turba que analisava a novidade com curiosidade infantil e disse:
    - Eu sei quem foi que fez isso. Foi aquela negrada de Farroupilha. Eles vieram numa Kombi, espalharam essas coisas pelo chão e chamaram por Satanás durante toda a noite. Aquela negrada de Farroupilha.
    - Mas como o senhor sabe quem foi?
    - Às Vezes a gente sabe sem saber, meu filho!
***
     Ainda hoje, passados muitos anos, mesmo que os nossos heróis admitam sem nenhum remorso a autoria da pueril e inofensiva brincadeira, há quem prefira acreditar nas palavras do velho sábio: “Foi aquela negrada de Farroupilha”.




sexta-feira, 13 de maio de 2011

Storie e racconti II - Gente que faz

A nossa região é conhecida em todo universo pela absurda aptidão da nossa gente para o trabalho. E também pelo frio. E pelo vinho, em alguns municípios. Quando pensei em gente trabalhadora, frio e vinho, lembrei-me logo de uma história contada, há vários anos, por um então professor do Senai. Ele não é exatamente um "nono", mas é uma figura muito inteligente e simpática. E tem estrada. Só vou dizer que esse cara, na sua juventude, chegou a trabalhar no setor de engenharia da Tramontina, no tempo do epa, quando, para fazer uma simples cópia de um desenho (o que custava uma fortuna), necessitava-se de mão de obra altamente especializada, produtos químicos e equipamentos alienígenas.


EU TRABALHEI NA ENGENHARIA DA TRAMONTINA
(História contada há anos, por um então professor do Senai)

Mas isso foi há muito tempo. Nem vou dizer quando para não ficar feio. Mas digo que, naquele tempo, projetar e colocar no papel um simples desenho de uma lâmina de uma faquinha qualquer, não era brincadeira. Como diz a gurizada de hoje: era foda. O computador só veio alguns anos depois e, mesmo assim, sua aplicação era bem limitada.

Bem, mas vamos aos fatos. Trabalhávamos numa sala, em três pessoas. Lá havia aquelas mesas de desenho enormes, magníficas, cada uma com uma tonelada de equipamentos para o desenhista utilizar, papel, tudo. Era quase que uma sala ultra-secreta. Quase ninguém entrava lá. Para falar a verdade, se você não fosse atento, apanhava para achar o caminho. Lá também havia uma prateleira com diversos recipientes que continham produtos químicos utilizados para, entre outras coisas, copiar os desenhos. Era um processo interessante, qualquer dia eu falo sobre isso...

Aquilo tudo era no tempo da máquina de escrever e do ponto com cartão perfurado, mas, apesar de tudo, aquela época tinha as suas elegâncias. Havia, por exemplo, a sempre necessária garrafa térmica com café. Desde lá até os dias de hoje, o único setor de qualquer empresa que não é movido a café é, sem dúvida, o chão de fábrica. Fora esse, era capaz de ter uma garrafa de café até na salinha de ferramentas do jardineiro.


E, apesar de estarmos falando em tempos do epa, também havia modernidades. Sabe aquela mania de organização que faz o pessoal sair colocando etiqueta por todo o lado? Naquela época já tinha disso. Acima do bebedor havia uma identificação bem visível: BEBEDOR. Nos ramais de telefone de toda a empresa tinha que ter a identificação: TELEFONE. Será que tinham medo que alguém não soubesse o que era um telefone? Seria cômico se não fosse trágico. Parecia que haviam descoberto o alfabeto. CARTÃO PONTO, VASSOURA, LIXO, GAVETA, PRATELEIRA, RELÓGIO... Só faltava identificarem as portas e as janelas...


Na nossa salinha não era diferente. Mas havia um porém: algumas coisas precisavam realmente de identificação. Era o caso dos químicos na prateleira. Cada recipiente estava identificado com a descrição do conteúdo, e os mais perigosos traziam a temerária e universal caveirinha, mostrando tratar-se de algo venenoso. Lembram daquela aula do Seu Madruga na escola do Professor Girafales? “Quando virem esse símbolo, não bebam!”


Naquele momento da empresa, o nosso principal desafio, enquanto engenharia, era conseguir não passar frio no inverno. Nos reunimos, fizemos um brainstorming e descobrimos que a melhor alternativa seria adicionar graspa ao café que consumíamos. A partir de então o problema passou a ser o seguinte: como fazer entrar e permanecer na empresa, na nossa salinha, uma garrafa de graspa, sem que ninguém percebesse? De vez em quando rolava uma espécie de “auditoria”, por isso, simplesmente esconder a garrafa em qualquer lugar era inviável. Alguém fatalmente a encontraria.


A solução foi encontrada por um colega nosso que, numa manhã de domingo, teve uma visão inspirada. Ele pensou em esconder a graspa na prateleira dos químicos, num recipiente idêntico. Na segunda-feira ele providenciou um recipiente novo, a caveirinha e a devida identificação. A partir de então passou a figurar mais um químico na nossa sala. A identificação dizia: CUIDADO – ÁCIDO GRASPÓLICO.


Assim, consumimos em segredo, durante vários invernos, o nosso divino café com graspa.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Storie e racconti

Storie e raconti são, na verdade, histórias de nonos. Velhinhos anônimos (de fato ou por conveniência) que, nessa série, serão tratadas como mera fonte de causos e assuntos para o infeliz exercício da narrativa escrita. Por isso, desde já assumo que estou, sim, cometendo o pecado de reduzir os relatos dessas preciosas fontes históricas (que seriam os nonos) a tentativas, talvez infrutíferas (porém prazerosas), de literatura. Entretanto, sugiro aos que, por ventura, se incomodarem com tal sacrilégio, que, por hora, denunciem-me ao Bispo. Ele saberá o que fazer. Além do mais, sugiro, ainda, que os descontentes busquem por si mesmos seus nonos e divirtam-se. As colônias e asilos estão abarrotados de velhinhos ansiosos por contar-lhes suas aventuras. E certamente é mais agradável ouvi-las dos próprios nonos do que ler esses meus textos, porque um texto é sempre um texto: é pensado, e, por isso mesmo, falseado. Falseado, talvez, até o extremo de pôr em perigo nossa história, nossa mitologia e nossos heróis. Mas não tão falseado que não deixe restar alguma verdade.

Os nonos nos contam histórias que, infelizmente, desaparecem junto com a neblina das segundas-feiras de manhã. As histórias que sobrevivem e ganham seu trono de papel são, invariavelmente, diferentes destas que irei registrar. Aquelas são padronizadas e mal conseguem ocultar seus objetivos moralizantes e condicionamentos ideológicos. Estas são confusas e obscuras, beirando, às vezes, a obscenidade. Os nonos que as contam deixam transparecer aspectos que o ouvinte desatento desconsideraria ou sequer perceberia: gestos, trejeitos e pontos finais cravados com o roncar de uma bomba de chimarrão. E longos silêncios que, quando interrompidos, não deixam de estampar a frustração nos semblantes de seus narradores. Narradores de silêncios. De causos que não foram recordados ou inventados para serem contados ao netinho ou à plateia em delírio, mas que vieram à tona sem motivo aparente, no fogo do acaso, saídos do fundo de um baú que já não se lembra bem das datas, mas que reconhece claramente os fantasmas desenhados pela fumaça de um palheiro. Histórias do nada, que não deveriam ter sido contadas.

O FIM DE SEMANA, O CHURRASCO E O VINHO 
(Livre adaptação de história contada por D. N. P.)

Antigamente não se fazia churrasco assim, como se faz hoje. Me lembro que tínhamos que meter as carnes em espetos feitos de pau (às vezes de bambu) e enfiá-los no chão, em roda de um fogo feito de lenha num buraco não muito fundo, ou numa churrasqueira improvisada com tijolos empilhados. Tínhamos que escolher as varas de acordo: não podia ser muito seca, nem muito verde. Nem muito grossa, nem muito fina. Depois, era descascar a facão para ela ficar mais ou menos reta e poder receber o pedaço de carne. Eu era bem pequeno, mas lembro do avô fazendo esses espetos de pau.

A carne não era furada na hora, com o espeto; ela já tinha que vir furada. A turma que matava o animal já cortava a carne de acordo e já fazia os furos mais ou menos certos pra poder meter os espetos de pau. Lembro que a carne era boa. Era preciso bem mais tempo para preparar um churrasco, que só saía se fosse sol. Os parentes, volta e meia se reuniam para fazer o churrasco.

A gente não era rica, mas não era pobre. Não precisava de esperar um casamento pra fazer churrasco. Isso é bobagem. O pai sempre tinha, no chiqueiro, um porquinho para cada filho, e a gente engordava. Também tinha os novilhos: se não servia pra canga, servia pra engordar. Teve uma época que a gente também tinha muito peru. Tinha sempre seis ou sete. Era uma barulheira. Tu assobiava e eles respondiam. E eles eram meio brabos. Se fosse hoje, tu tinha que cuidar com os perus, não com os cachorros, porque eles te corriam atrás. E galinha. Galinha sempre teve. Era só correr atrás e puxar o pescoço. Bom, é só olhar: até hoje, tem galinha por tudo.

Mas aconteceu assim: naquele tempo também tinha gente sem vergonha. Cuida: Tinha um vizinho nosso que, quando tinha festa, bebia e bebia que nem um louco. E a mulher dele ficava lá, passando vergonha. Você sabe como é. E ele chegava até a oferecer a dita para os vizinhos, por brincadeira, claro (coisa de tchuco), fazendo preço e contando as “vantagens” da sua mulher. Ela ficava quieta. Na maioria das vezes nem sabia das bobagens que ele falava; porque era que nem hoje: os homens num canto, com suas conversas, e as mulheres noutro canto, com seus assuntos... É como nós, agora.

Só que o problema é que a tal mulher, deste que eu te falei que bebia, era muito formosa. Bonita mesmo. E, apesar de a gente saber que ele oferecia ela para os amigos assim, de brincadeira, a cabeça trabalhava. A gente ria e barganhava o preço, por brincadeira, mas a cabeça movimentava ideias.

Mas escuta o que eu vou te contar (e essa, quem aprontou foi o próprio irmão desse fulano que bebia): Naquele dia, veio vinho e vinho até que o homem não parava mais sentado. O churrasco era na casa desse senhor. O homem dormia na cadeira, tchuco que dava dó. E era apenas de manhã. Bom, acho que tu sabes onde essa história vai acabar, mas deixa eu contar: O irmão deste, que era mais íntimo da casa, pegou o homem e carregou até o quarto, para ele dormir um sono e não incomodar no jogo da escova. Maldito vício da bebida. Ficamos nós na área, jogando escoba, e as mulheres na cozinha, com suas coisas, e a piazada brincando com os cachorros no riachinho que passava detrás da casa. No fim já era hora de começar o churrasco. Eu fui pros lados da casa ajudar com o fogo. Naquela época eu já tinha uns trinta e poucos anos, tinha filhos e tudo.

De repente, vem um piá, mandado da mãe pra chamar o pai, que era pro pai correr pra casa ligeiro que as vacas tinham rebentado a cerca de novo e escaparam pra estrada. Tocamos o guri pra cozinha, porque achávamos que o pai dele estava lá, salgando a carne. Mas o piá voltou, porque o pai não estava lá; e junto veio as reclamações das mulheres para saber onde se metera a Josefa, que elas precisavam de saber onde que ela guardava os ovos pra maionese e não sei o quê...

Se entreolhamos e eu dei um grito: Pedro, toca pra casa que a tua alemoa mandou o guri te chamar, que as vacas estão na estrada. Gritamos assim, porque é mais fácil do que sair pra lá e pra cá procurando, porque a casa era bem grande, tinha a estrebaria, o porão, a parreira, as fruteiras, como saber? E eu estava com o sete-belo na mão, não queria parar o jogo, e se aquelas vacas fossem longe teríamos todos que ajudar.

Mas o homem estava perto, num quartinho de visitas com a janela que dava bem do lado de onde estávamos jogando, na área. Ele, o pai, ouviu e gritou de volta: “guri, diz pra mãe que eu tô espetando a carne e que depois eu vou lá!” [risos]

Foi dias depois que fiquei sabendo, porque ele mesmo me contou, que naquela hora ele estava naquele quarto com a mulher do próprio irmão, que estava dormindo bêbado no quarto do lado. Isso é coisa que acontecia e que, de repente, muita gente sabia mas não falava nada. E era questão de minutos: enquanto a gordura pingava nas brasas ou enquanto se jogava uma rodada de escova: era o tempo que precisava pra se fazer uma dessas. Mas, como saber? De repente, se não fossem essas coisas, não se fazia festa! Como saber?

Se eu contei pra alguém? Um que outro. É como meu nono me dizia: A carne é boa, mas se o churrasqueiro não sabe salgar e espetar, ele vai deixar pra quem sabe. Daí não é o caso de espalhar pra todo mundo. É pra ir lá e ajudar.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Conto escrito num dia de chuva

Naquele dia o céu amanheceu mais nublado do que de costume. Não houve cantoria de pássaros nem de crianças brincando de roda na creche ao lado. De sua cama podia ver apenas que já era dia e que o relógio havia parado antes do horário de despertar. Malditos relógios! Ele não teve dúvida: estava atrasado.

Naquela manhã não houve café. Não houve jornal nem cigarro. Ouviu-se apenas o roque-roque de uma escova de dentes fazendo o seu trabalho de autômato e o farfalhar de calças subindo pelas pernas. Por Deus, onde estará o guarda-chuva? Teve que sair sem ele.

Na estrada o cigarro teve que disputar a atenção do seu mestre com o volante do carro. A fumaça desenhava formas familiares. O céu estava escuro. Vai chover logo.
Naquela manhã não houve trânsito. Não era domingo, nem feriado. Não fazia sentido. Pensou que chegaria atrasado mas, talvez, poderia estar enganado. Calcular o tempo que demora para ir de um lugar a outro não era o seu forte. Sempre preocupava-se em acrescentar minutos a mais para a eventualidade de um pneu furado ou de os semáforos estarem, a maioria, fechados. Mas (como era de se esperar) não houve pneus furados. Só um sinal estava vermelho.

Naquela manhã parou para comprar um guarda-chuva. Mas como são feios os guarda-chuvas! E inúteis e desprezíveis! Sempre se perdem e se intrometem em frases falseando o seu sentido.  Iria precisar dele para proteger a cabeça na volta.

De volta à estrada, subiu mais uma ladeira e estacionou perto de uma praça. Saiu do carro e apertou um botão. Gostava de afastar-se do carro enquanto os vidros subiam. Aquilo fazia as coisas parecerem um filme americano, daqueles em que tudo é perfeito e o protagonista é sempre um herói. E nosso herói estava numa pequena e perfeita cidade onde os raros e perfeitos habitantes que passavam resmungavam bons-dias olhando para os pés.

Andou uns vinte metros e sentou-se num banco à sombra de um plátano. Este último continha uma inscrição: "Paulo e Patrícia", dentro de uma tentativa de coração feito a canivete. O banco também portava suas artes, porém vulgares, escritas a líquido corretivo: a caricatura de um pênis, palavrões e ameaças a honra da mãe de quem, por ventura, sentasse ali. Havia tempo para mais um cigarro. As nuvens permitiam.

Naquele dia apareceu uma mulher com uma jovem. Treze anos, talvez. Não olhou para a menina.

-- Deixei a sacristia aberta, disse a mulher. Quando terminarem, você sai pela frente e ela pelos fundos.
Ela, de fato, saiu pela porta de trás, talvez mais cedo do que ela própria esperava. Ele permaneceu em silêncio. Olhou à sua volta. Uma pia simplória. Um armário com batinas. Uma janelinha que mostrava um céu que não poderia ficar mais negro. Olhou pela porta que dava acesso ao interior da igreja. No tabernáculo, Deus dormia. Principiava a chuva, providencialmente torrencial.

Diziam que ele era pai, mas padre ele sabia que não era.  Mesmo assim, andou até o armário e vestiu a batina. Em frente ao espelho ajustou a posição da estola. Gostou da sua imagem refletida. "Imagem e perfeição", disse para si mesmo. Seria sua melhor história, se alguém acreditasse nela.

Naquele dia andou pelo corredor central da nave cantarolando Adeste Fidelis. Lá fora, porém, o céu despejava rajadas de fogo e água. À porta da igreja a cidade não passava de um grande cemitério lamacento.

-- Estão todos mortos. 

Ao longe andava a menina com o guarda-chuva do homem e uma criança nos braços. Ele a reconheceu. 

-- Estão todos mortos.

Havia, agora, uma cidade inteira a sepultar. A chuva fazia o seu trabalho.