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sexta-feira, 9 de março de 2018

Lendo Aleister Crowley (parte 2)

O Livro da Lei propriamente dito não é muito extenso. É uma coletânea de máximas que não ocupa mais do que umas trinta páginas e se divide em três capítulos. É nesses três capítulos que se encontra todo o arsenal de frases, citações e referências explícitas ou implícitas usadas por uma multidão de artistas, músicos, cineastas, etc. (se pá até pela sua mãe!), especialmente os ligados ao movimento de contracultura dos anos 60, e de tudo o que se desenrolou a partir daí. 

O livro também conta com uma reprodução do que seria o "manuscrito original". Para quem não está familiarizado com o assunto, parece que os três capítulos do Livro da Lei teriam sido ditados a Aleister Crowley no Cairo, por uma "entidade espiritual" ou algo assim. Algo muito parecido com a "escrita automática" dos primeiros artistas surrealistas que, a essas alturas (início do XX) já causavam certo furor. Para os cristãos com saudades dos seus mortos, havia os espíritas kardecistas, que, embora não se denominavam assim, já "rodopiavam mesas" há algum tempo e psicografavam mensagens "do além" de maneira, digamos, um tanto parecida... Nesse ínterim você vê a ascensão da psicanálise, as grandes guerras, o "baby boom" americano, e por aí vai. O pessoal dos anos 60 se deleitava pescando frases de efeito do Livro da Lei que, muitas vezes, caíam como uma luva naquele momento histórico. E outras vezes podiam te colocar na lista de potenciais subversivos do FBI, ou na mira de religiões neopentecostais fanáticas... Qualquer uma dessas alternativas certamente deveria fascinar a juventude rebelde daquela época.

Mas, se ele fascinou uma juventude dos anos 60 até hoje, com certeza deixou os pais horrorizados, além de todas as pessoas de sua própria época. É curioso como ele se tornou um popstar somente depois da morte. Em vida foi odiado ou temido pela maioria das pessoas. Ao que tudo indica, a "popularização" tardia do Livro da Lei foi um dos grandes responsáveis por isso.

Mas enfim, além dos três capítulos do Livro da Lei essa tradução da Marina Della Valle, da Editora Chave, também conta com uma cópia dos originais, um prefácio muito interessante, uma introdução e um "comento" final escritos pelo próprio Crowley, uma nota editorial, uma nota da tradutora e, por último, um texto muito bom do escritor português David Soares, onde ele contextualiza o cenário dos encontros de Crowley com Fernando Pessoa à luz de cartas, documentos e fatos históricos muito bem referenciados. E, tentando fechar o livro como se fosse uma cerejinha no bolo, a tradução de Hymn to Pan feita por Fernando Pessoa. Um tanto desnecessária, mas vá lá... talvez sirva para mostrar que, mesmo que Crowley talvez não tenha passado de um milionário excêntrico, ao menos trocou umas figurinhas com um mestre da Literatura...


***

Eu li, em primeiro lugar, o prefácio, introdução, o comento, todo o resto (até o Hino a Pã) antes de ler o Livro da Lei propriamente dito (quando criança eu primeiro comia as bolachas, e deixava o recheio por último...) e, como (quase) todo mundo, só dei uma olhada no fac-símile do manuscrito...

Seguindo esse roteiro, de cara o leitor percebe que será preciso se familiarizar minimamente com o universo ocultista da época. Maçonaria, O. T. O., Golden Dawn... O que são? Onde vivem? De que se alimentam? 

Com duas googladas para tentar entender esse universo você já percebe que está à beira de um poço sem fundo. Pelo menos é a impressão que eu tive. Grosso modo, preferi resumir (para facilitar o meu entendimento), que são como clubes do bolinha com CNPJ, documentos e estatutos, onde seus membros se reúnem para fazer "coisas escondidas" como, dentre elas, a prática de "magia ritualística". Em outras palavras, para fazer Jesus chorar, do ponto de vista de um conservador ocidental moderno. Explicado porque ele era temido.

Na terceira googlada (bem como na introdução do próprio livro) o leitor vai percebendo que, além de confrontar a sociedade de então, Crowley, de diversas maneiras, também arranjara confusão dentro das próprias ordens esotéricas que participava. Explicado porque ele era odiado.

Além de tudo isso, também consta que teve uma infância dificultosa, a morte do pai, a dificuldade de se relacionar com a mãe, a "vida mansa" proveniente de uma herança. Explicado (talvez) um pouco da excentricidade e insubordinação do autor.

Na terceira parte deste texto veremos em detalhes um pouco do legado desse autor maluco, temido e odiado, que se tornou ícone de uma cultura, e que encanta adultos e assusta crianças de forma extremamente eficaz há mais de um século!

(Peço desculpas pela enrolação. Este texto deveria ter apenas duas partes, mas ocorre que o assunto acabou se mostrando mais interessante do que eu esperava, por isso eu resolvi acrescentar mais um capítulo.)

"Estou só: não há Deus onde estou." (II, 23)



segunda-feira, 5 de março de 2018

Lendo Aleister Crowlei

Eu sempre soube que um dia chegaria a esse ponto. 

Estava dormente. Só esperando uma oportunidade.

Normal, pra quem passou a adolescência ouvindo Raul Seixas gritar o nome da Besta 666 num dos discos mais influentes nessa fase da minha vida (me perdoem, eu sei, mas pelo menos não foi um disco dos Farrapos... Era o que tinha! Você me entende?)

E, convenhamos: você está lá com seus 15 ou 16 anos, sendo empurrado pela nossa "cultura" à exploração de um subemprego em meio turno (porque, afinal, gringo que é gringo não fica vagabundeando na rua, você sabe...), aquela pressão toda, o que você vai ser na vida, você só quer saber de andar na sua bicicleta mas não pode, porque você precisa "aprender a trabalhar"... Aí você se pega fechando cappeleti ou algo assim (o pessoal da minha cidade vai pegar a referência) pra um desgraçado que vai te pagar um punhado de trocados que não dá nem para um par de tênis no fim do mês, (e você sabe disso...) quando, de repente, cai em suas mãos uma fita K7 com um cara cantando Ouro de tolo... Era tudo o que eu queria ouvir! 

Não tem como isso não impactar você de forma permanente, mesmo que seus gostos mudem com o tempo. Raul Seixas já ocupou seu assento. E junto com ele vem todo o pacote. Aquela coisa de sempre... Você é o que você come, etc...

Faz algum tempo que eu não ouço o Maluco Belza, mas aquela coisa de "todo homem e toda mulher é uma estrela", "faze o que tu queres...", em vez de ir para algum canto do sótão da nossa memória acaba ficando ali, em cima de uma mesinha, que se não está no centro, também não está escondida...

Até que um dia, você está de férias e, sem querer, passa numa estante de promoções da Saraiva e bate o olho numa edição bilíngue do tal "Liber al vel Legis". 

Agora é só tirar a curiosidade.

Semana que vem continuamos!

Do what thou wilt shall be the whole of the law





sexta-feira, 12 de abril de 2013

O alvorecer de uma nova religião

O cristianismo-feliz, ou cristofelicianismo, é uma religião da Nova Era, derivada do antigo e ultrapassado cristianismo, e caracterizada por sua interpretação literal do texto bíblico, com ênfase nos aspectos homofóbicos, xenofóbicos, sexistas e racistas que eventualmente aparecem nesse livro.

O Culto

As principais características do seu culto são templos lotados com multidões em incontrolável transe autoinduzido, expulsões (no grito) de todos os demônios, diabos, pragas, exus, entidades, “caboclos”, santos e quaisquer outras divindades não pertencentes ao panteão cristão-feliciano, e a prospecção in loco de eventuais financiadores para a obra de Deus (divindade que tentaremos descrever mais adiante). Para as pregações no púlpito é necessário árduo treinamento do pregador, que deverá adquirir uma voz possante e ensurdecedora, com a qual exortará a plateia a abrir suas carteiras e entregar parte de suas economias. A voz possante do pregador também se faz necessária nos momentos de alegria e êxtase, quando é anunciada a morte de algum inimigo de Deus pelas suas próprias mãos, e quando são recordadas as verdades-felicianas.

O deus da religião cristã-feliciana

O deus da religião cristã-feliciana possui características deveras peculiares, todavia, fomos persuadidos a não descrevê-las nesse blogue, por medo de que algum mal entendido provocasse uma represália de seus seguidores mais ortodoxos, ou até do seu próprio deus, que costuma ser cruel e impiedoso. Mas, em resumo, é aquele deus vingativo do Antigo Testamento, mas que, de vez em quando, fica inexplicavelmente compassivo e bondoso.

A origem do nome


O nome cristofelicianismo deriva da antiga expressão “Cristo é feliz!”, supostamente bradada pelos primeiros fiéis como resposta à exortação de cada uma das sete verdades-felicianas. Cristão-feliciano (ou, às vezes, cristão-feliz) é como costuma-se chamar o seguidor do cristofelicianismo.

As sete verdades da religião cristã-feliciana


1- Deus amaldiçoou o povo africano
2- Deus criou a mulher para servir ao homem
3- Deus abomina os homossexuais
4- Deus matou John Lennon
5- Deus matou os Mamonas Assassinas
6- Deus afundou o Titanic
7- Deus é amor

 De um pequeno grupo, para o mundo inteiro

O Cristofelicianismo veio a público depois que seu maior representante conseguiu o cargo de presidente da CDHM - Comissão de Direitos Humanos e Minorias. O movimento tomou notoriedade depois que alguns humanos pertencentes a grupos minoritários entenderam que a entrega da presidência da CDHM a um cristão-feliz representaria uma ameaça a futuros avanços na área. Entretanto, a eleição da presidência deu-se sem nenhuma ilegalidade (apesar do contrassenso), o que evidencia a forte influência da nova religião, não só no meio político, mas em todas as esferas da sociedade.

[PAUSA PARA O CAFÉ...]
 ...

Agora falando sério

Não se trata de denegrir religião ou religiosidade alguma, mas de observar os limites. Não os limites impostos ou não por leis ou pela Constituição (na qual alguns bolsonaros da vida buscam equivocadamente um delirante “direito ao preconceito”), mas os limites do bom senso. “Africanos estão fodidos porque não aceitaram a Deus.”, “A Aids é culpa dos homossexuais”, etc. Em pleno século XXI há pessoas que se satisfazem com essas respostas tão inocentes e simplistas para problemas nada inocentes e nada simples! É claro que é um direito de qualquer um aceitar ou não qualquer explicação para qualquer coisa, mas não é direito de ninguém usar (ou abusar) de seu justo direito à fé para incitar ódio e violência a pessoas ou grupos de pessoas. Veja isso: em pleno século XXI (ou talvez, quem sabe, por causa do sec. XXI) há pessoas que sentem prazer em imaginar que um assassinato poderia ser justificado por uma causa divina.



Fico imaginando quanto tempo falta para as pessoas se sentirem à vontade para sair à rua dando tiros em mim ou em você, não por causa de um tênis ou cinco reais - mas em nome de uma divindade.

Observe a fala do pastor (fazendo de conta que fala com o cadáver): “esse foi em nome do Pai, esse em nome do Filho e, esse, em nome do Espírito Santo”. Percebeu o prazer no seu rosto e na sua fala enquanto ele se imaginava na presença de uma pessoa alvejada por três tiros? Percebeu o gozo da plateia? Se isso não é incitação ao ódio e à violência, então podem me internar. Por isso, sem rodeios: se essa aí é a “trindade” (ou como quer que a chamem) eu quero mais é que o cu dela pegue fogo! (o cu DELA, não o meu, nem o seu, nem o de ninguém) E que ela, se quiser me dar três tiros, não seja covarde em mandar um mensageiro, mas que o faça pessoalmente!

Divirta-se (ou não) com mais pérolas do cristofelicianismo




terça-feira, 19 de março de 2013

Os dedos de Francisco, fraudes no ponto eletrônico e uma alternativa eficaz (entre outras mazelas)

Quem pensava que pilantragem era exclusividade da classe política enganou-se (que novidade...). Óbvio que qualquer categoria tem seus mocinhos e seus bandidos. Os médicos que usavam dedos de silicone para fraudar o ponto eletrônico são um bom exemplo disso. E não são só eles. O coordenador do Samu, acusado de organizar o esquema, tenta tirar o cu da reta, mas os dedos apontam para ele.

Isso sempre me faz pensar sobre a fragilidade do sistema e as tentativas que se faz para torná-lo perfeito – mas ele nunca o será. Mesmo que se implante um chip no cu das pessoas, sempre haverá um jeitinho, alguém sempre estará disposto a driblar as normas e alguns vão conseguir. Se formos escavar esses casos até o fundo, a conclusão será sempre a mesma: lucro. Por que ficar sentado no plantão se eu posso estar lá e no meu consultório ao mesmo tempo? Mas ninguém vai assumir que o objetivo era esse. Coordenador vai dizer que não sabia de nada, a médica que “passava os dedos” dirá que foi ordem do coordenador e os médicos poderão alegar que foram vítimas de um boa-noite-Cinderela e tiveram seus dedos clonados por marcianos numa noite de sábado. Desafiando a física, esses médicos estavam em dois lugares ao mesmo tempo, recebendo, obviamente, dois ordenados. Desafiando o bom senso, muitos dos que se mostram indignados com o caso fazem igual ou pior. É que o que os dedos não apontam o coração não sente.

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Dedos são coisas que possuem uma simbologia muito profunda. Eles são muitos, e são relativamente longos. Além disso (e por isso) é possível enfiá-los nos lugares mais improváveis, em expedições exploratórias de tirar o fôlego. Dedos são partes do corpo tão importantes que é neles que colocamos alianças de compromisso e é neles que o Papa coloca um dos maiores símbolos do poder da Igreja, o Anel do Pescador.

Mas desta vez o anel não será de ouro maciço. O Vaticano já anunciou que o anel será feito de prata receberá uma cobertura de ouro. Parece que o ouro representa o divino e a prata o humano, ou coisa assim. Mas o que deixou muita gente entusiasmada é a possibilidade de a Igreja dar uma guinada histórica e colocar-se numa posição um pouco mais condizente com a realidade do século XXI. Também apontam para essa possibilidade o nome do Papa (que remete a São Francisco de Assis), as frequentes quebras de protocolo (que fazem o Papa parecer mais humano e menos divino), sua ligação com a América Latina e com os jesuítas entre outras coisas. Enfim, até o fato de Sua Santidade ter recebido a multidão de braços abertos ou fechados é motivo para os “especialistas” tirarem conclusões esperançosas. Mas, parafraseando São Lula (o santo dos nove dedos), o Vaticano também é um navio enorme (e muito antigo), e qualquer manobra muito brusca pode naufragá-lo. É bem por aí.

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(Um pouco de cultura (quase) inútil

Il Camerlengo é o responsável pelas finanças do Vaticano, dentre outras coisas. Ele conhece o subsolo da Santa Sé melhor que o próprio Papa, e é o responsável pela retirada do Anel do Pescador do dedo do papa morto (ou que renunciou) e destruí-lo (o anel) para que ninguém seja papa antes do conclave. Ele é uma figura mais ou menos como o mordomo dos livros de suspense. Se registrarem o ponto com dedos de silicone lá no Vaticano, desconfie do camerlengo. Se assassinarem o Papa, então...)

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Os dedos – seus usos e desusos na infância

Quando éramos crianças e apontávamos os dedos para as estrelas, ganhávamos verrugas. Talvez essa crença tenha origem na necessidade de amputarmos de nossas crianças a curiosidade. Desconfio que se elas permanecessem muito tempo observando o céu noturno, invariavelmente sua curiosidade seria aguçada e seu senso crítico daria os primeiros e preciosos passos. Se permitíssemos que elas crescessem perguntado sobre as estrelas (aqueles pontos inúteis no céu) logo elas estariam questionando nossas tradições, atentando contra a moral e os bons costumes e fazendo piadas com o Papa como se ele fosse um qualquer. Portanto, crianças, se forem observar as estrelas, aproveitem a tecnologia do século XXI e providenciem uns dedos de silicone para contá-las de forma mais segura.

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Moral da história (mas ainda não estamos no fim)
A moral da história é que esse lance dos dedos de silicone é uma bela cutucada no cu do sistema. Claro que é imoral, antiético, blá, blá, blá e etc. (ninguém precisa escrever isso em nenhum lugar para as pessoas se darem conta disso). Mas, por outro lado, essa situação reflete um aspecto importante de nossa sociedade: não adianta tentar obrigar as pessoas a fazer a coisa certa (ou o que quer que seja considerado certo) porque o “certo”, queiramos ou não, ainda é o lucro a qualquer custo. E enquanto esse conceito permear nossa sociedade (eternamente, talvez) não haverá tecnologia que impeça fraudes. E, como o sol nasce para todos, todos nós estamos sujeitos à tentação de se bronzear um pouco mais. Como alguém disse uma vez: onde existe uma situação em que é possível sair lucrando, alguém vai descobri-la e vai lucrar. Não importa se é aqui, em Brasília, na Etiópia ou no Vaticano.

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Aproveitando a deixa para dar uma surra de rastelo nas promessas da tecnologia

Você lembra quando implantaram, na empresa onde você trabalha, o sistema de ponto eletrônico por impressão digital, com a desculpa de que assim seria impossível um colega registrar o ponto do outro? Pois é. E a tecnologia falhou novamente. #CHUPASISTEMA

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Uma alternativa eficaz

Contrariando o que eu escrevi anteriormente, creio que talvez exista uma forma de evitar fraudes nos pontos eletrônicos (pelo menos por homens). A solução seria passar o pênis ao invés do dedo. Quando ouvi a notícia sobre os dedos de silicone fiquei imaginando como seria o processo de “clonar” os dedos. Provavelmente foi aplicada uma forma de gesso (ou algo assim, note que sou leigo no assunto) e a partir do molde foi fabricada uma cópia em silicone. Agora imagine como seria o processo de copiar um pênis. E mais: imagine como seria andar por aí com meia dúzia de pênis nos bolsos. E mais ainda: imagine como seria pegar cada um deles e passar no ponto eletrônico, sabendo que eles são idênticos aos pênis dos seus colegas de trabalho. Certamente tais situações vexatórias inibiriam boa parte das fraudes em pontos eletrônicos. Fica a dica.


sexta-feira, 8 de março de 2013

Foda-se, essa merda!


Há muito me parece que não há nada mais contemporâneo do que o ato de tocar o foda-se. Tanto que deveria existir um verbo novo, específico, que resumisse em uma palavra apenas esse tão preciso e atual gesto. Ao invés de dizer que fulano “tocou o foda-se”, poderíamos utilizar outro verbo, como, por exemplo, fulano “desempapou-se” (calma, eu já explico).

Acontece que desempapar-se pode ser compreendido mais ou menos como o contrário de empapar-se (embeber-se, ensopar-se, mergulhar-se em líquido...). Se pensarmos na sociedade líquida de Bauman, isso faz até certo sentido, uma vez que o modus operandi do “tocar o foda-se” tem certa relação com o excluir-se (ou tentar excluir-se) de certo conjunto de valores e operações dos quais se espera que determinadas ações produzam determinados resultados.

Na prática, tocar o foda-se consiste em colocar um ponto final nas dúvidas transitórias suspensas, dar a tarefa por concluída, afastar-se da situação-problema e, de longe, observar o estouro-resultado (afinal, o show não pode parar).

E foi exatamente o que o Papa fez. Ele desempapou-se. Incapaz de consertar aquele antro de corrupção, putaria e iniquidade que é a Igreja, ele decidiu que não queria mais nada com aquela bagaça, e declarou que está velho demais para essas coisas e que vai passar o resto de seus dias dedicando-se a escrever livros.

(Como se não bastasse, antes mesmo de vermos sair qualquer fumaça, branca ou preta, um dos cardeais que participaria do conclave assumiu que teve “atitudes impróprias” com seminaristas e também “largou pras cobra”. Pois é, pois é , pois é...)

Evidente que nem o cardeal nem o ex-Papa (é assim que se diz?) vão deixar de ser fiéis católicos que rezam e pedem perdão a Deus todas as noites por seus pecados, assim como aquele que entrega o relatório feito nas coxas ao chefe também não vai deixar de ser um bom colaborador da empresa.

Tocar o foda-se é uma arte, que deve ser exercida com cuidado e responsabilidade. Deve ser feito quando você é constrangido a fazer algo que você sabe que não vai dar certo (e cuja argumentação em contrário jamais funcionaria devido às ridículas estruturas hierárquicas) ou quando não existe outra alternativa. Não deve ser exercida em qualquer momento ou ocasião, mas somente quando é evidente que os esforços serão enormes e os resultados pífios. A vida é curta demais para esforços hercúleos que não trazem resultados. A vida é curta demais para os teatrinhos, para os faz-de-conta, para deslocar exércitos com o objetivo de masturbar um general. Mas como você é um soldado e tem que marchar (pois o general precisa ejacular) então foda-se! Vamos marchar! Conscientes, porém, do objetivo principal e do resultado. Aquele que faz o que está além do seu dever e antevê a desgraça que está por vir, o faz sob inspiração do foda-se, e, por isso, jamais chorará ao final. Passará pela sarça ardente sem se queimar e servirá de exemplo para os demais soldados, até que um dia, talvez, todos aprendam a masturbar-se sozinhos e não haja mais generais.

Tocar o foda-se tem a ver com limites. Ao contrário do senso comum, a minha concepção de limite tem a ver com algo insuperável, muito próximo ao impossível (o limite só não é igual ao impossível porque permite ao vivente a chance de tentar superá-lo). As pessoas devem estar conscientes dos seus limites. As pessoas que comandam as outras devem pensar nisso mais ainda, pois, além de lidar com seus próprios limites, deve conhecer e respeitar os limites da equipe sob seu comando. Quem tenta superar seus limites está sujeito à frustração e tocar o foda-se é a salvação de quem não tem outra alternativa.



Bem-aventurado o líder capaz de tocar o foda-se. Este será exemplo, seus descendentes cantarão as suas vitórias e seus erros não se repetirão.



Nesse sentido, o leitor atento certamente já percebeu que em momento algum eu denigro a atitude do Papa. Apesar do tom jocoso e despudorado dos meus escritos, no fundo eu admiro muito a atitude de Bento XVI. Ao menos ele teve a presença de espírito de praticamente dizer “não, isso não é pra mim”. O representante de Deus na terra, detentor da infalibilidade papal, cansou-se daquilo, atirou o chapéu num canto e foi fazer outra coisa. Com o aval de Deus “desempapou-se” de muita lama, de muita sujeira e deixou o troninho de ouro para outro machão qualquer tentar dar um jeito naquela joça. Enfim...

Observado por esse viés, tocar o foda-se torna-se uma excelente válvula de escape. Poupa as pessoas de desgastes desnecessários, evita a criação de inimizades e atritos inúteis e, sobretudo, exercita a criatividade.

Sejamos, pois, ferrenhos defensores dessa arte. Desempapemo-nos como fez Bento XVI, mas de forma melhor, mais alegre, menos disfarçada e sem hipocrisia.

Se você gostou desse texto, compartilhe, curte, coise, enfim... se não gostou, foda-se. Mas não deixe de comentar aí em baixo, mesmo que for para xingar. Até a próxima!

sábado, 21 de abril de 2012

Descriminalização do aborto.


 


Só quem tem Deus no coração sabe o que é amor...”
Provérbio facebookiano

A recente decisão do STF sobre o aborto de fetos anencéfalos é motivo para fogos de artifício. Só não os solto porque esse gasto não estava previsto no meu orçamento. Explico (o motivo da festa, não o meu orçamento): a opção por interromper uma gestação é (ou deveria ser) uma decisão exclusiva das mulheres que se encontram nessa situação porque a elas compete dar continuidade ou não a uma coisa que está acontecendo dentro dos seus próprios corpos. Negar à mulher essa autoridade sobre o seu corpo é nada mais do que restringir-lhe a liberdade. Ou melhor: é nada mais do que continuar a restringir a sua liberdade. Engana-se o leitor que pensa que os tempos de opressão feminina perderam-se num passado medieval. Eles persistem. 
 
Repare que a maioria dos líderes religiosos (que, sem exceção, são contrários ao aborto sob quaisquer pretextos) são homens. Repare, ainda, que os líderes da maioria dos movimentos antiaborto são homens. Repare, enfim, que homens não engravidam. Isso seria o bastante para encerrar a discussão. Mas vamos além.

Eu disse que a opressão persiste. Não pensem que o assunto acabou depois do auê sobre um certo Rafinha Bastos que fazia piadas sobre mulheres estupradas e que queria comer não sei quem com feto e tudo, pois a moda continua (com menos alarde, já que agora o “humorista” aprendeu a não citar nomes): segundo esses reacionários (num disparate proferido antes ou depois do caso Vanessa, não lembro) as mulheres não deveriam sequer amamentar em público. Seria feio, nojento, etc., a não ser que fossem gostosas. Quer discurso mais sexista? Agora, além de tudo, os homens escolhem quem pode mostrar os seios e quem deve escondê-los. 

- Ah, mas é só um programa de humor...

Não. Não é só um programa de humor. É a reprodução constante e sistemática de um discurso que não é de hoje. O humor é uma arma e uma ferramenta perigosa. Disfarçado sob o manto de humorista e protegido pelas gargalhadas de uma plateia desatenta é possível professar páginas e páginas de um Mein Kampf de absurdos sem que ninguém perceba o que está acontecendo.

Da mesma fora, protegido por um belo terno e acompanhado de cânticos, améns e aleluias, é possível declamar a mesma poesia (numa edição mais antiga, talvez) sem que ninguém note a semelhança. E lá se vai a mulher, de cabeça baixa, fazer o que lhe é ordenado: servir aos homens, parir seus herdeiros, amamentá-los às escondidas (a menos que os seios sejam agradáveis à lascívia masculina) e fazer coro às regras que atravessam a história - todas ditadas por homens. É o poder da esposa que ora.

Por isso a decisão do STF deve ser comemorada. É um passo a mais em direção à liberdade, sobretudo a das mulheres. Feministas do mundo inteiro, comemorai! O estado mostrou que continua sendo laico, a despeito de símbolos religiosos pendurados em repartições públicas (dos males, o menor). Um avanço, sem dúvida. Há, entretanto, quem tem a esperança de que o Congresso reverta a decisão do STF. Bem, se isso ocorrer, talvez seja o caso de trocar os bandeiraços por manifestações a base de coquetel molotov. Talvez. No dia em que o Congresso questionar uma posição como esta – a de não obrigar uma mulher a levar a cabo a gestação de um corpo sem cérebro - não estaremos longe de virar uma república fundamentalista cristã, como alguém já profetizou por aí. Nada contra cristãos em particular. Só contra o fundamentalismo. 
 
A questão não é preservar o direito à vida (vida de um grupamento celular sem consciência), mas preservar o direito de as pessoas decidirem pelo que pode ou não acontecer dentro de seus próprios corpos. Digam o que quiserem, mas enquanto estiver dentro da barriga de uma gestante, o que quer que lá esteja, só deveria permanecer lá com o consentimento da mulher. Depois que essa criatura tiver nascido, sob amor e vontade da mãe, defenderei o direito dela viver como defenderei o de qualquer outra pessoa. Mas não antes. Quem vive pregando que não temos o direito de “tirar vidas” esquece que temos o dever de diminuir o sofrimento. Esquece que às vezes o estuprador (como um deus) também dá e tira vidas. Esquece que uma gravidez de risco coloca duas vidas a perder. Esquece que um feto anencéfalo não é um ser humano senão na aparência.

Dar às mulheres o justo direito de decidir sobre o que pode ou não acontecer dentro delas mesmas não vai transformar o mundo num matadouro de crianças. Maternidade é um direito, não um dever. Quem é contrário ao aborto em casos de estupro, risco de vida e anencefalia continuará tendo o direito de levar adiante a sua própria gravidez quando se encontrar numa situação semelhante - mas não pode obrigar as outras pessoas a fazer o mesmo.

Somos seres humanos. Faz mais de 200 mil anos que nosso cérebro deixou de ter apenas a função de dizer ao estômago quando agir. Hoje ele serve também para decorar telefones de clientes e fornecedores. No entanto, talvez a sua maior função seja a de nos tornar humanos - os queridinhos da criação - esses bichos estranhos que falam de amor.





terça-feira, 18 de agosto de 2009

Não, não é por dinheiro!

Vejam o que eu recebi no painel do blogspot logo após publicar a postagem abaixo:

Não, não é uma questão de dinheiro... deve ser um sinal de Deus para que eu me converta!

É de cair as bolas

E ainda há quem diga que "religião não se discute". Depois das denúncias contra Edir Macedo, não resisti e entrei no blog do sujeito (só para ver com que a cara de pau ele trataria do assunto). Encontrei um comentário de um fiel. Esse comentário mostra o quanto essas igrejas são poderosas no sentido de destruir o senso crítico das pessoas. É de dar medo.
Eu retirei o nome do autor, pois a intenção não é expor as pessoas, mas as ideias.

"Por: ----------------------------------

201

18th agosto, 2009 as 1:23

OLÁ BISPO MACEDO, SABEMOS QUE QUANDO O DIABO E SEUS REPRESENTANTES SE LEVANTAM CONTRA NÓS É SOMENTE PRA CAIR. O SENHOR É UMA BENÇÃO. UM ABRAÇO QUERIDO BISPO MACEDO E QUE DEUS O ABENÇOE SEMPRE."


Não sei se voltarei a ter uma ereção depois disso...

quinta-feira, 9 de julho de 2009

Retrocesso! Retrocesso!

Cansei. Acho que esse é o termo. Procure no google: "bolsa estupro". Não faltava mais nada: um "incentivo" para que a mulher vítima de estupro abra mão do seu (sofrido) direito ao aborto por alguns pila$.

Esse projeto de lei, que está em tramitação no Congresso, fixa um pagamento pelo estado de um salário mínimo mensal, durante dezoito anos, para a mulher vítima de estupro que não recorrer ao aborto.

Minha paciência acabou quando li algumas palavras, que preferi chamar de pérolas: "
se, no futuro, a mulher se casa e tem outros filhos, o filho do estupro costuma ser o preferido. Tem uma explicação simples na psicologia feminina: as mães se apegam de modo especial aos filhos que lhes deram maior trabalho". Isso está justificativa do projeto (como dizem os gaúchos, "carcule, então, o que virá...")

Outra pérola é o depoimento do deputado Luiz Bassuma (PT-BA): "A ciência está do nosso lado, pois a genética diz que a concepção acontece no primeiro minuto, a partir daí já é uma vida e vamos fazer de tudo para que ela seja respeitada". É um argumento muito esdrúxulo, pois a ciência não está nem de "um lado" nem de "outro"; depois ele fala em "respeitar a vida" quando propõe um projeto de lei que não respeita a mulher, não respeita a coletividade, não respeita ninguém, muito menos a vida, pois quem gera outro ser "sem querer" são os animais. O ser humano deveria, como ser racional, ter o direito de optar por gerar ou não outro ser humano.

A pérola maior fica por conta do deputado Henrique Afonso: "O aborto, para nós evangélicos, é um ato contra a vida em todos os casos, não importa se a mulher corre risco ou se foi estuprada", afirma o deputado. "Essa questão do Estado laico é muito debatida, tem gente que me diz que eu não devo legislar como cristão, mas é nisso que eu acredito e faço o que Deus manda, não consigo imaginar separar as duas coisas."

Isso mesmo, eles fazem o que Deus manda. Por isso nada mais natural do que impor sofrimento à mulher. Nada mais natural do que desejar que o ser humano mande às favas a sua racionalidade e se comporte como um animal, que é obrigado a colocar outro animal no mundo só porque o touro montou na vaca (mesmo se ela não quisesse). Também nada mais natural do que fingir que estupro não é nada, afinal, um estuprador só está fazendo o que Deus mandou: "crescei e multiplicai-vos".

quarta-feira, 25 de março de 2009

Encenação da Paixão e Morte de Cristo - Fatos Reais

Está confirmado: 10 de abril às 16h.
Uma 'super produção' capaz de movimentar os mais de vinte mil habitantes-espectadores de Carlos Barbosa. Dá quase mais público do que filme do Homem-Aranha.

Dia dez de abril o barbosense irá vestir roupa bonita, irá à missa, perdoará o patrão, etc. Neste dia, poderemos encontrar pelo menos três gerações simultaneamente. Do velhinho à criancinha, todos estarão comovidos com o mesmo discurso precário, no qual alguns já não acreditam, mas obrigam seus filhos a acreditarem. Também se exorta as pessoas a participarem, atuarem como figurantes no evento. No final, todos serão exaltados, ufanados pelo povo. As minguadas críticas que nossa elite intelectual publicará dirão respeito ao calçado dos figurantes, que - onde já se viu - não poderia ser chinelo de dedo. Teria que ser sandália. De couro.

Deixemos de lado a hipocrisia. Eu mesmo já participei da encenação. Já fui 'soldado romano' (duas vezes) e também 'povo'. Sempre quis ser 'apóstolo', mas como a minha barba é muito ralinha, não foi possível. Mesmo assim, nos divertíamos muito. Até ateus podem se divertir com isso - os que têm estômago. Lembro-me de uma ocasião em que atuei como soldado. Nós aguardávamos escondidos a passagem de Jesus (depois da ceia, do julgamento e tals) para escoltarmos o dito cujo durante a subida do Calvário. Nesse ínterim, eis que surge uma garrafa de Del Grano. Um centurião convida-nos a beber enquanto aguardávamos o julgamento do Senhor. Bebemos muito. Reza a lenda que depois, na altura da primeira ou segunda queda, o centurião, emocionado com sua própria performance, acerta sem querer um relhaço no Cristo. Este grita (diferente de como gritava antes). O público delira. O centurião olha para nós, os soldados, e diz baixinho: "filha da puta, acertei Jesus."

Realmente muita coisa mudou em dois mil anos. Creio que os soldados romanos não trabalhavam semialcoolizados e nem se divertiam tanto. Também foi constatado que eles realmente não usavam chinelos de dedo, não blasfemavam, e como quer o Papa, não usavam preservativos.

Aos 'finalmentes':

Faz parte do nosso "jeito de viver" repetir atitudes sem sentido de forma cíclica. Só para ficar com alguns exemplos: Ano Novo, BBB, Carnaval, (...), Especial Roberto Carlos e Retrospectiva da Rede Globo. Essas coisas já devem estar no nosso DNA, ( talvez seja por isso que a Igreja Católica embirra tanto com questões abortivas e contraceptivas). Nada melhor do que encrustar quase que geneticamente padrões de condutas totalmente irracionais para manter as coisas "do jeito que estão". Nada pessoal, já que eu também tenho minha própria rotina diária de irracionalidades: trabalho, estudo, durmo, acordo, trabalho, estudo... Todos têm. É normal e real... De vez em quando quebro minha rotina me misturando às pessoas para participar ou assistir à encenação da Paixão de Cristo. Afinal, são fatos normais. Fatos reais.