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sexta-feira, 9 de março de 2018

Lendo Aleister Crowley (parte 2)

O Livro da Lei propriamente dito não é muito extenso. É uma coletânea de máximas que não ocupa mais do que umas trinta páginas e se divide em três capítulos. É nesses três capítulos que se encontra todo o arsenal de frases, citações e referências explícitas ou implícitas usadas por uma multidão de artistas, músicos, cineastas, etc. (se pá até pela sua mãe!), especialmente os ligados ao movimento de contracultura dos anos 60, e de tudo o que se desenrolou a partir daí. 

O livro também conta com uma reprodução do que seria o "manuscrito original". Para quem não está familiarizado com o assunto, parece que os três capítulos do Livro da Lei teriam sido ditados a Aleister Crowley no Cairo, por uma "entidade espiritual" ou algo assim. Algo muito parecido com a "escrita automática" dos primeiros artistas surrealistas que, a essas alturas (início do XX) já causavam certo furor. Para os cristãos com saudades dos seus mortos, havia os espíritas kardecistas, que, embora não se denominavam assim, já "rodopiavam mesas" há algum tempo e psicografavam mensagens "do além" de maneira, digamos, um tanto parecida... Nesse ínterim você vê a ascensão da psicanálise, as grandes guerras, o "baby boom" americano, e por aí vai. O pessoal dos anos 60 se deleitava pescando frases de efeito do Livro da Lei que, muitas vezes, caíam como uma luva naquele momento histórico. E outras vezes podiam te colocar na lista de potenciais subversivos do FBI, ou na mira de religiões neopentecostais fanáticas... Qualquer uma dessas alternativas certamente deveria fascinar a juventude rebelde daquela época.

Mas, se ele fascinou uma juventude dos anos 60 até hoje, com certeza deixou os pais horrorizados, além de todas as pessoas de sua própria época. É curioso como ele se tornou um popstar somente depois da morte. Em vida foi odiado ou temido pela maioria das pessoas. Ao que tudo indica, a "popularização" tardia do Livro da Lei foi um dos grandes responsáveis por isso.

Mas enfim, além dos três capítulos do Livro da Lei essa tradução da Marina Della Valle, da Editora Chave, também conta com uma cópia dos originais, um prefácio muito interessante, uma introdução e um "comento" final escritos pelo próprio Crowley, uma nota editorial, uma nota da tradutora e, por último, um texto muito bom do escritor português David Soares, onde ele contextualiza o cenário dos encontros de Crowley com Fernando Pessoa à luz de cartas, documentos e fatos históricos muito bem referenciados. E, tentando fechar o livro como se fosse uma cerejinha no bolo, a tradução de Hymn to Pan feita por Fernando Pessoa. Um tanto desnecessária, mas vá lá... talvez sirva para mostrar que, mesmo que Crowley talvez não tenha passado de um milionário excêntrico, ao menos trocou umas figurinhas com um mestre da Literatura...


***

Eu li, em primeiro lugar, o prefácio, introdução, o comento, todo o resto (até o Hino a Pã) antes de ler o Livro da Lei propriamente dito (quando criança eu primeiro comia as bolachas, e deixava o recheio por último...) e, como (quase) todo mundo, só dei uma olhada no fac-símile do manuscrito...

Seguindo esse roteiro, de cara o leitor percebe que será preciso se familiarizar minimamente com o universo ocultista da época. Maçonaria, O. T. O., Golden Dawn... O que são? Onde vivem? De que se alimentam? 

Com duas googladas para tentar entender esse universo você já percebe que está à beira de um poço sem fundo. Pelo menos é a impressão que eu tive. Grosso modo, preferi resumir (para facilitar o meu entendimento), que são como clubes do bolinha com CNPJ, documentos e estatutos, onde seus membros se reúnem para fazer "coisas escondidas" como, dentre elas, a prática de "magia ritualística". Em outras palavras, para fazer Jesus chorar, do ponto de vista de um conservador ocidental moderno. Explicado porque ele era temido.

Na terceira googlada (bem como na introdução do próprio livro) o leitor vai percebendo que, além de confrontar a sociedade de então, Crowley, de diversas maneiras, também arranjara confusão dentro das próprias ordens esotéricas que participava. Explicado porque ele era odiado.

Além de tudo isso, também consta que teve uma infância dificultosa, a morte do pai, a dificuldade de se relacionar com a mãe, a "vida mansa" proveniente de uma herança. Explicado (talvez) um pouco da excentricidade e insubordinação do autor.

Na terceira parte deste texto veremos em detalhes um pouco do legado desse autor maluco, temido e odiado, que se tornou ícone de uma cultura, e que encanta adultos e assusta crianças de forma extremamente eficaz há mais de um século!

(Peço desculpas pela enrolação. Este texto deveria ter apenas duas partes, mas ocorre que o assunto acabou se mostrando mais interessante do que eu esperava, por isso eu resolvi acrescentar mais um capítulo.)

"Estou só: não há Deus onde estou." (II, 23)



terça-feira, 19 de março de 2013

Os dedos de Francisco, fraudes no ponto eletrônico e uma alternativa eficaz (entre outras mazelas)

Quem pensava que pilantragem era exclusividade da classe política enganou-se (que novidade...). Óbvio que qualquer categoria tem seus mocinhos e seus bandidos. Os médicos que usavam dedos de silicone para fraudar o ponto eletrônico são um bom exemplo disso. E não são só eles. O coordenador do Samu, acusado de organizar o esquema, tenta tirar o cu da reta, mas os dedos apontam para ele.

Isso sempre me faz pensar sobre a fragilidade do sistema e as tentativas que se faz para torná-lo perfeito – mas ele nunca o será. Mesmo que se implante um chip no cu das pessoas, sempre haverá um jeitinho, alguém sempre estará disposto a driblar as normas e alguns vão conseguir. Se formos escavar esses casos até o fundo, a conclusão será sempre a mesma: lucro. Por que ficar sentado no plantão se eu posso estar lá e no meu consultório ao mesmo tempo? Mas ninguém vai assumir que o objetivo era esse. Coordenador vai dizer que não sabia de nada, a médica que “passava os dedos” dirá que foi ordem do coordenador e os médicos poderão alegar que foram vítimas de um boa-noite-Cinderela e tiveram seus dedos clonados por marcianos numa noite de sábado. Desafiando a física, esses médicos estavam em dois lugares ao mesmo tempo, recebendo, obviamente, dois ordenados. Desafiando o bom senso, muitos dos que se mostram indignados com o caso fazem igual ou pior. É que o que os dedos não apontam o coração não sente.

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Dedos são coisas que possuem uma simbologia muito profunda. Eles são muitos, e são relativamente longos. Além disso (e por isso) é possível enfiá-los nos lugares mais improváveis, em expedições exploratórias de tirar o fôlego. Dedos são partes do corpo tão importantes que é neles que colocamos alianças de compromisso e é neles que o Papa coloca um dos maiores símbolos do poder da Igreja, o Anel do Pescador.

Mas desta vez o anel não será de ouro maciço. O Vaticano já anunciou que o anel será feito de prata receberá uma cobertura de ouro. Parece que o ouro representa o divino e a prata o humano, ou coisa assim. Mas o que deixou muita gente entusiasmada é a possibilidade de a Igreja dar uma guinada histórica e colocar-se numa posição um pouco mais condizente com a realidade do século XXI. Também apontam para essa possibilidade o nome do Papa (que remete a São Francisco de Assis), as frequentes quebras de protocolo (que fazem o Papa parecer mais humano e menos divino), sua ligação com a América Latina e com os jesuítas entre outras coisas. Enfim, até o fato de Sua Santidade ter recebido a multidão de braços abertos ou fechados é motivo para os “especialistas” tirarem conclusões esperançosas. Mas, parafraseando São Lula (o santo dos nove dedos), o Vaticano também é um navio enorme (e muito antigo), e qualquer manobra muito brusca pode naufragá-lo. É bem por aí.

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(Um pouco de cultura (quase) inútil

Il Camerlengo é o responsável pelas finanças do Vaticano, dentre outras coisas. Ele conhece o subsolo da Santa Sé melhor que o próprio Papa, e é o responsável pela retirada do Anel do Pescador do dedo do papa morto (ou que renunciou) e destruí-lo (o anel) para que ninguém seja papa antes do conclave. Ele é uma figura mais ou menos como o mordomo dos livros de suspense. Se registrarem o ponto com dedos de silicone lá no Vaticano, desconfie do camerlengo. Se assassinarem o Papa, então...)

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Os dedos – seus usos e desusos na infância

Quando éramos crianças e apontávamos os dedos para as estrelas, ganhávamos verrugas. Talvez essa crença tenha origem na necessidade de amputarmos de nossas crianças a curiosidade. Desconfio que se elas permanecessem muito tempo observando o céu noturno, invariavelmente sua curiosidade seria aguçada e seu senso crítico daria os primeiros e preciosos passos. Se permitíssemos que elas crescessem perguntado sobre as estrelas (aqueles pontos inúteis no céu) logo elas estariam questionando nossas tradições, atentando contra a moral e os bons costumes e fazendo piadas com o Papa como se ele fosse um qualquer. Portanto, crianças, se forem observar as estrelas, aproveitem a tecnologia do século XXI e providenciem uns dedos de silicone para contá-las de forma mais segura.

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Moral da história (mas ainda não estamos no fim)
A moral da história é que esse lance dos dedos de silicone é uma bela cutucada no cu do sistema. Claro que é imoral, antiético, blá, blá, blá e etc. (ninguém precisa escrever isso em nenhum lugar para as pessoas se darem conta disso). Mas, por outro lado, essa situação reflete um aspecto importante de nossa sociedade: não adianta tentar obrigar as pessoas a fazer a coisa certa (ou o que quer que seja considerado certo) porque o “certo”, queiramos ou não, ainda é o lucro a qualquer custo. E enquanto esse conceito permear nossa sociedade (eternamente, talvez) não haverá tecnologia que impeça fraudes. E, como o sol nasce para todos, todos nós estamos sujeitos à tentação de se bronzear um pouco mais. Como alguém disse uma vez: onde existe uma situação em que é possível sair lucrando, alguém vai descobri-la e vai lucrar. Não importa se é aqui, em Brasília, na Etiópia ou no Vaticano.

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Aproveitando a deixa para dar uma surra de rastelo nas promessas da tecnologia

Você lembra quando implantaram, na empresa onde você trabalha, o sistema de ponto eletrônico por impressão digital, com a desculpa de que assim seria impossível um colega registrar o ponto do outro? Pois é. E a tecnologia falhou novamente. #CHUPASISTEMA

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Uma alternativa eficaz

Contrariando o que eu escrevi anteriormente, creio que talvez exista uma forma de evitar fraudes nos pontos eletrônicos (pelo menos por homens). A solução seria passar o pênis ao invés do dedo. Quando ouvi a notícia sobre os dedos de silicone fiquei imaginando como seria o processo de “clonar” os dedos. Provavelmente foi aplicada uma forma de gesso (ou algo assim, note que sou leigo no assunto) e a partir do molde foi fabricada uma cópia em silicone. Agora imagine como seria o processo de copiar um pênis. E mais: imagine como seria andar por aí com meia dúzia de pênis nos bolsos. E mais ainda: imagine como seria pegar cada um deles e passar no ponto eletrônico, sabendo que eles são idênticos aos pênis dos seus colegas de trabalho. Certamente tais situações vexatórias inibiriam boa parte das fraudes em pontos eletrônicos. Fica a dica.


segunda-feira, 28 de maio de 2012

Frio, caridade e croquetes

Quando sinto frio, penso em ler e, quando penso em ler, lembro que também sei escrever (malemal, mas vá lá...). Escrever é preciso (e necessário), no entanto, hoje, não tenho muito o que dizer. Só sei que, em breve, estaremos invernando, já que não podemos hibernar. 
 
E, como não podemos hibernar, o frio é algo preocupante. Dizem que no RS (e no Brasil também) tem gente que não tem agasalho. Quando eu era criança, lembro-me de ter ido ao dicionário verificar que diabo era esse tal de agasalho. Havia campanhas na escola, do tipo “doe um agasalho”. Eu sabia que queria dizer mais ou menos algo como “doe pijamas e casacos velhos” (a profe explicou), mas só desencanei quando li o significado no dicionário. Egoísmos de criança, isso de não confiar em ninguém. Também pudera, com uma palavra assim. Agasalho. Rapidamente aprendi que os significados das palavras flutuam pra lá e pra cá.

E, por falar em agasalho, outro dia vi um poema:

Hoje é sexta-feira
Eu me vou pra discoteque
Onde tudo as mina pira
Agasalhando os croquete

Bem, vinte e dois anos depois de doar agasalho na escola, me vejo diante de uma situação parecida: a de consultar algum dicionário ou manual capaz de jogar algumas luzes sobre o assunto. Não sobre agasalhos, croquetes ou metáforas, mas sobre a aposta universal no ser humano como algo que pode dar certo. 
 
Eu não aposto nisso. Eu aposto no suicídio involuntário de uma espécie que não é capaz de reconhecer nada além de seu próprio reflexo num espelho, seja este um lago, um vidro, ou uma TV LCD.
Ironicamente, essa espécie acredita piamente que é a criação máxima de um ser com poder infinito (Deus) que, para o cúmulo da ironia, teria feito os homens parecidos com ele mesmo... [risos]
Por outro lado, não há notícias de espécie animal com capacidade inventiva semelhante a dos humanos. Por mais que macacos aprendam a usar pequenas ferramentas para obter comida, jamais poderão criar algo como croquetes. E, por mais criativos que sejam quando dependurados em seus galhos, jamais superarão a criatividade humana na hora de agasalhar o croquete. E, finalmente, por maior que seja a comunicação possibilitada pela dúzia de grunhidos emitidos por qualquer espécie, não há animal capaz de fazer uso da metáfora para estabelecer relações de significado entre um pênis e um croquete. E isso é realmente divino.

Fico me perguntando sobre o porquê de ninguém fazer uma campanha do tipo “nesse inverno, agasalhe um croquete”. As pessoas não morrem somente de frio. É preciso amor também. Isso é a prova de que esse tipo de “caridade” (doe um agasalho) é uma atitude essencialmente egoísta, por mais que pareça o contrário (fale com Nietzsche, é ele quem diz isso). Podemos salvar uma ou duas pessoas do frio doando aquele casaco xadrez que temos vergonha de usar porque temos ele desde 2002, mas, não se engane, não estamos salvando o mundo. A “coisa” não vai melhorar por causa disso e não estamos fazendo nada de especial, além de encontrar uma forma politicamente correta de “se livrar” das roupas boas que não queremos mais usar. É claro que Deus nos observa e anota nossas boas ações no caderninho (e isso também pode contar), mas isso é outro assunto. Em outras palavras: “aquele homem que ficou com meu casaco velho sobreviveu ao inverno porque eu o ajudei” na realidade significa “aquele homem que ficou com meu casaco velho deve sua vida a mim”.

Sobre morrer de frio, realmente não sei direto de quem é a culpa. Certamente não é dos croquetes, do frio, ou da dúzia de pessoas que não querem doar agasalhos. Também não é das pessoas que fazem caridade, seja por profissão ou por hobbie. Talvez os maiores culpados pelo fracasso do ser humano sejam simplesmente os espelhos – ou aquilo que pode haver do outro lado, divino ou não. Ou talvez não. 
 
Como a ideia era simplesmente escrever qualquer coisa (sugestão do minuano, que me bateu no lombo enquanto eu tirava a água parada das minhas bromélias), declaro este texto terminado, soberano e livre para exercer seu direito de não resolver merda nenhuma dos problemas da humanidade. Revogam-se as disposições em contrário.

quarta-feira, 22 de junho de 2011

Bom feriado a todos!

Saudações, amigos leitores deste insano sítio, o famigerado Macaco Escrevedor.

Antes de mais nada, faz-se necessário esclarecer que o autor deste blog, quando sentou-se em frente ao computador, não fazia a menor ideia sobre o que escrever. Mas a proximidade do chamado “feriadão” fez com que surgisse a necessidade(?) de enfeitar a Internet e brindar os queridos leitores com algumas linhas, por banais que fossem. Afinal, há gosto para tudo.

Reparem, então, que acabei de escrever a palavra “banal”, e a primeira coisa que me veio à mente foi o motivo do feriado que se aproxima. Mas creio que já falei o bastante sobre feriados religiosos. Ou talvez não. Não sei.

Então vamos falar sobre coisas boas. Falaremos sobre a segunda-feira.

A segunda-feira, na minha humilde (e irrelevante) opinião é o dia mais feliz da semana. Ela marca o final de uma série de imbecilidades que somos mais ou menos obrigados a engolir durante o sábado e o domingo. A partir desse dia, podemos voltar a circular tranquilamente pelas ruas centrais da cidade sem o perigo de atropelar pessoas alcoolizadas. Também cessam os infernais tuncs-tuncs-tuncs que costumam sair dos porta-malas de alguns carros cujos proprietários talvez seja melhor não adjetivarmos aqui.

Na segunda-feira, a polícia não costuma passar a 100 km/h atrás sabe-se lá de quem. Também não costumamos ouvir fogos de artifício neste dia, tampouco pastores bradando nas igrejas (se bem que, por aqui, eles fazem seus tumultos nas terças). Reparem que as pessoas até diminuem o uso das buzinas dos automóveis, chegando quase a existir um princípio de gentileza no trânsito. Mas é só um princípio. Que ninguém pense que nós, motoristas barbosenses, somos mais ou menos gentis do que os outros só porque paramos nas faixas de segurança (na verdade, a maioria de nós só para o carro para que os pedestres possam vê-lo melhor).

Repare que, depois da segunda-feira, a medida em que a semana vai passando, o nível de bestialidade das pessoas (não de todas, é óbvio) vai aumentando, de forma que a sexta-feira chega a ser um dia perigoso. Tome cuidado com trânsito (até as bicicletas transformam-se em máquinas assassinas), e jamais entre em discussão com alguém numa sexta-feira!

Adentrando o sábado à noite começamos a verificar altos índices de animalidade nas pessoas. Durante a madrugada podemos observar os níveis mais bestiais do comportamento, que dificilmente são observados nas outras noites, e que só são chamados de bestiais pela falta de outro qualificativo, uma vez que as bestas da natureza sentem-se ofendidas com tal comparação.

Os que sobrevivem à bebedeira do sábado transformam-se em verdadeiros demônios depois de acordarem às três da tarde de domingo. Os que não beberam até cair no sábado, provavelmente o farão no dia seguinte. E nem vou falar dos acidentes de trânsito porque (agora estou preocupado) estarei na estrada também.

Essas reflexões espontâneas (e propositalmente exageradas) me levam a acreditar que, na verdade, o chamado fim de semana não é propriamente o fim da semana, mas o início dela, de modo que, no restante da semana, as pessoas estão descansando das atividades do sábado e domingo enquanto pensam que trabalham. Chego a cogitar a hipótese de que o verdadeiro trabalho atribuído às pessoas (embora não saibamos por quem) é exatamente aquele executado de sexta a domingo. O outro é só fachada. Coisa do diabo.
 
Então, podemos concluir que nesse "feriadão" o trabalho será dobrado. Teremos dois dias a mais de tarefas e loucuras programadas, compromissos sociais e religiosos, rituais acasalatórios (com ou sem álcool), compromissos matrimoniais a cumprir e, como não poderia deixar de ser, os sobreviventes deverão, ainda, apresentar estômago para o Fantástico.

Qualquer leitor perceberá que o outro período também pode ser descrito com as mesmas palavras que descreveram o sábado e o domingo no início do texto: uma sucessão de imbecilidades que somos mais ou menos obrigados a engolir. Entretanto, sinto-me mais seguro na imbecilidade de uma mina de carvão de segunda a sexta do que na imbecilidade da maioria das pretensiosas “diversões” de fim de semana praticadas por boa parte dos exemplares da minha espécie. Nada como fugir para as colinas ou abrigar-se no porão (que é o meu caso).

Que nesse feriado de Corpus Christi,  os deuses imortais mantenham nossos corpos íntegros!

segunda-feira, 13 de junho de 2011

A boa e velha limpeza social - e a minha inocência

Limpeza social é um termo que pode parecer um tanto forte, exagerado, mas ainda é o melhor para designar certas coisas estranhas que volta e meia podem acontecer em qualquer cidade, principalmente aquelas com um maior potencial turístico.

Não é raro ver ou ouvir de pessoas importantes consideradas importantes, discursos que beiram a eugenia, com frases do tipo: "é um absurdo esses índios circulando na frente da minha loja", ou "por que ninguém leva esse mendigo embora?" e outras coisinhas do tipo. No meu trabalho, certa vez, tive que ouvir o seguinte: "no caso dos índios, quando têm crianças junto, é muito simples: é só levar pra rodoviária e botar dentro de um ônibus"... [som de inspiração profunda e expiração] [pausa] ...Olha, eu juro que faço força pra não citar o nome do(a) ilustríssimo(a) cidadão(a) que abriu a nobre boca para falar essa merda. Mas falou. Na verdade não cito o autor dessa sapientíssima colocação porque sou covarde mesmo (peso 54kg, sou de fraca compleição física, e se me processarem estou fudido, porque não tenho grana para um advogado).

Por isso, deixemos assim (ou "deixe estar" como se ouve na TV); não vamos falar sobre isso, até porque eu posso estar mentindo, não tenho provas, ninguém vai acreditar nessa merda e, com a sorte que tenho, é bem capaz de aquela atitude ("bota num ônibus e manda embora") ser considerada a atitude perfeita por maioria de votos. Então vamos fazer de conta que este é um texto de ficção (e é mesmo) que fala sobre as coisas estranhas que eu acho que acontecem na cidade de Charlie Barganha.

Isso mesmo, meu nome é Sidnei e moro na cidade de Charlie Barganha, pequena cidade do interior da República Federativa da Nova Noruega; um país maravilhoso, situado no continente Sul-Pampeano, onde "tudo é caro porém perfeito". A pobreza, aqui, não consegue procriar; e se chegou de fora, haverá de retornar. Assim canta o hino da cidade de Charlie Barganha.

Poderíamos fazer um poema épico.

Mas, voltando à realidade, às vezes fico preocupado. Olho pela janela às cinco e meia da tarde, quando há aquele congestionamento digno de "cidade grande", e penso em quantas daquelas pessoas podem ser coadjuvantes nessa ideologia de limpeza social. Depois, para tentar me acalmar, procuro adivinhar o contrário: quantas daquelas pessoas podem estar preocupadas com essa questão. Descubro que não há contrários e finjo uma resposta agradável.

***

Quando, no futuro, todos estiverem trancados dentro de suas casas, digo, caixas de habitar (longe de índios e indigentes) relativamente "a salvo" uns dos outros, devidamente alienados e adestrados na arte de se comunicar através de grunhidos, alguém dirá que a culpa foi do Prozac. E de mais ninguém.

Fórmula estrutural da fluxetina
Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Fluoxetin_Structural_Formulae_of_both_enantiomers.png
Que bom que eu estou lendo Cem anos de solidão.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Ser ou parecer? Uma questão moderna

Parecer é ser. Sobretudo em tempos de modernidades virtuais, exageros vãos e ignorância exacerbada. Se pensarmos, então, na ditadura da imagem, não há o que dizer. Eu não sei exatamente o que sou (e não considero que alguém o saiba) mas posso saber exatamente o que pareço ou quero parecer ser. Posso manipular essa aparente aparência (ops!) a meu favor. Posso parecer interessado naquilo que te interessa. Posso parecer não gostar daquilo que você não gosta. E você jamais saberá a verdade. Talvez ninguém sequer queira saber a verdade. Ou talvez, ainda, as pessoas fujam da verdade, com medo de encontrá-la e verem seus mundinhos afundarem no mar sólido e sórdido da realidade. (O fantasma de Narciso está assombrando os meus textos outra vez...)

Dia desses um amigo de uma dessas redes sociais (que deveriam se chamar "redes antissociais") reparou na minha foto do perfil do usuário (a mesma foto que ilustra o meu perfil nesse blogue, onde eu apareço num ambiente surrealista portando uma cuia de chimarrão e mordendo a bomba) e a considerou inadequada para a minha pessoa, ou melhor, para o meu "papel social". Tenho certeza de que ele não foi o primeiro a considerar tal absurdo, mas foi o primeiro a comentar isso comigo.

Acontece que meu trabalho é o meu trabalho e Facebook é Facebook. E, ainda, eu sou eu, e sou (ou pelo menos me considero) anterior e superior aos meus papéis e aos sistemas em que esses papéis se inserem, sejam eles família, escola, trabalho ou redes sociais. Eu estou no controle e decido até onde quero levar esse joguinho de aparências. É fato que usamos diversas máscaras de acordo com diversas situações: ou você faz isso (cumpre as expectativas do sistema em que está inserido no momento), ou você é expurgado. Mas repare no detalhe: expectativas do sistema em que se está no momento. Eu não sou o meu trabalho, até porque (que me perdoem os teóricos sociais que eu ousei ler até agora) hipocrisia tem limites. Ou seja: eu uso a imagem que eu quiser no meu perfil, seja eu gari ou presidente da república (o que eu jamais seria, a menos que eu mudasse de opinião), e que frustrem-se as pessoas que esperavam ver outra coisa. Não estou aqui para atender às parcas expectativas de meia dúzia de néscios ou de quem quer que seja que esperava ver o sua própria fuça no MEU perfil de usuário.

Hipocrisia tem limites. Uma coisa é agir (ou não) de acordo com as convensões tácitas de um determinado sistema. Outra coisa é se emocionar com isso ao ponto de tornar-se uma prostituta do olhar alheio (com o devido respeito à categoria). Se você é um bombeiro, por exemplo, você é um bombeiro. O "parecer" é posterior, flexível e questionável. Há pessoas que parecem ser feitas de ouro (porque as regras de um determinado sistema diz que elas devem se comportar como tal), mas na verdade são feitas de fezes. E a fezes disso tudo, é que isso é o "normal". É assim que funciona. No grosso desse mundão você não precisa ser nada, contanto que pareça.

Bem aventurados os que parecem, porque, em verdade vos digo: deles será o reino da Terra.

Isso tudo, junto com a cerveja que estou bebendo agora (ops, eu não deveria ingerir álcool, dizem meus algozes!), me faz chegar à óbvia conclusão de que parecer é o mesmo que ser. Obama é o exemplo máximo dessa teoria. Mas eu, particularmente, prefiro que me caiam as bolas a ter que "parecer" assim ou assado só porque a lua está cheia ou minguante. Não tenho estômago para esse joguinho de abraços e sorrisos. Sou naturalmente antipático e minha simpatia se limita ao necessário para criar um bom ambiente. Ao estritamente necessário.

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

E a revolta continua...

Mais um texto na linha de implicância com as maravilhas da modernidade ou pós-modernidade (vá lá, não sei a diferença...).

Na Internet ninguém quer ficar preso a um só texto, a um só site. O rio de links precisa fluir mesmo que sua correnteza nos leve sempre aos mesmos locais. Mesmo que os locais não sejam nada originais.

As informações, sejam elas wikipedianas ou submarinas, precisam ser, sem exceção, comercialmente úteis. As próprias exceções (se forem reais) podem ser medidas pelo seu potencial mercadológico.

Há, entretanto, comédia na tragédia. Após assistir Efeito Borboleta, coloquei no Google: teoria do caos. O resultado? Este: "compare preços de teoria do caos no BuscaPé" . Só Deus sabe quanta merda existe na Web.

Saí da frente do computador com a impressão de ter sido enganado. Apalpei meus bolsos e senti minha carteira lá. Alívio. Mas o relógio não mentiu. Mostrou-me que foram debitados exatos 30 minutos de minha vida na simples busca pela busca de qualquer coisa. 

Mas falar de teoria do caos é da hora...
A Internet é a verdadeira Terra de Ninguém. Lá o tempo não passa. Ela não é uma ferramenta, mas um enorme vibrador massageando egos mundo afora e, claro, vendendo produtos essenciais à felicidade humana. Você nunca acessou uma página e recebeu a mensagem dizendo que você é o milionésimo usuário e deve clicar no link para retirar o seu prêmio? Fico me perguntando se alguém ainda clica nessas porcarias. Ou se o "empresário" que paga para colocar esses anúncios acredita que alguém ainda clica naquilo. Não basta termos que assistir a um mar de publicidade torpe na estrada? Será que no futuro teremos que engolir um anúncio, também, a cada vez que abrirmos a geladeira? Ou a cada vez que puxarmos 30 cm de papel higiênico para limpar  o ânus? Na verdade a Internet é também um atentado contra a estética.

Mas sou favorável à inclusão digital. Só que isso é outro assunto, outro debate com outras consequências. Entretanto, ainda espero pela aclamada "revolução digital" que chegaria com a Internet. Vi algumas mudanças, umas positivas, outras negativas e uma maioria sem cor nem sabor. Particularmente estou feliz por poder comprar livros na Estante Virtual e palhetas para saxofone no Mercado Livre (na minha cidade só tem panelas, queijo e carros). Também agradeço à "revolução" por poder tirar minhas dúvidas ortográficas no Priberam e por ter meia dúzia de leitores que me permitem dispensar o analista. Fora isso...

Por falar em analista, um velho colega de trabalho apareceu-me, há tempos, com uma resenha do Analista de Bagé nas mãos. Na verdade, ele queria que eu fizesse a resenha porque ele não havia encontrado na Internet. Curioso isso. Era um trabalho para um curso de administração da UCZ (Universidade do Coronel Zorbi). Depois desse dia eu passei a acreditar que a Internet fora criada por um grupo de universitários. E compreendi o porquê. Talvez isso tudo tenha a ver com as polaridades do velcro. Tenho um primo entrando na oitava série que jura que jamais ouviu qualquer professor ensinar qualquer coisa sobre a Internet além de como criar e-mail e consultar o Google. Nem mesmo os professores dos cursinhos de informática. Mas, como não poderia deixar de ser, meu primo fica assim... fascinado com os anúncios... Para ele, isso basta...





quarta-feira, 28 de julho de 2010

Festiqueijo: vale cada centavo!

Para quem não conhece, o Festiqueijo é uma espécie de orgia alcoólica que acontece no salão paroquial de Carlos Barbosa todos os anos. É nossa festa maior, o maior festival gastronômico, etc, etc... Você puxa a carteira, saca uns cinquenta reais, pega o ingresso e entra. Depois você ganha uma tacinha para degustar vinhos (leia-se: encher a cara) e um garfinho para espetar os queijos (ou traseiro das meninas, conforme você estiver mais ou menos bêbado). Você passa o tempo inteiro circulando de estande em estande, enchendo o saco das meninas que estão trabalhando, rindo alto, degustando vinhos, queijos, salames e outras coisas estranhas que fariam o seu cardiologista chorar. Tudo isso ao som de música típica e rodeado de gente bonita e inteligente. 


Há quem ache o valor do ingresso um tanto amargo, mas se pararmos para pensar, onde poderíamos comer pastel, coxa de galinha e polenta frita (à maneira dos nossos ancestrais, de pé e sem o inconveniente dos talheres) por menos de cinquenta reais? E crostoli? Em que bar é possível encher o cu de trago pagando somente a entrada? Onde poderíamos ouvir a canção La bella polenta interpretada por quatorze bandas diferentes? Qual pizzaria da cidade oferece pizza de microondas por menos de cinquenta reais? Em que restaurante existe uma equipe de limpeza sorridente que vem correndo, pedindo desculpas e com-licenças para limpar a sujeira que alguém fez de propósito? E o melhor de tudo (para os solteiros): onde encontraríamos maior concentração de mulheres embriagadas por metro quadrado, prontinhas para serem encoxadas em meio a multidão?

Nosso festival é um verdadeiro banquete romano, onde a elite desfila sua glória e destila suas amarguras oriundas do incansável labor diário que enriquece e enobrece nossa gente. Nosso festival permite que nossa gastronomia seja apreciada em seu último estágio evolutivo, espalhada nas esquinas da cidade, porque ela é nobre demais para permanecer nos estômagos dos visitantes. Caminhe pelas calçadas e verá, a cada vinte metros, uma refeição que se recusou a sair de Carlos Barbosa. Nada pode ser mais gratificante para um cidadão do que o reconhecimento de sua gente e a valorização dos seus costumes!

É por esses e outros motivos que sou, sem dúvida alguma, um verdadeiro fã do Festiqueijo. No ano que vem podem cobrar R$ 200,00. Não é caro. Vale cada centavo. Em 2011 traga sua família, prepare seu tubo digestório e seu fígado, e venha viver momentos inesquecíveis!

segunda-feira, 12 de julho de 2010

Como parecer rico em Carlos Barbosa - dicas e truques

Depois de ler alguns parágrafos de alguns livros sobre "como atender bem os clientes" resolvi acreditar que também posso escrever um desses tratados e ficar rico. O público, claro, poderá preferir entender que se trata de uma brincadeira. Entretanto, reza a lenda que toda a brincadeira tem um fundo de seriedade. Não sei, mas segue um esboço do tratado. Ficaria mais ou menos assim:

Como parecer rico em Carlos Barbosa - dicas e truques:

Utilize o carro para absolutamente tudo o que for fazer fora de sua casa. Mesmo que o carro seja do seu pai, que o combustível seja pago pelo pai, assim como o seguro, o imposto e o DVD novinho que você acabou de instalar. Vá de carro, mesmo que seja para ir à padaria que está a vinte metros.

Quando for à padaria, nunca compre somente o pão. Saia do estabelecimento com, no mínimo três sacolas. E lembre-se de deixar algumas compras aparecendo por cima da sacola. Isso é chique. Jamais compre seus pãezinhos em estabelecimentos que forneçam sacolas feias.

Se não puder estacionar exatamente em frente à porta do estabelecimento, abandone o carro no meio da rua com o pisca-alerta ligado. Quanto mais caro for seu automóvel, maior o efeito produzido.

Jamais saia da vídeo-locadora com menos de oito filmes, mesmo que você só tenha tempo para assistir a um. Se houver uma fila razoável, lembre-se de pedir para a atendente um Godard. Mesmo que você não entenda porra nenhuma dos filmes dele, diga que você o ama.

Nos restaurantes, procure falar alto e gesticular bastante (certifique-se de não haver comida nos talheres antes de gesticular). Procure falar mal de quem está presente. Na hora de pagar a conta repita o valor anunciado de modo que todos saibam o quanto você gastou. Procure pagar com notas de cem ou cinquenta reais. Jamais saque da carteira notas de cinco ou dez reais (isso é coisa de boteco).

Evite que as pessoas o vejam comprando carteiras ou cintos daqueles vendedores ambulantes que vivem em frente à Santa Clara.

Economize uma grana durante o ano para ir ao Festiqueijo. Depois, fale mal do evento até não aguentar mais e, no ano seguinte, vá novamente.

Jamais viaje de ônibus (exceto se você for um aluno da UCS ou da Unissinos).

Assine a revista Veja e utilize os argumentos cientificamente comprovados da revista para falar mal do Lula. Somente do Lula. Se o presidente já for outra pessoa, continue falando mal do Lula.

Vá ao cabeleireiro toda a semana. Cabeleireiros que cobram menos do que R$ 25,00 para fazer qualquer coizinha são, na verdade, barbeiros. Barbeiro é coisa de velho pobre e aposentado. Evite.

Se você trabalha no escritório da Tramontina, lembre-se sempre de dar uma volta no Café Brasil depois do expediente, mas vá com aquela camisetinha azul-claro com a logomarca da empresa no peito (aquela que você está usando para trabalhar desde segunda-feira). Isso dá muito status, mesmo que você ganhe menos que muito peão da produção.

Lembre-se de ir ao café portando, além do uniforme, o crachá. Mas utilize-o pendurado no pescoço com uma fitinha azul. Prendê-lo no bolsinho da camisa com aquele prendedorzinho é coisa de plebeu.

Quando for às compras, leve consigo o seu filhinho e deixe-o colocar no carrinho tudo o que ele quiser. Se você não puder pagar, retire as coisas do carrinho sem que a criança perceba e abandone-as em qualquer prateleira.

Troque a cozinha de sua casa, no mínimo, a cada dois anos. E quando o fizer, coloque trocentas fotos da sua novíssima cozinha no Orkut.

Sorria sempre. Mesmo sem ter vontade. O sorriso forçado é até mais charmoso e mais fotogênico. Se você tiver que optar entre a cirurgia de hemorroidas e o clareamento dental, opte pelo segundo. Afinal, não passamos de um tubo digestivo com um cérebro numa extremidade e uma cueca na outra. Cuide melhor da extremidade que as pessoas veem e que comporta o cérebro.

Enfim, poderíamos escrever dúzias de páginas sobre cada item, sobretudo esse último (do tubo digestivo), por isso acho que poderíamos escrever um ótimo tratado. Umas duzentas páginas com gráficos e ilustrações. Seria um sucesso na feira do livro e no supermercado. Certamente iria contribuir para tornar as pessoas mais felizes.







quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Atenção alunos: ACBF 4 x 2 Malwee. Prossigam a aula...


Nosso agente secreto, devidamente infiltrado na maior escola pública de Carlos Barbosa, noticiou um fato curioso: a interrupção da aula, através do sistema de alto-falantes, para informar aos alunos o resultado de uma partida de futebol. A temível e estrondosa voz da nobre diretora da instituição, desta vez fez-se doce para informar o que já não seria novidade para os torcedores mais fervorosos (que certamente estavam acompanhando o jogo de uma ou outra maneira), e que seria totalmente irrelevante para aqueles que, por ventura, não estivessem interessados (que, acreditem, existem).

“Atenção alunos! Atenção! Vimos informar que a ACBF venceu a Malwee por 4 a 2!. Repetimos: A ACBF venceu a Malwee por 4 a 2! Obrigada! Agora podem continuar a aula...”

Fatos corriqueiros (e aparentemente inocentes) como este, ilustram com maior ou menor precisão, certos mecanismos ou conceitos que, apesar da indiscutível presença em nossa sociedade, não são claramente visualizados no dia-a-dia.

O primeiro, e mais evidente, faz-nos lembrar de certos candidatos em ano eleitoral, quando a regra primeira é fazer tudo o que possa ser feito para agradar a “maioria”. Se levarmos em consideração as recentes discussões locais acerca do provimento do cargo de diretor daquela instituição, a semelhança torna-se mais evidente. É certo que noticiar qualquer acontecimento externo à aula aos alunos, mesmo sendo o resultado de uma partida de futebol, não constitui anormalidade em si, podendo ser até recomendável, desde que esteja em concordância com o projeto pedagógico da escola (dizem que isso existe!) de “interagir” com a comunidade, de “participar das realidades locais”, etc e etc. A estranheza está na novidade, no inusitado, uma vez que, conhecedores da escola que somos, sabemos que aquele ato nunca fora, até então, um procedimento de praxe. Parece o velho “pão e circo”, mas afinal, todos gostaram e isso é o que importa, certo?...

Também podemos observar e estudar a tal “crise da autoridade”, que é um dos assuntos da hora. Os alunos (refiro-me ao terceiro ano do ensino médio), como se fossem amebas incapazes de fazer duas coisas ao mesmo tempo, são expressamente proibidos de acompanhar um jogo pelo fone de ouvido do celular enquanto fazem os exercícios propostos na aula, mesmo que na vida adulta venham a enfurnar-se num escritório onde terão que executar 37 tarefas ao mesmo tempo. Assim, são proibidos de mascar chiclete, chupar balinhas e usar boné. São proibidos de ler uma mensagem de celular durante a aula. Questiono muito essas regrinhas, sobretudo quando elas tendem a misturar ética com regras puramente convencionadas, como as que versam sobre o uso do boné ou o consumo de chicletes, que normalmente são a pura expressão da opressão.

O opressor, para manter-se na posição opressiva, não pode dispor somente de regras baseadas na ética, precisa também de um amplo repertório de regras estúpidas que devem existir simplesmente para serem seguidas sem questionamentos. Nesse contexto, é natural afagar os ânimos das pessoas envolvidas utilizando pequenas recompensas, que podem ir de permissões e concessões, até a promessa de “vida eterna”. É o que fazem as empresas ao distribuírem estúpidos presentes de natal para seus funcionários no final de cada ano. É o que fazem as escolas ao satisfazer pequenos desejos futebolísticos de alunos que são proibidos até de ler um “torpedo” de duas linhas durante a aula. Em ambos os casos, fazem essas "concessões" para esconder o lado opressivo e autoritário, que salta aos olhos de qualquer um que se disponha a observar com mais atenção. Do alto do seu pedestal o opressor dita as regras, e ninguém questiona se elas são válidas ou se não passam da simples expressão do autoritarismo. Do alto do seu pedestal o opressor distribui migalhas de pão (disfarçadas de pepitas de ouro) para que seus subalternos permaneçam felizes, para que tudo permaneça como está, pelos séculos dos séculos. Do alto do seu pedestal, o opressor é unanimemente eleito, re-eleito e bajulado.

Por fim, é possível observar através desse exemplo, como pode se constituir uma minoria, e como essa minoria passa a ser atacada pelos que se reconhecem como pertencentes a “maioria”, os "corretos", os “com a razão” (vide caso da universitária do vestido curto). Como foi dito no início deste texto, o placar do futebol poderia não interessar a todos, e de fato, não interessou. Nosso correspondente infiltrado na escola sentiu-se constrangido e irritado por ter a apresentação do seu trabalho interrompida para que o restante da turma pudesse cantar o Hino da ACBF, mas como ele poderia manifestar seu desapreço sem ser alvo de olhares reprovadores? Com que autoridade irá o professor argumentar sobre a importância da educação para a sociedade se a própria direção da escola “invade” a sala de aula para injetar trivialidades? A democracia, apesar de ser o melhor sistema de que dispomos, não deixa de ser um sistema falho, e enquanto isso, do alto do seu pedestal, o opressor também determina quem está certo e quem está errado.

domingo, 1 de novembro de 2009

Halloween o caralho!!!

Só para lembrar: nós temos o "Dia do Saci"!
Daqui a pouco um gringo inventa o "dia de defecar nos calcanhares", e lá vamos nós...




sexta-feira, 31 de julho de 2009

A semente e a árvore

Há alguns anos, no tempo do Windows 95, já era moda nos cursinhos de informática baixar fotos de carros da internet e colocar na área de trabalho. Os mais espertinhos davam uma "photoshopada" na imagem de maneira a "rebaixar" o carro, pintar os vidros de preto e coisas assim.

Na falta de computador, recortava-se um carro de alguma revista velha, e com muita habilidade na tesoura e no estilete (e mais um bocadinho de cola Tenaz) e conseguia-se transformar um Del-Rey 89 em um furioso modelo futurista de 400 HPs (dias atrás descobri que ainda se faz dessas...).

Bem, a gurizada do tempo do ICQ e do disquete cresceu, e hoje não brinca mais com computadores e figurinhas. Brincam com seus carrinhos de gente grande. E divertem-se muito, trocam informações, vídeos e fotos no Orkut, brigam tentando provar que são melhores do que seus inimigos. De vez em quando juntam-se para fazer alguma coisa mais séria, como levar o filho ao médico, jogar futebol ou providenciar outro filho.

Correntes filosóficas contemporâneas garantem que a onda do "tuning" começou (ao menos no Brasil) com o lançamento do filme Velozes e Furiosos. Faz sentido, porém, jamais nos esqueçamos dos nossos heróis pioneiros, com seus estiletes afiados, contrariando o papai e a mamãe, rebaixando as imagens da revista Quatro Rodas.

Mas nem todas as sementes viram árvores. Tenho que admitir que também gostaria de "tunar" meu carro . Felizmente, tenho mais o que fazer. Mesmo assim, se eu tivesse grana e tempo para entrar na brincadeira, gostaria que ele ficasse mais ou menos assim:


Iria usar somente para passear no Centro aos domingos!

terça-feira, 30 de junho de 2009

Viva Vítor e Léo (e que venham logo as borboletas)!



Beneméritos colegas alunos do Curso de Letras da UCS matam apresentação de seminário (marcada no início do semestre) para assistir show de Vitor e Léo em Bento Gonçalves.

Atenção Brasil, o futuro começa aqui. Nem sei que tipo de reação eu deveria ter ao olhar os rostos iluminados dessas futuras profes. Bom, pelo menos elas poderão dizer aos seus aluninhos que viram Vitor e Léo bem de pertinho. Se forem professoras do Ensino Médio, poderão relatar às mocinhas os diferentes tipos de tesão que sentiram ao ouvir Borboletas ao vivo. 

Me parece de ver: daqui uns anos, aquela velha lengalenga a respeito do salário do professor, das condições de trabalho, de não sei mais o que; e aquela meia dúzia “no meio do bolo” botando pilha e bancando as poderosas. Depois vem o discurso da importância do professor para a sociedade e etc. Que importância? Com essas amostras de professores estamos realmente mal representados. Não é por menos que o pessoal ri da categoria. Tem que rir mesmo.Tem um pessoal que consegue se formar na base de resumo de internet, que passa mais tempo em apresentações "artísticas" e no cabelereiro do que em sala de aula, mas que sabe reclamar quando a coisa vai mal.

Isso me troxe lembranças do meu ensino médio, de professores inescrupulosos que falavam verdadeiras abóboras. Tínhamos que engolir.

Ouvíamos por horas e horas um cara falando de um tal de Camões, embora (não sei como) tínhamos quase certeza de que ele nunca o havia lido. Para se ter uma ideia do estado das coisas, basta dizer que já ouvi professor de literatura dizendo que García Márquez é tão bom quanto Paulo Coelho (professor que provavelmente não deve ter ido além de Zíbia Gasparetto em suas leituras) , e coisas do gênero. Naquela época na existia Vítor & Léo, mas tínhamos Leandro & Leonardo...

Senhoras e senhores, peço desculpas, mas tinha que desabafar. Conheço muita gente que se empenha, que realmente quer produzir, quer conhecer e socializar ao máximo as experiências, para (como dizia P. Freire) tentar interferir na realidade, para ser sujeito da realidade, e não apenas objeto dela. Amo essas pessoas tanto quanto odeio outras, embora entenda a hipocrisia deste meu gesto e procure sorrir igual para todos. 
 
Obs.: Vitor e Léo, não é ruim; é só fugaz.