quarta-feira, 22 de junho de 2011

Bom feriado a todos!

Saudações, amigos leitores deste insano sítio, o famigerado Macaco Escrevedor.

Antes de mais nada, faz-se necessário esclarecer que o autor deste blog, quando sentou-se em frente ao computador, não fazia a menor ideia sobre o que escrever. Mas a proximidade do chamado “feriadão” fez com que surgisse a necessidade(?) de enfeitar a Internet e brindar os queridos leitores com algumas linhas, por banais que fossem. Afinal, há gosto para tudo.

Reparem, então, que acabei de escrever a palavra “banal”, e a primeira coisa que me veio à mente foi o motivo do feriado que se aproxima. Mas creio que já falei o bastante sobre feriados religiosos. Ou talvez não. Não sei.

Então vamos falar sobre coisas boas. Falaremos sobre a segunda-feira.

A segunda-feira, na minha humilde (e irrelevante) opinião é o dia mais feliz da semana. Ela marca o final de uma série de imbecilidades que somos mais ou menos obrigados a engolir durante o sábado e o domingo. A partir desse dia, podemos voltar a circular tranquilamente pelas ruas centrais da cidade sem o perigo de atropelar pessoas alcoolizadas. Também cessam os infernais tuncs-tuncs-tuncs que costumam sair dos porta-malas de alguns carros cujos proprietários talvez seja melhor não adjetivarmos aqui.

Na segunda-feira, a polícia não costuma passar a 100 km/h atrás sabe-se lá de quem. Também não costumamos ouvir fogos de artifício neste dia, tampouco pastores bradando nas igrejas (se bem que, por aqui, eles fazem seus tumultos nas terças). Reparem que as pessoas até diminuem o uso das buzinas dos automóveis, chegando quase a existir um princípio de gentileza no trânsito. Mas é só um princípio. Que ninguém pense que nós, motoristas barbosenses, somos mais ou menos gentis do que os outros só porque paramos nas faixas de segurança (na verdade, a maioria de nós só para o carro para que os pedestres possam vê-lo melhor).

Repare que, depois da segunda-feira, a medida em que a semana vai passando, o nível de bestialidade das pessoas (não de todas, é óbvio) vai aumentando, de forma que a sexta-feira chega a ser um dia perigoso. Tome cuidado com trânsito (até as bicicletas transformam-se em máquinas assassinas), e jamais entre em discussão com alguém numa sexta-feira!

Adentrando o sábado à noite começamos a verificar altos índices de animalidade nas pessoas. Durante a madrugada podemos observar os níveis mais bestiais do comportamento, que dificilmente são observados nas outras noites, e que só são chamados de bestiais pela falta de outro qualificativo, uma vez que as bestas da natureza sentem-se ofendidas com tal comparação.

Os que sobrevivem à bebedeira do sábado transformam-se em verdadeiros demônios depois de acordarem às três da tarde de domingo. Os que não beberam até cair no sábado, provavelmente o farão no dia seguinte. E nem vou falar dos acidentes de trânsito porque (agora estou preocupado) estarei na estrada também.

Essas reflexões espontâneas (e propositalmente exageradas) me levam a acreditar que, na verdade, o chamado fim de semana não é propriamente o fim da semana, mas o início dela, de modo que, no restante da semana, as pessoas estão descansando das atividades do sábado e domingo enquanto pensam que trabalham. Chego a cogitar a hipótese de que o verdadeiro trabalho atribuído às pessoas (embora não saibamos por quem) é exatamente aquele executado de sexta a domingo. O outro é só fachada. Coisa do diabo.
 
Então, podemos concluir que nesse "feriadão" o trabalho será dobrado. Teremos dois dias a mais de tarefas e loucuras programadas, compromissos sociais e religiosos, rituais acasalatórios (com ou sem álcool), compromissos matrimoniais a cumprir e, como não poderia deixar de ser, os sobreviventes deverão, ainda, apresentar estômago para o Fantástico.

Qualquer leitor perceberá que o outro período também pode ser descrito com as mesmas palavras que descreveram o sábado e o domingo no início do texto: uma sucessão de imbecilidades que somos mais ou menos obrigados a engolir. Entretanto, sinto-me mais seguro na imbecilidade de uma mina de carvão de segunda a sexta do que na imbecilidade da maioria das pretensiosas “diversões” de fim de semana praticadas por boa parte dos exemplares da minha espécie. Nada como fugir para as colinas ou abrigar-se no porão (que é o meu caso).

Que nesse feriado de Corpus Christi,  os deuses imortais mantenham nossos corpos íntegros!

sexta-feira, 17 de junho de 2011

Storie e racconti III - Baile, Chevette e Farroupilha


     Existe, no interior da nossa cidade, um local conhecido como Três de Paus. Trata-se de uma encruzilhada que tem esse nome por causa da disposição das estradas que, ao se cruzarem, não o fazem de forma perpendicular, mas num ângulo semelhante ao que se cruzam as clavas de um três de paus de um baralho espanhol, baralho muito utilizado na região para jogar a escova (ou escoba).
     A história a seguir foi contada por A. T. e I. K., uma dupla de heróis barbosenses, descendentes de alemães, com residência e emprego fixos e que, por incrível que pareça, são jovens demais para morrer e velhos demais para o rock 'n' roll.
     Aos fatos...
     A posse de uma habilitação para dirigir, em conjunto com o recém adquirido Chevette de A. T., possibilitaram aos dois amigos inaugurarem uma nova fase de suas vidas: os bailes (também chamados de reúnas). Agora poderiam ir aos bailes que quisessem, quando quisessem (sem depender do “ônibus no local de costume”) e, de quebra, levar as meninas (que pudessem) para passear de Chevette depois do baile. Chevette 1973.
     Ocorre que “levar as maninas para passear”, naquela época, não era algo tão factível como é hoje. Não foram poucas as vezes que nossos aventureiros tiveram que regressar dos bailes na solidão do banco da frente, carregando as meninas somente na imaginação, onde elas faziam companhia à lembrança do patrão que os estaria aguardando no trabalho na manhã do dia seguinte.
     Diante de tanta consternação (já que o carro não carregava as meninas), não tardou para o pequeno Chevrolet ver-se obrigado a carregar outras atribuições. Em pouco tempo, sempre que retornavam dos bailes sozinhos, “aprontar pelas colônias” tornou-se uma questão de honra. Mas não se assustem, porque a direção era defensiva, e a diversão era algo que, se não substituía um amor fugaz de domingo, servia de vingança, embora nem sempre houvesse vítima.
     Por isso, nossa dupla dinâmica possuía vários planos. Cansados de voltar para casa sozinhos e solteiros, eles decidiram que no retorno da próxima reúna iriam aplicar o “plano B”.
     O tempo passou. Veio o domingo: o padre abençoou, o churrasco findou e a noite chegou. Baile acabou e ninguém namorou. Cansados de cantarolar as rimas da Banda Barbarella, decidiram que era chegada a hora de sair do salão e aplicar o tal plano.
     O “plano B”, ao contrário do que se poderia imaginar, não envolvia prostíbulos e afins. Não o “plano B”. Este consistia em fazer uma “macumba” na encruzilhada, por pura diversão, para rir da vizinhança e ouvir o fala-fala. Dirigiram-se ao Três de Paus e lá, bem na encruzilhada, estenderam uma toalha, colocaram cigarros, acenderam velinhas, dispuseram flores e copos com cachaça que, acreditem, já estavam no porta-malas do chevette aguardando a ocasião, juntamente com uma galinha de patas amarradas que já não tinha vontade de cacarejar. Tudo arrumado, faltando somente a cereja do bolo (ou da macumba). Houve uma breve troca de olhares e eis que cada um saca do seu bolso uma calcinha que roubou como pode do varal de sua casa. A de A. T. era, de longe, a mais bonita, pois era quase nova e tinha alguma rendinha, enquanto que a de I. K. já estava bastante usada, era enorme, tinha o elástico destruído e o tecido a beira de rasgar-se. Mas eram calcinhas, e foram cuidadosamente estendidas, de forma a dar equilíbrio e leveza ao conjunto. A obra de arte estava pronta. E o Chevette os conduziu ao conforto do lar.
     No dia seguinte, a presença daquela oferenda (que seria a primeira a ser vista na região) deu o que falar. Todos queriam expor a sua teoria:
    - É trabalho pra obter amor, não há problemas em chegar perto.
    - Não. É oferenda pra acabar com casamento. Tem que passar longe.
    - Que nada! Isso tudo é bobagem! Podem aproveitar os cigarros que a embalagem está lacrada.
    E assim, cada um expos a sua teoria, até que, o mais sábio de todos, aproximou-se da turba que analisava a novidade com curiosidade infantil e disse:
    - Eu sei quem foi que fez isso. Foi aquela negrada de Farroupilha. Eles vieram numa Kombi, espalharam essas coisas pelo chão e chamaram por Satanás durante toda a noite. Aquela negrada de Farroupilha.
    - Mas como o senhor sabe quem foi?
    - Às Vezes a gente sabe sem saber, meu filho!
***
     Ainda hoje, passados muitos anos, mesmo que os nossos heróis admitam sem nenhum remorso a autoria da pueril e inofensiva brincadeira, há quem prefira acreditar nas palavras do velho sábio: “Foi aquela negrada de Farroupilha”.




segunda-feira, 13 de junho de 2011

A boa e velha limpeza social - e a minha inocência

Limpeza social é um termo que pode parecer um tanto forte, exagerado, mas ainda é o melhor para designar certas coisas estranhas que volta e meia podem acontecer em qualquer cidade, principalmente aquelas com um maior potencial turístico.

Não é raro ver ou ouvir de pessoas importantes consideradas importantes, discursos que beiram a eugenia, com frases do tipo: "é um absurdo esses índios circulando na frente da minha loja", ou "por que ninguém leva esse mendigo embora?" e outras coisinhas do tipo. No meu trabalho, certa vez, tive que ouvir o seguinte: "no caso dos índios, quando têm crianças junto, é muito simples: é só levar pra rodoviária e botar dentro de um ônibus"... [som de inspiração profunda e expiração] [pausa] ...Olha, eu juro que faço força pra não citar o nome do(a) ilustríssimo(a) cidadão(a) que abriu a nobre boca para falar essa merda. Mas falou. Na verdade não cito o autor dessa sapientíssima colocação porque sou covarde mesmo (peso 54kg, sou de fraca compleição física, e se me processarem estou fudido, porque não tenho grana para um advogado).

Por isso, deixemos assim (ou "deixe estar" como se ouve na TV); não vamos falar sobre isso, até porque eu posso estar mentindo, não tenho provas, ninguém vai acreditar nessa merda e, com a sorte que tenho, é bem capaz de aquela atitude ("bota num ônibus e manda embora") ser considerada a atitude perfeita por maioria de votos. Então vamos fazer de conta que este é um texto de ficção (e é mesmo) que fala sobre as coisas estranhas que eu acho que acontecem na cidade de Charlie Barganha.

Isso mesmo, meu nome é Sidnei e moro na cidade de Charlie Barganha, pequena cidade do interior da República Federativa da Nova Noruega; um país maravilhoso, situado no continente Sul-Pampeano, onde "tudo é caro porém perfeito". A pobreza, aqui, não consegue procriar; e se chegou de fora, haverá de retornar. Assim canta o hino da cidade de Charlie Barganha.

Poderíamos fazer um poema épico.

Mas, voltando à realidade, às vezes fico preocupado. Olho pela janela às cinco e meia da tarde, quando há aquele congestionamento digno de "cidade grande", e penso em quantas daquelas pessoas podem ser coadjuvantes nessa ideologia de limpeza social. Depois, para tentar me acalmar, procuro adivinhar o contrário: quantas daquelas pessoas podem estar preocupadas com essa questão. Descubro que não há contrários e finjo uma resposta agradável.

***

Quando, no futuro, todos estiverem trancados dentro de suas casas, digo, caixas de habitar (longe de índios e indigentes) relativamente "a salvo" uns dos outros, devidamente alienados e adestrados na arte de se comunicar através de grunhidos, alguém dirá que a culpa foi do Prozac. E de mais ninguém.

Fórmula estrutural da fluxetina
Disponível em: http://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:Fluoxetin_Structural_Formulae_of_both_enantiomers.png
Que bom que eu estou lendo Cem anos de solidão.

domingo, 29 de maio de 2011

Breve reflexão semi-surrealista a respeito da matéria

O dia e a noite, a cada minuto, tendem a ser mais parecidos. A se tocarem. Misturam-se como um gato se mistura ao sofá onde dorme tranquilo.

Neste dia e nesta noite, este gato e este sofá são os mesmos. Somente suas posturas mudam. O gato se espreguiça: o sofá relaxa. O gato salta ao chão em busca de sua tigela de “coisinhas sabor peixe”: o sofá respira. O gato retorna ao sofá e se recolhe em uma bola de vida: o sofá agradece e o abraça carinhosamente.

Pessoas entram e saem do dia e da noite cada vez mais “mesmas”. Diluem-se, a cada dia, as diferenças entre sono e vigília. Dormimos tensos e sonhamos acordados. O sol e a lua nos acolhem e riem gostoso.

Nossas camas e nossos automóveis são idênticos, e não por acaso. E nossos animais de estimação nos lançam olhares atônitos; olhares que antes pertenciam somente aos peixinhos dourados, habitantes daqueles navios de plástico que já nascem naufragados.

Dia e noite, idênticos, transformam-se em um único mar cinza, cujo destino é abrigar nossos corpos, nossos escafandros afundados. Gato e sofá transgridem a rotina por mim imposta (a de caçar ratos e descansar pernas) para ganharem vida própria e servirem de espelho da alma que resta. Um espelho sem controle remoto. Sem digitalismos e de infinitos megapixels. Um espelho que mostra o quanto a matéria morta ao meu redor me acolhe e me fabrica, como o sofá fabrica o gato que, espreguiçando, lhe fere o braço com as unhas. De dia ou de noite.

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Uma pequena pausa (e uma grande dúvida)

Obs.: Quando me sentei em frente ao computador, a ideia era discorrer sobre como 200 metros de asfalto sobre um punhado de ruas já calçadas poderiam trazer mais qualidade de vida (?) para o barbosense. Porém minha musa inspiradora me disse que não vale a pena discutir com os homens-carro.

Por isso, fica valendo o texto a seguir, que é mais pertinente e não agride a inteligência do leitor (aquele que tem cabeça e pés ao invés de faróis e rodas).



UMA PEQUENA PAUSA (E UMA GRANDE DÚVIDA)

Os vegetarianos também precisam de carne, dizem...


Entre contos, opiniões e histórias, decidi fazer uma pequena pausa para o que poderíamos chamar de uma breve reflexão sobre o sentido de escrever, mesmo sabendo que isso trará mais dúvidas do que respostas.

Tenho observado que tem sido comum "escritores" como eu transformarem seus espaços paranoico-pseudo-democráticos-cibernéticos (ou blogues) em uma espécie de analista gratuito onde, eventualmente, destilamos nossas angústias e frustrações para a eventual e prazerosa leitura de outros paranoicos cibernéticos - leitores que, por coincidência, compartilham da nossa visão de mundo (ou parte dela), visão esta que não é exagerado chamar de ideologia.

Sendo assim, a pergunta que dirijo a mim mesmo (e a quem sentir-se apto a responder) é a seguinte: Que efeitos a minha escrita (e a sua, e a de qualquer blogueiro) produz em meus (seus) leitores? Não no leitor amigo, mas no estranho? Leitores desconhecidos e conhecidos desafetos?

E, por extensão: Por que escrever?

De que adianta falarmos das boçalidades de um Bolsonaro, dos anacronismos de um Casamento Real, dos crimes internacionais cometidos pelos Estados Unidos (ou não, vá lá, há liberdade para isso também...) se estamos falando para nós mesmos e para nossos pares? Seria essa prática de escrita nada mais do que uma espécie de masturbação coletiva? Até que ponto um pequeno texto como este, perdido nessa vassalagem que é a Internet, tem um poder maior do que o de agrupar formigas ou o de atrair os aplausos dos meus seguidores e as vaias dos detratores?

Por outro lado, poderíamos estar escrevendo sobre orquídeas. Automóveis. Decoração. Escrevendo algo útil, como já me disseram. São dois extremos que, se não se tocam, se observam de longe, pensando um no outro e reconhecendo, com vergonha, algum parentesco.

Entretanto, enquanto me faço essas perguntas, conscientizo-me de minha atitude contraditória (mas que me desobriga a falar de orquídeas) e assumo que minha personalidade se recusa a cruzar os braços e crer na fatalidade das coisas. E, além do mais, (e embora não pretendo salvar o mundo) prefiro acreditar que, de algum modo, esse trabalho de formiga escrevente vale mais a pena do que o de crítico de decoração. Prefiro acreditar que talvez ainda exista algum indeciso por aí esperando só um empurrãozinho do acaso para topar com algum texto interessante que o faça desligar a TV e pegar o controle remoto do seu pensamento, nem que seja por quinze minutos, numa ida qualquer ao banheiro (e nem que seja, ainda, para pensar que é livre para apensar). E se for através de textos melhores, melhor.

Enquanto isso, sigo curtindo a minha liberdade de pensar que estou fazendo a minha parte (ou ao menos parte dela). Continuarão acontecendo bizarrices (locais, regionais ou universais) que me deixarão com vontade de botar o meu lado satírico para trabalhar, porque, afinal, também faço parte desta tragédia. E enquanto os deuses não esclarecem minhas dúvidas, posso permanecer nessa brincadeira de acreditar porque, afinal, o mais legal desse jogo é acreditar que a realidade também é uma ficção. Ficção não somente de autoria da indústria do notícia, indústria da verdade (porque a verdade é, sim, um produto para se vender). Nesse jogo, prefiro crer que nós, escrevedores de blogues incompreendidos, também somos ficcionistas. Ao menos nos esforçamos para tal e, enquanto esse analista cibernético for relativamente acessível, tanto melhor para nosso frágeis egos.

Quanto às respostas, por enquanto me viro com esta (é provisória e me ocorreu agora): Escrevemos porque temos fé. Fé em nossa frágil ficção, porque esta nos constrói.

Agora, se me permitirem, retiro-me para observar a paisagem. Vou apreciar os pneus rolarem silenciosos pela mais nova rua asfaltada da cidade. E os problemas de verdade, que fiquem onde estão: escondidos nas entrelinhas de outros textos.

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Storie e racconti II - Gente que faz

A nossa região é conhecida em todo universo pela absurda aptidão da nossa gente para o trabalho. E também pelo frio. E pelo vinho, em alguns municípios. Quando pensei em gente trabalhadora, frio e vinho, lembrei-me logo de uma história contada, há vários anos, por um então professor do Senai. Ele não é exatamente um "nono", mas é uma figura muito inteligente e simpática. E tem estrada. Só vou dizer que esse cara, na sua juventude, chegou a trabalhar no setor de engenharia da Tramontina, no tempo do epa, quando, para fazer uma simples cópia de um desenho (o que custava uma fortuna), necessitava-se de mão de obra altamente especializada, produtos químicos e equipamentos alienígenas.


EU TRABALHEI NA ENGENHARIA DA TRAMONTINA
(História contada há anos, por um então professor do Senai)

Mas isso foi há muito tempo. Nem vou dizer quando para não ficar feio. Mas digo que, naquele tempo, projetar e colocar no papel um simples desenho de uma lâmina de uma faquinha qualquer, não era brincadeira. Como diz a gurizada de hoje: era foda. O computador só veio alguns anos depois e, mesmo assim, sua aplicação era bem limitada.

Bem, mas vamos aos fatos. Trabalhávamos numa sala, em três pessoas. Lá havia aquelas mesas de desenho enormes, magníficas, cada uma com uma tonelada de equipamentos para o desenhista utilizar, papel, tudo. Era quase que uma sala ultra-secreta. Quase ninguém entrava lá. Para falar a verdade, se você não fosse atento, apanhava para achar o caminho. Lá também havia uma prateleira com diversos recipientes que continham produtos químicos utilizados para, entre outras coisas, copiar os desenhos. Era um processo interessante, qualquer dia eu falo sobre isso...

Aquilo tudo era no tempo da máquina de escrever e do ponto com cartão perfurado, mas, apesar de tudo, aquela época tinha as suas elegâncias. Havia, por exemplo, a sempre necessária garrafa térmica com café. Desde lá até os dias de hoje, o único setor de qualquer empresa que não é movido a café é, sem dúvida, o chão de fábrica. Fora esse, era capaz de ter uma garrafa de café até na salinha de ferramentas do jardineiro.


E, apesar de estarmos falando em tempos do epa, também havia modernidades. Sabe aquela mania de organização que faz o pessoal sair colocando etiqueta por todo o lado? Naquela época já tinha disso. Acima do bebedor havia uma identificação bem visível: BEBEDOR. Nos ramais de telefone de toda a empresa tinha que ter a identificação: TELEFONE. Será que tinham medo que alguém não soubesse o que era um telefone? Seria cômico se não fosse trágico. Parecia que haviam descoberto o alfabeto. CARTÃO PONTO, VASSOURA, LIXO, GAVETA, PRATELEIRA, RELÓGIO... Só faltava identificarem as portas e as janelas...


Na nossa salinha não era diferente. Mas havia um porém: algumas coisas precisavam realmente de identificação. Era o caso dos químicos na prateleira. Cada recipiente estava identificado com a descrição do conteúdo, e os mais perigosos traziam a temerária e universal caveirinha, mostrando tratar-se de algo venenoso. Lembram daquela aula do Seu Madruga na escola do Professor Girafales? “Quando virem esse símbolo, não bebam!”


Naquele momento da empresa, o nosso principal desafio, enquanto engenharia, era conseguir não passar frio no inverno. Nos reunimos, fizemos um brainstorming e descobrimos que a melhor alternativa seria adicionar graspa ao café que consumíamos. A partir de então o problema passou a ser o seguinte: como fazer entrar e permanecer na empresa, na nossa salinha, uma garrafa de graspa, sem que ninguém percebesse? De vez em quando rolava uma espécie de “auditoria”, por isso, simplesmente esconder a garrafa em qualquer lugar era inviável. Alguém fatalmente a encontraria.


A solução foi encontrada por um colega nosso que, numa manhã de domingo, teve uma visão inspirada. Ele pensou em esconder a graspa na prateleira dos químicos, num recipiente idêntico. Na segunda-feira ele providenciou um recipiente novo, a caveirinha e a devida identificação. A partir de então passou a figurar mais um químico na nossa sala. A identificação dizia: CUIDADO – ÁCIDO GRASPÓLICO.


Assim, consumimos em segredo, durante vários invernos, o nosso divino café com graspa.

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Storie e racconti

Storie e raconti são, na verdade, histórias de nonos. Velhinhos anônimos (de fato ou por conveniência) que, nessa série, serão tratadas como mera fonte de causos e assuntos para o infeliz exercício da narrativa escrita. Por isso, desde já assumo que estou, sim, cometendo o pecado de reduzir os relatos dessas preciosas fontes históricas (que seriam os nonos) a tentativas, talvez infrutíferas (porém prazerosas), de literatura. Entretanto, sugiro aos que, por ventura, se incomodarem com tal sacrilégio, que, por hora, denunciem-me ao Bispo. Ele saberá o que fazer. Além do mais, sugiro, ainda, que os descontentes busquem por si mesmos seus nonos e divirtam-se. As colônias e asilos estão abarrotados de velhinhos ansiosos por contar-lhes suas aventuras. E certamente é mais agradável ouvi-las dos próprios nonos do que ler esses meus textos, porque um texto é sempre um texto: é pensado, e, por isso mesmo, falseado. Falseado, talvez, até o extremo de pôr em perigo nossa história, nossa mitologia e nossos heróis. Mas não tão falseado que não deixe restar alguma verdade.

Os nonos nos contam histórias que, infelizmente, desaparecem junto com a neblina das segundas-feiras de manhã. As histórias que sobrevivem e ganham seu trono de papel são, invariavelmente, diferentes destas que irei registrar. Aquelas são padronizadas e mal conseguem ocultar seus objetivos moralizantes e condicionamentos ideológicos. Estas são confusas e obscuras, beirando, às vezes, a obscenidade. Os nonos que as contam deixam transparecer aspectos que o ouvinte desatento desconsideraria ou sequer perceberia: gestos, trejeitos e pontos finais cravados com o roncar de uma bomba de chimarrão. E longos silêncios que, quando interrompidos, não deixam de estampar a frustração nos semblantes de seus narradores. Narradores de silêncios. De causos que não foram recordados ou inventados para serem contados ao netinho ou à plateia em delírio, mas que vieram à tona sem motivo aparente, no fogo do acaso, saídos do fundo de um baú que já não se lembra bem das datas, mas que reconhece claramente os fantasmas desenhados pela fumaça de um palheiro. Histórias do nada, que não deveriam ter sido contadas.

O FIM DE SEMANA, O CHURRASCO E O VINHO 
(Livre adaptação de história contada por D. N. P.)

Antigamente não se fazia churrasco assim, como se faz hoje. Me lembro que tínhamos que meter as carnes em espetos feitos de pau (às vezes de bambu) e enfiá-los no chão, em roda de um fogo feito de lenha num buraco não muito fundo, ou numa churrasqueira improvisada com tijolos empilhados. Tínhamos que escolher as varas de acordo: não podia ser muito seca, nem muito verde. Nem muito grossa, nem muito fina. Depois, era descascar a facão para ela ficar mais ou menos reta e poder receber o pedaço de carne. Eu era bem pequeno, mas lembro do avô fazendo esses espetos de pau.

A carne não era furada na hora, com o espeto; ela já tinha que vir furada. A turma que matava o animal já cortava a carne de acordo e já fazia os furos mais ou menos certos pra poder meter os espetos de pau. Lembro que a carne era boa. Era preciso bem mais tempo para preparar um churrasco, que só saía se fosse sol. Os parentes, volta e meia se reuniam para fazer o churrasco.

A gente não era rica, mas não era pobre. Não precisava de esperar um casamento pra fazer churrasco. Isso é bobagem. O pai sempre tinha, no chiqueiro, um porquinho para cada filho, e a gente engordava. Também tinha os novilhos: se não servia pra canga, servia pra engordar. Teve uma época que a gente também tinha muito peru. Tinha sempre seis ou sete. Era uma barulheira. Tu assobiava e eles respondiam. E eles eram meio brabos. Se fosse hoje, tu tinha que cuidar com os perus, não com os cachorros, porque eles te corriam atrás. E galinha. Galinha sempre teve. Era só correr atrás e puxar o pescoço. Bom, é só olhar: até hoje, tem galinha por tudo.

Mas aconteceu assim: naquele tempo também tinha gente sem vergonha. Cuida: Tinha um vizinho nosso que, quando tinha festa, bebia e bebia que nem um louco. E a mulher dele ficava lá, passando vergonha. Você sabe como é. E ele chegava até a oferecer a dita para os vizinhos, por brincadeira, claro (coisa de tchuco), fazendo preço e contando as “vantagens” da sua mulher. Ela ficava quieta. Na maioria das vezes nem sabia das bobagens que ele falava; porque era que nem hoje: os homens num canto, com suas conversas, e as mulheres noutro canto, com seus assuntos... É como nós, agora.

Só que o problema é que a tal mulher, deste que eu te falei que bebia, era muito formosa. Bonita mesmo. E, apesar de a gente saber que ele oferecia ela para os amigos assim, de brincadeira, a cabeça trabalhava. A gente ria e barganhava o preço, por brincadeira, mas a cabeça movimentava ideias.

Mas escuta o que eu vou te contar (e essa, quem aprontou foi o próprio irmão desse fulano que bebia): Naquele dia, veio vinho e vinho até que o homem não parava mais sentado. O churrasco era na casa desse senhor. O homem dormia na cadeira, tchuco que dava dó. E era apenas de manhã. Bom, acho que tu sabes onde essa história vai acabar, mas deixa eu contar: O irmão deste, que era mais íntimo da casa, pegou o homem e carregou até o quarto, para ele dormir um sono e não incomodar no jogo da escova. Maldito vício da bebida. Ficamos nós na área, jogando escoba, e as mulheres na cozinha, com suas coisas, e a piazada brincando com os cachorros no riachinho que passava detrás da casa. No fim já era hora de começar o churrasco. Eu fui pros lados da casa ajudar com o fogo. Naquela época eu já tinha uns trinta e poucos anos, tinha filhos e tudo.

De repente, vem um piá, mandado da mãe pra chamar o pai, que era pro pai correr pra casa ligeiro que as vacas tinham rebentado a cerca de novo e escaparam pra estrada. Tocamos o guri pra cozinha, porque achávamos que o pai dele estava lá, salgando a carne. Mas o piá voltou, porque o pai não estava lá; e junto veio as reclamações das mulheres para saber onde se metera a Josefa, que elas precisavam de saber onde que ela guardava os ovos pra maionese e não sei o quê...

Se entreolhamos e eu dei um grito: Pedro, toca pra casa que a tua alemoa mandou o guri te chamar, que as vacas estão na estrada. Gritamos assim, porque é mais fácil do que sair pra lá e pra cá procurando, porque a casa era bem grande, tinha a estrebaria, o porão, a parreira, as fruteiras, como saber? E eu estava com o sete-belo na mão, não queria parar o jogo, e se aquelas vacas fossem longe teríamos todos que ajudar.

Mas o homem estava perto, num quartinho de visitas com a janela que dava bem do lado de onde estávamos jogando, na área. Ele, o pai, ouviu e gritou de volta: “guri, diz pra mãe que eu tô espetando a carne e que depois eu vou lá!” [risos]

Foi dias depois que fiquei sabendo, porque ele mesmo me contou, que naquela hora ele estava naquele quarto com a mulher do próprio irmão, que estava dormindo bêbado no quarto do lado. Isso é coisa que acontecia e que, de repente, muita gente sabia mas não falava nada. E era questão de minutos: enquanto a gordura pingava nas brasas ou enquanto se jogava uma rodada de escova: era o tempo que precisava pra se fazer uma dessas. Mas, como saber? De repente, se não fossem essas coisas, não se fazia festa! Como saber?

Se eu contei pra alguém? Um que outro. É como meu nono me dizia: A carne é boa, mas se o churrasqueiro não sabe salgar e espetar, ele vai deixar pra quem sabe. Daí não é o caso de espalhar pra todo mundo. É pra ir lá e ajudar.