terça-feira, 3 de maio de 2011

Lux(o)

os interesses
ocultos permeiam
perpassam a pele
as asas do inseto

da lâmpada, apenas
a luz a mariposa conhece
e obedece cega as regras da morte
e dos devidos usos das máscaras diversas...

- divirta-se, ó luz perversa!

terça-feira, 19 de abril de 2011

Aniversários versáteis

É bem verdade que falar de política do pão e circo em blogues já virou clichê, mas não consigo resistir. Sobretudo quando posso utilizar elementos da nossa cultura local como exemplo.

Aos fatos: no primeiro de maio, data em que tradicionalmente “homenageamos” a figura do trabalhador, aqui, nas colônias no Além-Tejo, algum marqueteiro esperto teve uma ideia brilhante: comemorar o aniversário de uma empresa. Só não sei se a ideia ocorreu há mais de cem anos (o que comprova a visão de futuro e o empreendedorismo nato de nossos antepassados) ou se foi num momento posterior à criação da empresa (o que comprova que nada acontece por acaso e que Deus está do nosso lado). Mas, seja por milagre, coincidência ou esperteza, em Carlos Barbosa, primeiro de maio é, antes de mais nada, aniversário da nossa Fantástica Fábrica de Panelas e, por extensão (e por ser inevitável), dia do trabalho. Do trabalho.

Na nossa terra, confundir trabalho com trabalhador é comum. Como um não existe sem o outro, nada melhor do que simplificar as coisas: eles bem que poderiam ser sinônimos. Mas deixemos os detalhes gramaticais de lado. Estávamos falando de pão e circo. No dia primeiro de maio vamos celebrar a chegada do pão.

Quanto ao circo, a ACBF já fez aniversário. Em abril. Não sei bem em que dia, mas sei que na festa de aníver da nossa “laranja mecânica” (Kubrick, perdoai-nos) teve bolo com velinhas, cover do Élvis e show de pagode. Uma festa de aniversário mais ou menos comum, com um aniversariante alaranjado. Há quem diga que alguns convidados também eram laranjas... Enfim, ruas com decoração laranja, meios-fios laranjas. O mundo é uma laranja (segundo Chapolin)...

Não tenho dúvidas que a paixão pelo trabalho e a paixão pelo futsal são frutos de um mesmo processo. Na verdade, nosso pão e nosso circo saem das mesmas mãos e, com a graça divina, caem em nossos pratos e lares. Mas, diferente da Roma Antiga, no nosso caso, não é o governo o principal fornecedor desses elementos fundamentais. Ou então, o governo está deixando de ser quem pensávamos que fosse. A ideia de sermos governados, de fato, não por representantes no Executivo ou Legislativo, mas por empresas, por presidentes vitalícios escondidos atrás de suas instituições gloriosas, ou por grandes interesses de meia dúzia de famiglie tradicionais não me parece absurdo. Aliás, me parece bem coerente.

Mas tenho que terminar esse texto e não estou muito feliz com ele. Sempre fico com a impressão de que os meus títulos prometem mais do que o texto dá. Mas, de qualquer forma, tenho que colocar um ponto final nesse textículo e cuidar dos meus testículos, afinal, barbosense que se prese deve amar suas panelas e suas laranjas. Incondicionalmente.

quinta-feira, 24 de março de 2011

Ser ou parecer? Uma questão moderna

Parecer é ser. Sobretudo em tempos de modernidades virtuais, exageros vãos e ignorância exacerbada. Se pensarmos, então, na ditadura da imagem, não há o que dizer. Eu não sei exatamente o que sou (e não considero que alguém o saiba) mas posso saber exatamente o que pareço ou quero parecer ser. Posso manipular essa aparente aparência (ops!) a meu favor. Posso parecer interessado naquilo que te interessa. Posso parecer não gostar daquilo que você não gosta. E você jamais saberá a verdade. Talvez ninguém sequer queira saber a verdade. Ou talvez, ainda, as pessoas fujam da verdade, com medo de encontrá-la e verem seus mundinhos afundarem no mar sólido e sórdido da realidade. (O fantasma de Narciso está assombrando os meus textos outra vez...)

Dia desses um amigo de uma dessas redes sociais (que deveriam se chamar "redes antissociais") reparou na minha foto do perfil do usuário (a mesma foto que ilustra o meu perfil nesse blogue, onde eu apareço num ambiente surrealista portando uma cuia de chimarrão e mordendo a bomba) e a considerou inadequada para a minha pessoa, ou melhor, para o meu "papel social". Tenho certeza de que ele não foi o primeiro a considerar tal absurdo, mas foi o primeiro a comentar isso comigo.

Acontece que meu trabalho é o meu trabalho e Facebook é Facebook. E, ainda, eu sou eu, e sou (ou pelo menos me considero) anterior e superior aos meus papéis e aos sistemas em que esses papéis se inserem, sejam eles família, escola, trabalho ou redes sociais. Eu estou no controle e decido até onde quero levar esse joguinho de aparências. É fato que usamos diversas máscaras de acordo com diversas situações: ou você faz isso (cumpre as expectativas do sistema em que está inserido no momento), ou você é expurgado. Mas repare no detalhe: expectativas do sistema em que se está no momento. Eu não sou o meu trabalho, até porque (que me perdoem os teóricos sociais que eu ousei ler até agora) hipocrisia tem limites. Ou seja: eu uso a imagem que eu quiser no meu perfil, seja eu gari ou presidente da república (o que eu jamais seria, a menos que eu mudasse de opinião), e que frustrem-se as pessoas que esperavam ver outra coisa. Não estou aqui para atender às parcas expectativas de meia dúzia de néscios ou de quem quer que seja que esperava ver o sua própria fuça no MEU perfil de usuário.

Hipocrisia tem limites. Uma coisa é agir (ou não) de acordo com as convensões tácitas de um determinado sistema. Outra coisa é se emocionar com isso ao ponto de tornar-se uma prostituta do olhar alheio (com o devido respeito à categoria). Se você é um bombeiro, por exemplo, você é um bombeiro. O "parecer" é posterior, flexível e questionável. Há pessoas que parecem ser feitas de ouro (porque as regras de um determinado sistema diz que elas devem se comportar como tal), mas na verdade são feitas de fezes. E a fezes disso tudo, é que isso é o "normal". É assim que funciona. No grosso desse mundão você não precisa ser nada, contanto que pareça.

Bem aventurados os que parecem, porque, em verdade vos digo: deles será o reino da Terra.

Isso tudo, junto com a cerveja que estou bebendo agora (ops, eu não deveria ingerir álcool, dizem meus algozes!), me faz chegar à óbvia conclusão de que parecer é o mesmo que ser. Obama é o exemplo máximo dessa teoria. Mas eu, particularmente, prefiro que me caiam as bolas a ter que "parecer" assim ou assado só porque a lua está cheia ou minguante. Não tenho estômago para esse joguinho de abraços e sorrisos. Sou naturalmente antipático e minha simpatia se limita ao necessário para criar um bom ambiente. Ao estritamente necessário.

quinta-feira, 17 de março de 2011

Dia da mulher (olhando a coisa por outro lado)

Deixando de ser hipócrita por alguns segundos e mostrando o outro lado da moeda:




Detalhe sórdido: a mulher acima é tratada na maioria dos sites não pelo nome, mas pela alcunha de Ex-Ronaldinha.
Aos hipotéticos observadores de outros mundos: apreciamos tais cenas, ainda, contando com a complacência de muitas (muitas) mulheres, mesmo há mais de um século das primeiras "conquistas femininas". Ou seja: o caminho é mais longo...
 
Clichê por clichê, vamos à citação: Simone de Beauvoir: "não se nasce mulher: torna-se". Só que isso é muito mais do que um refrão bonitinho para um cartão. E não é necessariamente um elogio.

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O maior porta-retratos do mundo

Lembro-me vagamente de histórias de índios que tinham medo de serem fotografados. Acreditavam que suas almas ficariam aprisionadas para sempre no interior da câmara ou no papel fotográfico. Eu tinha mais ou menos seis ou sete anos quando meu avô contava essas histórias.

É realmente excitante pensar na máquina fotográfica como sendo uma arapuca do diabo para pegar almas descuidadas. Na taba, a explicação mítica para a química incompreensível da fotografia talvez alimentasse longas noites de histórias contadas ao redor do fogo. Na taba e, também, aqui. Isso poderia explicar por que o céu parece ter cada vez menos estrelas: porque as almas, ao invés de irem para lá, ficam aprisionadas por aqui, em books, e-books, facebooks e outdoors. Enfim, enquanto criança, minha tendência era acreditar mais na explicação mítica da fotografia do que nas emulsões e cristais de prata da ciência. De qualquer forma, almas cativas sempre serão mais interessantes do que cristais de prata.

Mais tarde ouvi falar de um tal de Narciso (não me pergunte o que isso tem com fotografia, não faço ideia...), aquele que teria se apaixonado pela sua porópria imagem refletida na água e danou-se por causa disso. Então a magia da câmara fotográfica (ou câmera, como preferem os moderninhos) passou a oscilar entre uma armadilha demoníaca e uma bênção divina. Sim, porque se Narciso fosse barbosense e tivesse uma Sony, não teria se afogado. Talvez.

Nosso admirável mundo nos trouxe muito mais do que fotografia. Deu-nos câmeras digitais, Internet, televisão HD, etc. Poderíamos dizer que estamos, mais do que nunca,  na era da imagem. Podemos nos apaixonar por nossa própria imagem e compartilhar esse sentimento instantaneamente com uma enorme quantidade de amigos. Sem remorsos. E quando nossa imagem quase perfeita não nos for mais satisfatória, podemos nos apaixonar por uma espécie de reflexo de nós mesmos produzido em alta definição pelo discurso televisivo. É só escolher um ator, um personagem da novela, um herói do BBB, enfim, uma persona enlatada que talvez  seja parecida conosco; em que possamos amar nela aquilo que ela contém de nós.

O que estava demorando nesse texto:

Não é preciso dizer que os municípios da região serrana do Rio Grande do Sul não fazem parte do Brasil. Todos sabemos que estamos anos-luz a frente do restante do país. Tudo por aqui é mais avançado, evoluído. Todos os nossos problemas já foram resolvidos há mais de um século. Somos mais do que primeiro mundo. Somos O Mundo. Repito: Se Narciso fosse barbosense, não teria se afogado.

Por aqui nós já compreendemos tudo sobre tudo. Já aprendemos tudo sobre imagem, discurso televisivo, narcisismo, psicanálise, panelas de pressão, etc. Já superamos a “crise da família” (aliás, nunca tivemos tal crise) e, por isso mesmo, a TV saiu da sala de estar para superar a si mesma, redefinindo sua geografia suas funções. Basta chegar em Carlos Barbosa e reparar no enorme painel eletrônico instalado na entrada da cidade*. Nesse painel, entre um comercial de panelas e um de talheres, aparece a imagem de colaboradores operários da nossa Grande Fábrica de Panelas. Reza a lenda que todos os funcionários foram fotografados (querendo ou não) e que todos sorriram (querendo ou não); mas ainda não tive tempo para averiguar. Pode ser mentira.

Que isso sirva de exemplo para as outras empresas e os outros municípios. Nossa comunidade é a nossa sala de estar. Somos uma enorme família de milhares de pessoas e o papai Tramontina nos presenteou com um enorme Espelho de Narciso, protegido por grades e por leis estaduais (do contrário não poderia estar ali) e, principalmente, protegido por nós. Ninguém vai se afogar olhando para ele. Ninguém terá a sua alma aprisionada como acreditavam aqueles índios burros. Todos precisamos dele para saber quem somos e quanto valemos. Precisamos dele para nos amarmos e sermos amados.


* No meu fabuloso texto sobre o trevo de acesso a Carlos Barbosa esqueci de mencionar que ele contaria com programação local de TV a cabo.

sábado, 12 de fevereiro de 2011

Conto escrito num dia de chuva

Naquele dia o céu amanheceu mais nublado do que de costume. Não houve cantoria de pássaros nem de crianças brincando de roda na creche ao lado. De sua cama podia ver apenas que já era dia e que o relógio havia parado antes do horário de despertar. Malditos relógios! Ele não teve dúvida: estava atrasado.

Naquela manhã não houve café. Não houve jornal nem cigarro. Ouviu-se apenas o roque-roque de uma escova de dentes fazendo o seu trabalho de autômato e o farfalhar de calças subindo pelas pernas. Por Deus, onde estará o guarda-chuva? Teve que sair sem ele.

Na estrada o cigarro teve que disputar a atenção do seu mestre com o volante do carro. A fumaça desenhava formas familiares. O céu estava escuro. Vai chover logo.
Naquela manhã não houve trânsito. Não era domingo, nem feriado. Não fazia sentido. Pensou que chegaria atrasado mas, talvez, poderia estar enganado. Calcular o tempo que demora para ir de um lugar a outro não era o seu forte. Sempre preocupava-se em acrescentar minutos a mais para a eventualidade de um pneu furado ou de os semáforos estarem, a maioria, fechados. Mas (como era de se esperar) não houve pneus furados. Só um sinal estava vermelho.

Naquela manhã parou para comprar um guarda-chuva. Mas como são feios os guarda-chuvas! E inúteis e desprezíveis! Sempre se perdem e se intrometem em frases falseando o seu sentido.  Iria precisar dele para proteger a cabeça na volta.

De volta à estrada, subiu mais uma ladeira e estacionou perto de uma praça. Saiu do carro e apertou um botão. Gostava de afastar-se do carro enquanto os vidros subiam. Aquilo fazia as coisas parecerem um filme americano, daqueles em que tudo é perfeito e o protagonista é sempre um herói. E nosso herói estava numa pequena e perfeita cidade onde os raros e perfeitos habitantes que passavam resmungavam bons-dias olhando para os pés.

Andou uns vinte metros e sentou-se num banco à sombra de um plátano. Este último continha uma inscrição: "Paulo e Patrícia", dentro de uma tentativa de coração feito a canivete. O banco também portava suas artes, porém vulgares, escritas a líquido corretivo: a caricatura de um pênis, palavrões e ameaças a honra da mãe de quem, por ventura, sentasse ali. Havia tempo para mais um cigarro. As nuvens permitiam.

Naquele dia apareceu uma mulher com uma jovem. Treze anos, talvez. Não olhou para a menina.

-- Deixei a sacristia aberta, disse a mulher. Quando terminarem, você sai pela frente e ela pelos fundos.
Ela, de fato, saiu pela porta de trás, talvez mais cedo do que ela própria esperava. Ele permaneceu em silêncio. Olhou à sua volta. Uma pia simplória. Um armário com batinas. Uma janelinha que mostrava um céu que não poderia ficar mais negro. Olhou pela porta que dava acesso ao interior da igreja. No tabernáculo, Deus dormia. Principiava a chuva, providencialmente torrencial.

Diziam que ele era pai, mas padre ele sabia que não era.  Mesmo assim, andou até o armário e vestiu a batina. Em frente ao espelho ajustou a posição da estola. Gostou da sua imagem refletida. "Imagem e perfeição", disse para si mesmo. Seria sua melhor história, se alguém acreditasse nela.

Naquele dia andou pelo corredor central da nave cantarolando Adeste Fidelis. Lá fora, porém, o céu despejava rajadas de fogo e água. À porta da igreja a cidade não passava de um grande cemitério lamacento.

-- Estão todos mortos. 

Ao longe andava a menina com o guarda-chuva do homem e uma criança nos braços. Ele a reconheceu. 

-- Estão todos mortos.

Havia, agora, uma cidade inteira a sepultar. A chuva fazia o seu trabalho.