É três vezes santo
O senhor do universo
Que mija esses versos?
sexta-feira, 28 de outubro de 2016
domingo, 4 de setembro de 2016
Ponto de virada
Ponto
de virada pode ser qualquer coisa que marque uma mudança importante
no rumo da vida ou na maneira como a vemos (ou as duas coisas
juntas). Geometricamente falando, o ponto de virada (ou guinada)
sugere que a mudança de direção ou do olhar se dê em qualquer
ângulo, de uma simples correção de trajetória a um “meia volta,
volver” seco e inesperado.
De
certo modo, o início deste blog em 2009 se deu sob uma espécie de
ponto de virada. Auge da faculdade de Letras, descoberta de autores e
ideias inimaginavelmente insanos (lê-se fodas) para mim à época e,
mais, de colegas e amigos, pessoas, gentes de carne e osso e cérebro,
e de almas assustadoramente livres com as quais eu jamais havia
topado nesse meio-de-mato bairrista e maniqueísta que, em linhas
gerais, era (e É, salvo exceções) a Barbos Carcosa dos anos 2000.
A
maioria dos textos (os de opinião, ao menos) seguiam um ritmo
frenético, violento, de ironias e sarcasmos feitos propositalmente
para ferir (por que não?) alguns baluartes do conservadorismo e
deleitar meus ¾ de dúzia de fiéis leitores de então. Houve quem
visse humor naqueles textos, mas provavelmente era só um tipo
diferente de desespero.
Mas,
buenas, tanto faz... Isso foi lá por 2009. Depois o ritmo acalmou,
os assuntos não me tocavam mais e a ascensão do YouTube acabou por
esvaziar de vez o pouco de gente que havia produzindo conteúdo no
blogger e no wordpress. Sobraram somente os perfis mais
profissionais e todo o resto caiu no mais insólito abandono da noite
para o dia. Hoje resta somente um ou outro maluco que ainda alimenta
seus blogs, escondidos lá nas profundezas da web, onde há tempos o
Google perdeu o interesse em buscar o que quer que haja lá embaixo.
Perdemos para a bolha da Internet. Você nunca mais vai encontrar
algo interessante por acaso.
A
“blogosfera” virou o reduto dos introvertidos (e egocêntricos
também, vá lá) enquanto extrovertidos (e também egocêntricos, vá
lá 2) pavoneiam-se no YouTube. E há gênios e idiotas nos dois
times, acredite. O leitor que decida onde me encaixar.
Mas
ainda não chegamos no ponto de virada.
O
ponto é a resposta para a seguinte pergunta: por que diabos você
vai voltar a falar sozinho nesse blog depois de mais de três anos de
abandono? E a resposta é: eu não faço ideia. Ou, para ser mais
bonito, podemos citar Renato Russo: “Alguma coisa aconteceu, do
ventre nasce um novo coraçãããooooooo... Não penso em me
vingar... blá, blá, blá...” (vocês gostam de citações, né?).
Talvez
tenha a ver com a Casa dos espíritos, de Isabel Allende, que eu li
há alguns meses. Talvez a ideia de escrever para leitores-fantasmas
(como Clara fazia em seus “cadernos de anotar a vida”) tenha
ficado no meu inconsciente, e vindo à tona com essa questão toda do
golpe pelo qual estamos passando. Porque, sim, tenho quase certeza
que ninguém vai acompanhar esse blog, exceto fantasmas.
A
vantagem de escrever, (e, sobretudo, escrever para
fantasmas) em vez de se expressar pelo YouTube, é que você pode
desnudar sua alma com muito mais tranquilidade. Veja bem: até aqui
foram 2987 caracteres distribuídos em 518 palavras, e posso afirmar
com certa segurança que é possível confiar minimamente
em quem dedicou seu tempo para
ler tudo isso. E quem escreve por amor simplesmente confia
em quem lê quase 3000 caracteres numa madrugada de sábado,
sobretudo nesses líquidos anos 10 do profeta Bauman, de apelos
visuais extremos e glórias instantâneas. Em outras palavras: vá
desnudar sua alma no YouTube, depois me conte como foi.
Talvez
essa seja a graça da coisa: se você ler 50% do que um autor
qualquer escreve, você provavelmente o conhece melhor do que sua
própria mãe! Se você ler 100% do que ele escreve, vai conhecê-lo
melhor do que ele mesmo! Agora perceba: as coisas ficam terrivelmente
mais interessantes quando seus leitores são fantasmas!
Então,
para meus queridos gasparzinhos, as coisas vão funcionar assim:
voltaremos a alimentar o blog. Entretanto, deste ponto em diante,
ficarão de fora os textos de opinião. Volta e meia teremos alguma
resenha de livro, filme ou o diabo, além de groselhas e tranqueiras,
e os versos, reversos e remorsos que meus demônios julgarem
importante deixar registrado em algum lugar mais nobre do que portas
de banheiros.
Do
lado de cá da web vamos tentar fazer melhor, porque desse ponto em
diante É SÓ LADEIRA ABAIXO, amigos! E se você, querido
leitor-fantasma, me encontrar na rua e tiver lido ao menos 50% do que
eu deixei aqui, por favor, me conte quem eu sou!
sábado, 4 de julho de 2015
domingo, 9 de junho de 2013
Mega-Sena, sonhos de consumo e lembranças de infância
“Há vinte anos atrás, meu sonho era ter trinta anos. Mas que merda de
sonho era aquele?!” Declaração
de um maluco de estrada
Eu estava almoçando
alegremente quando, da mesa ao lado, ouvi uma voz dizendo à outra,
com notas sensuais: “olha lá fora, meu sonho de consumo”.
Mesmo sabendo que a
conversa não era comigo, não resisti e, discretamente, olhei pela
janela: um veloster.
Olhei
de novo à procura de uma “porscheta”, uma “ferrarinha” ou
uma “lamborgheta”, mas não. O sonho de consumo do meliante era
mesmo aquele carrinho que, visto de trás, por algum motivo me lembra
um grostoli, e que, apesar de estar fora da minha realidade
econômica, nem de longe mereceria o rótulo de “sonho de
consumo”. Mas, enfim, cada um com seus “cada uma!”...
Só
que os olhos daquele jovem de terninho brilhavam olhando o veloster
desfilar lentamente. Foi então que me toquei que nem pra
ser ambiciosas as pessoas se esforçam. Vendem a alma ao diabo em
horas-extras intermináveis, e não querem mais do que um veloster.
Tudo bem desejar um carrinho que custa o absurdo de oitenta mil
dinheiros, mas chamar isso de sonho de consumo é exagero. Deve ser
coisa de auto estima baixa.
Na
verdade eu sempre desconfiei de pessoas que querem saber qual o sonho
de consumo dos outros, porque elas não entendem que há pessoas que
não têm isso! Aliás, o que ando tendo ultimamente (ou desde os 17
anos) não são sonhos de consumo, mas algo mais para sonhos de
desconsumo.
Sabe
o que seria legal? Ganhar vários milhões na Mega-Sena e separar uns
100 mil em notas de cinquenta, jogar na churrasqueira, tascar fogo e
assar um salsichão. E daqueles bem bagaceiros. Seria “da hora”,
como dizem. É claro que eu não
queimaria tudo, e que gastaria o resto, mas, em última instância,
gastar emocionalmente o dinheiro ganho na Mega-Sena para compensar
alguns anos de frustração financeira, dar para caridade, ou
queimá-lo na churrasqueira para assar um salsichão são coisas
muito parecidas – as três alternativas podem proporcionar um indescritível prazer
ao infeliz milionário,
e é a isso que viemos, acredite você ou não.
Teoria do terapeuta do Caos:
Felicidade é poder fumar seu tabaco bagaceiro em uma nota de cem
dólares (ou comer polenta brustolada no Festiqueijo)
Por falar nisso, vocês viram que o Festiqueijo 2013 vai custar mais
de oitenta pilas? Tá de graça, essa bagaça, né? Nem vou falar
nada, já disse tudo sobre isso aqui e aqui (é só mudar o ano, que
o resto é a mesma coisa). Mas sabem o que também saria legal? Fazer
um festival paralelo ao Festiqueijo (e clandestino, obviamente) no
melhor estilo desconsumista. Os organizadores percorreriam as
colônias em busca daqueles queijos que o pessoal do interior faz e
vende na informalidade (esse, aliás, é o VERDADEIRO sabor da serra,
se querem saber), a procura também das melhores cachaças produzidas
nos porões mais obscuros da zona mais rural, das melhores bolas de
pinhão e de uns porquinhos pra fazer os salames. O festival seria
animado pelos melhores véios gaiteiros da região (que quase
ninguém conhece obviamente) além de atrações alternativas
(alternativas de verdade) como as bandas mais underground da
serra (que também quase ninguém conhece), enquanto que, do outro
lado do salão, ficaria um pessoal responsável por assar os pinhões
na chapa e matar os porcos para fazer o salame na hora, ali
mesmo, daquele jeito que os colonos sempre fizeram e que constitui a
VERDADEIRA cultura da nossa terra. A gente só trairia nossa cultura
na questão do preço do ingresso, mantendo um padrão de lucro
zero-prejuízo mínimo, já que tudo seria doado pelas pessoas
interessadas em fazer uma festa de verdade.
-><-
Este texto inócuo não foi escrito de uma só vez (ninguém tem tempo pra isso). Antes de
terminar essa coisa, num outro dia enquanto eu, novamente, almoçava
alegremente, voltei a ouvir as vozes (que agora já não sei se vinham
da outra mesa ou da minha cabeça) que comentavam sobre a ansiedade
de participar do nosso Festiqueijo, que “ia ser muito legal”,
etc. Uns gostavam do evento, outros nem tanto. Novamente olhei pela
janela do restaurante, como fiz da outra vez (procurando o “sonho
de consumo” daquele desconhecido) e pude avistar a entrada do Salão
Paroquial (o local onde tradicionalmente ocorre o Festiqueijo). Não
pude deixar de lembrar das primeiras edições do evento, quando
íamos com a família naquela festa bonita. Lembrei da primeira vez
que ganhei “permissão” de ir ao Festiqueijo sozinho - sob as
recomendações do pai de “só tomar guaraná” e dos avisos da
mãe de “se encontrar a dinda avisa que os crochês estão
prontos”. E nós, os garotos dos anos 80, entrávamos, bebíamos o
guaraná, entregávamos o recado à dinda... Mas, acima de tudo,
encontrávamos amores e amigos que hoje não existem mais, numa festa
que não existe mais.
E tive a impressão de que, apesar de tudo, os desconhecidos da mesa
ao lado eram animados pelo mesmo espírito que animara uma criança
qualquer há 20 anos atrás. A perspectiva de uma simples festa lhes trazia uma alegria ingênua, mas genuína. Se assim fosse, a festa não seria de todo
ruim, afinal, as pessoas estavam se permitindo ter sentimentos que
hoje estão à beira da proibição, estavam dispostas a se
entregar às mãos da inocência e dos instintos puros por algumas
horas, a reencontrar amores e amigos de vinte anos atrás com o
sorriso de uma criança que esquece o erro do amiguinho e desconhece
os podres da vida. Naquele instante eu pensei que ia fazer as pazes
com muita coisa do presente e do passado. Eu ia fazer as pazes...
...só que o veloster passou outra vez, lentamente. E todos
voltaram a falar de sonhos de consumo e de como ainda tinham muito trabalho pela frente.
Terminei o copo de suco,
passei o guardanapo nos lábios e saí sem comer a sobremesa.
sexta-feira, 19 de abril de 2013
A música da vida (uma quase autoajuda), com final desconexo e possível continuação...
Um amigo chamado
Jonatan, autor do blogue Carona com Caronte, músico, filósofo e
também iniciado nas artes discordianas, escreveu, recentemente, um
bonito texto utilizando a metáfora da vida como uma grande peça
musical, a qual somos convidados (ou convocados) a tocar, tendo que
adaptar nossas melodias às progressões de acordes que a música da
vida nos impõe.
O texto do amigo
Jonatan, ao primeiro olhar, pode apresentar ares de autoajuda. Mas
não se engane. Ele não é isso. Tanto que me levou a refletir
sobre aquela metáfora, de modo que senti, de repente, uma vontade
louca (ui!) de reinventar o texto (para não dizer plagiar),
apresentando, no entanto, pequenas mudanças em relação ao ponto de
vista.
Sem dúvida é bonito
pensar a vida como uma música, e pensar que nós podemos ser
co-autores dela. Ao longo da leitura, fiquei pensando sobre que
música seria a minha vida. Qual estilo? Que ritmo? A que tipos de
acordes devo adaptar minha melodia?
A essa altura das
reflexões eu já havia imaginado que a metáfora apresentada é
controversa. Se eu sou convidado, através da minha existência, a
tocar uma melodia sobre uma base harmônica pré-determinada,
pergunto: quem é o regente da peça? Quem toca a progressão de
acordes? A vida? Dentro dessa metáfora, quem é o maestro? Um ser
exterior a ela (como o compositor é exterior à música)? Note que
eu ainda não respondi à pergunta “que tipo de música é a minha
vida?”
Como bom materialista
que sou, inferi, desde logo, que não há autor nessa música. O
texto do Carona com Caronte também parece apontar nessa direção.
Se não há compositor, a execução é livre. Então é um improviso? Além disso, se há acordes acompanhando minha melodia, devo
supor que eles são tocados pelos outros músicos da vida ao meu
redor. Então saímos do âmbito pessoal (minha vida, minha música)
para o coletivo (minha vida, nossa música). Vamos ver.
Você
já tocou numa orquestra ou numa banda? Mesmo que a resposta seja
não, é fácil imaginar como seria. Assista a uma apresentação de
alguma orquestra, e eleja um instrumento para representar você.
Vamos supor que você seja um das flautas, lá num cantinho. É fácil
perceber que, sentado lá, naquela cadeira, é possível ouvir alguns
instrumentos que soam com mais intensidade (como as outras flautas
próximas aos seus ouvidos, ou a retumbante percussão lá atrás),
outros com menos intensidade (como aquele violino lá longe), alguns
estão momentaneamente calados (como os trompetes, por exemplo), um
outro desafinado lá do outro lado, e assim vai... Também não é
difícil notar que diferentes instrumentos estão tocando notas
diferentes, em tempos diferentes, montando, desse modo, uma base
harmônica e rítmica para uma melodia principal (ou não, dependendo
da música), ou qualquer coisa que seja bela e agradável aos ouvidos
da plateia. Elevando a teoria musical à escala planetária e
forçando a metáfora a seus extremos interpretativos, podemos dizer
que o mundo é uma orquestra com mais de sete bilhões de músicos.
Não há maestro manuseando a batuta (a não ser aquele que dá
início e fim às vidas específicas, a morte). Não há composição
escrita na pauta. E não há consenso sobre como essa música vai ser
interpretada, exceto, talvez, algumas “combinações” aqui e
acolá.
A
vida é um free jazz de Ornette Coleman interpretada por mais de 7
bilhões de músicos surdos
Já
pensou? E agora, como fica ouvir a linha melódica daquela flauta que
está lá do outro lado do mundo (ou do outro lado da rua) se a
polícia te deixa surdo com seus trombones e tubas? Se a melodia da
gaita de boca do bêbado incomoda? Se os clarins dourados dos
sacerdotes não param? Se o rufar de tambores da manada de caminhões
não cessa? A quem devo ouvir? Que diabos, afinal, eu devo tocar?
A
diferença, é claro, é que somos uma banda com relativa mobilidade.
Você pode sair da sua cadeira e tocar a nota mais aguda da sua
flauta no ouvido do trombonista. Há uma relativa liberdade, embora
ela esteja sempre atrelada a certos pa$$aportes e a eventuais
consequências. Você já ouviu um free jazz?
Por
isso temo que não existam “momentos de tranquilidade” e
“momentos de incerteza” como propõe os acordes dominantes e
subdominantes de uma música (eles aparecem de forma caótica, quando
a massa de instrumentos ao seu redor entende que deve tocar assim,
mas não de modo pré-determinado ou fatalista). Bancando o escritor
de autoajuda, não é exagero afirmar que você pode se afastar das
tubas e se aproximar dos violinos, se achar que pode construir com
eles uma harmonia mais bela. Porém, não há certeza de nada
(talvez, depois de flertar com os violinos, você venha a sentir
falta da fanfarra dos trombones...) A única certeza é que nossos
compassos estão numerados e contados. E não é possível ver
claramente onde termina.
O
nome deste blogue não é Terapia do Caos por acaso
No
fim das contas, obviamente, é melhor essa cacofonia delirante do que
o silêncio absoluto. Ou não. Não sei. O silêncio terá seus
lugares, seus compassos marcados com pausa. Ainda há (embora raros)
espaços (geográficos e psicológicos) onde podemos praticar o
silêncio. Você pode praticá-lo coerentemente no meio do solo da
soprano, ou retirar-se momentaneamente para locais mais sossegados.
Da mesma forma, você pode rugir os acordes de sua guitarra em
ensurdecedores ritornellos,
no mesmo instante em que outro instrumentista da vida chega ao seu
fine. Ao
mesmo tempo que você executa essa peça de improviso, você pode ser
um maestro, dando ordem de da
capo, jogando ao mundo uma nova pauta em branco a ser preenchida por um novo alguém
que, como você, também se sentirá perdido, a menos que opte por
enganar a si mesmo com mentiras ou coisas do outro mundo, obtendo,
assim, uma pequena e insossa melodia que só ele ouve (porque é surdo para o mundo), e que considerará
perfeita por algum tempo (no máximo até o momento do fine,
no
entanto). Mas lembre-se que, nessa admirável composição cósmica,
não há espectador no recinto (além de nós mesmos). Nem maestro.
Portanto, nada deverá ser tachado de perfeito nem de repulsivo se
seus ouvidos não puderem ouvir as notas tocadas pelos integrantes da
orquestra inteira.
A
flauta só é flauta quando alguém a toca
Antes
e depois disso ela não passa de um cano de metal bonito e sem
sentido. É por isso que todo mundo quer ser o regente da humanidade.
De Odin, passando por Amón-Rá, Zeus, Alá e Jesus Cristo, até
Barack Obamma ou Hebe Camargo, todos quiseram, querem ou gostariam de
ser o regente dessa orquestra e tocar a música que eles considerariam mais
apropriada. O mais recente dos deuses já inventados ou manifestados
através da cultura humana (o atual “Deus”) é um dos mais fortes
candidatos a maestro do mundo, e já conseguiu microfones e potentes
amplificadores para fazer sua música soar mais alto que as outras,
tentando assim angariar mais instrumentistas à sua causa. Ele não quer
que toquemos somente hinos de louvor em seu nome. Ele quer tirar de
nós a liberdade de fazer a própria música, do jeito que quisermos
e com as pessoas que quisermos. Quer dar moedas a seus músicos
mercenários em troca de uma monotonia submissa e sem sentido que
destrói a riqueza e a complexidade dos acordes dissonantes. Enfim,
ele quer ser o único espectador desse espetáculo, e quer uma música
só para ele. Só que não (hehehehe).
La
bella polenta
Essa
é a canção que tocamos na nossa região (serra gaúcha, pra quem
desconhece). Sempre tem algum desafinado no meio, uma ou outra pessoa
tocando outra coisa, mas, grosso modo, o que se ouve é um hino de
louvor ao trabalho e à conquista de bens materiais. Nossa tônica
(talvez até mais do que no “resto do mundo”) é o “trabalho”.
Seu refrão é “quem mais pega, mais possui”. Quando as crianças
nascem, desde logo lhes são ensinadas as notas a serem tocadas para
perpetuar essa canção. Se você vier de fora, de outro lugar, com
outra canção diferente... danou-se. Marginaliza-se muito por aqui,
por conta de uma certa surdez congênita que impede-nos de ouvir
outros arranjos, outras harmonias. Se quiser se dar bem por essas
bandas, aprenda La
bella polenta.
Sobre
a liberdade (o funk também fala da amor)
Agora,
se quiser ser “livre” (entre aspas mesmo) e arcar com as
consequências, aprenda a ouvir a todos e adaptar sua melodia.
Aprenda outros estilos, outras sonoridades. Aprenda a interagir como
um ser que cria,
não como um robô. A graça do free jazz talvez seja a criação
coletiva. Mas não é só criar em grupo, é criar na hora, no
improviso, sobretudo ouvindo
o que seus companheiros estão tocando. Além disso, também chama a
atenção a liberdade, talvez excessiva (não acredito que usei as
palavras liberdade
e
excessiva
na mesma frase!) com que esses músicos trabalham. O sábio Tom Zé
já disse, certa vez, que a própria escala diatônica (o famoso dó,
ré, mi, fá, sol, lá, si) é uma prisão musical, um limite imposto
que exclui todas as frequências sonoras existentes de um dó até
outro, elegendo apenas 12 notas como um cristo que elege 12
apóstolos! Radical? É que existe mais coisas entre o funk e o
erudito do que sonha nossa vã filosofia.
(CONTINUA
NO PRÓXIMO CAPÍTULO... TALVEZ...)
sexta-feira, 12 de abril de 2013
O alvorecer de uma nova religião
O cristianismo-feliz,
ou cristofelicianismo, é uma religião da Nova Era, derivada do
antigo e ultrapassado cristianismo, e caracterizada por sua interpretação literal
do texto bíblico, com ênfase nos aspectos homofóbicos,
xenofóbicos, sexistas e racistas que eventualmente aparecem nesse
livro.
O Culto
As principais
características do seu culto são templos lotados com multidões em
incontrolável transe autoinduzido, expulsões (no grito) de todos os
demônios, diabos, pragas, exus, entidades, “caboclos”, santos e
quaisquer outras divindades não pertencentes ao panteão
cristão-feliciano, e a prospecção in loco
de eventuais financiadores para a obra de Deus (divindade que
tentaremos descrever mais adiante). Para as pregações no
púlpito é necessário árduo treinamento do pregador, que deverá
adquirir uma voz possante e ensurdecedora, com a qual exortará a
plateia a abrir suas carteiras e entregar parte de suas economias. A
voz possante do pregador também se faz necessária nos momentos de
alegria e êxtase, quando é anunciada a morte de algum inimigo de
Deus pelas suas próprias mãos, e quando são recordadas as
verdades-felicianas.
O deus da religião
cristã-feliciana
O deus da religião
cristã-feliciana possui características deveras peculiares,
todavia, fomos persuadidos a não descrevê-las nesse blogue, por
medo de que algum mal entendido provocasse uma represália de seus seguidores mais ortodoxos,
ou até do seu próprio deus, que costuma ser cruel e impiedoso. Mas, em resumo, é aquele deus vingativo do Antigo Testamento, mas que, de vez em quando, fica inexplicavelmente compassivo e bondoso.
A origem do nome
O nome cristofelicianismo deriva da antiga expressão “Cristo é
feliz!”, supostamente bradada pelos primeiros fiéis como resposta
à exortação de cada uma das sete verdades-felicianas.
Cristão-feliciano (ou, às vezes, cristão-feliz) é como costuma-se
chamar o seguidor do cristofelicianismo.
As sete verdades da
religião cristã-feliciana
1- Deus amaldiçoou o
povo africano
2- Deus criou a mulher
para servir ao homem
3- Deus abomina os
homossexuais
4- Deus matou John
Lennon
5- Deus matou os
Mamonas Assassinas
6- Deus afundou o
Titanic
7- Deus é amor
O Cristofelicianismo
veio a público depois que seu maior representante conseguiu o cargo
de presidente da CDHM - Comissão de Direitos Humanos e Minorias. O
movimento tomou notoriedade depois que alguns humanos pertencentes a
grupos minoritários entenderam que a entrega da presidência da CDHM
a um cristão-feliz representaria uma ameaça a futuros avanços na
área. Entretanto, a eleição da presidência deu-se sem nenhuma
ilegalidade (apesar do contrassenso), o que evidencia a forte
influência da nova religião, não só no meio político, mas em
todas as esferas da sociedade.
[PAUSA PARA O CAFÉ...]
...
[PAUSA PARA O CAFÉ...]
...
Agora falando
sério
Não se trata de
denegrir religião ou religiosidade alguma, mas de observar os
limites. Não os limites impostos ou não por leis ou pela
Constituição (na qual alguns bolsonaros da vida buscam
equivocadamente um delirante “direito ao preconceito”), mas os
limites do bom senso. “Africanos estão fodidos porque não
aceitaram a Deus.”, “A Aids é culpa dos homossexuais”, etc. Em
pleno século XXI há pessoas que se satisfazem com essas respostas
tão inocentes e simplistas para problemas nada inocentes e nada
simples! É claro que é um direito de qualquer um aceitar ou não qualquer explicação para qualquer coisa, mas não é direito de ninguém usar (ou abusar) de seu justo direito à fé para incitar ódio e violência a pessoas ou grupos de pessoas. Veja isso: em pleno século XXI (ou talvez, quem sabe, por
causa do sec. XXI) há pessoas
que sentem prazer em imaginar que um assassinato poderia ser
justificado por uma causa divina.
Fico
imaginando quanto tempo falta para as pessoas se sentirem à vontade
para sair à rua dando tiros em mim ou em você, não por causa de um
tênis ou cinco reais - mas em nome de uma divindade.
Observe
a fala do pastor (fazendo de conta que fala com o cadáver): “esse
foi em nome do Pai, esse em nome do Filho e, esse, em nome do
Espírito Santo”. Percebeu o prazer no seu rosto e na sua fala
enquanto ele se imaginava na presença de uma pessoa alvejada por
três tiros? Percebeu o gozo da plateia? Se isso não é incitação
ao ódio e à violência, então podem me internar. Por isso, sem
rodeios: se essa aí é a “trindade” (ou como quer que a chamem)
eu quero mais é que o cu dela pegue fogo! (o cu DELA, não o meu,
nem o seu, nem o de ninguém) E que ela, se quiser me dar três tiros, não seja
covarde em mandar um mensageiro, mas que o faça
pessoalmente!
Divirta-se (ou não) com mais pérolas do cristofelicianismo
terça-feira, 19 de março de 2013
Os dedos de Francisco, fraudes no ponto eletrônico e uma alternativa eficaz (entre outras mazelas)
Quem pensava que
pilantragem era exclusividade da classe política enganou-se (que novidade...).
Óbvio que qualquer categoria tem seus mocinhos e seus bandidos. Os
médicos que usavam dedos de silicone para fraudar o ponto eletrônico
são um bom exemplo disso. E não são só eles. O coordenador do
Samu, acusado de organizar o esquema, tenta tirar o cu da reta, mas
os dedos apontam para ele.
Isso sempre me faz
pensar sobre a fragilidade do sistema e as tentativas que se faz para
torná-lo perfeito – mas ele nunca o será. Mesmo que se implante
um chip no cu das pessoas, sempre haverá um jeitinho, alguém sempre
estará disposto a driblar as normas e alguns vão conseguir. Se
formos escavar esses casos até o fundo, a conclusão será sempre a
mesma: lucro. Por que ficar sentado no plantão se eu posso estar lá
e no meu consultório ao mesmo tempo? Mas ninguém vai assumir que o
objetivo era esse. Coordenador vai dizer que não sabia de nada, a
médica que “passava os dedos” dirá que foi ordem do coordenador
e os médicos poderão alegar que foram vítimas de um
boa-noite-Cinderela e tiveram seus dedos clonados por marcianos numa
noite de sábado. Desafiando a física, esses médicos estavam em
dois lugares ao mesmo tempo, recebendo, obviamente, dois ordenados.
Desafiando o bom senso, muitos dos que se mostram indignados com o
caso fazem igual ou pior. É que o que os dedos não apontam o
coração não sente.
-><-
Dedos são coisas que
possuem uma simbologia muito profunda. Eles são muitos, e são
relativamente longos. Além disso (e por isso) é possível enfiá-los
nos lugares mais improváveis, em expedições exploratórias de
tirar o fôlego. Dedos são partes do corpo tão importantes que é
neles que colocamos alianças de compromisso e é neles que o Papa
coloca um dos maiores símbolos do poder da Igreja, o Anel do
Pescador.
Mas desta vez o anel
não será de ouro maciço. O Vaticano já anunciou que o anel será
feito de prata receberá uma cobertura de ouro. Parece que o ouro
representa o divino e a prata o humano, ou coisa assim. Mas o que
deixou muita gente entusiasmada é a possibilidade de a Igreja dar
uma guinada histórica e colocar-se numa posição um pouco mais
condizente com a realidade do século XXI. Também apontam para essa
possibilidade o nome do Papa
(que remete a São Francisco de Assis), as frequentes quebras de
protocolo (que fazem o Papa parecer mais humano e menos divino), sua
ligação com a América Latina e com os jesuítas entre outras
coisas. Enfim, até o fato de Sua Santidade ter recebido a multidão
de braços abertos ou fechados é motivo para os “especialistas”
tirarem conclusões esperançosas. Mas, parafraseando São Lula (o
santo dos nove dedos), o Vaticano também é um navio enorme (e muito
antigo), e qualquer manobra muito brusca pode naufragá-lo. É bem
por aí.
-><-
(Um
pouco de cultura (quase) inútil
Il
Camerlengo é o responsável pelas finanças do Vaticano, dentre
outras coisas. Ele conhece o subsolo da Santa Sé melhor que o
próprio Papa, e é o responsável pela retirada do Anel do Pescador
do dedo do papa morto (ou que renunciou) e destruí-lo (o anel) para
que ninguém seja papa antes do conclave. Ele é uma figura mais ou
menos como o mordomo dos livros de suspense. Se registrarem o ponto
com dedos de silicone lá no Vaticano, desconfie do camerlengo. Se
assassinarem o Papa, então...)
-><-
Os
dedos – seus usos e desusos na infância
Quando
éramos crianças e apontávamos os dedos para as estrelas,
ganhávamos verrugas. Talvez essa crença tenha origem na necessidade
de amputarmos de nossas crianças a curiosidade. Desconfio que se
elas permanecessem muito tempo observando o céu noturno,
invariavelmente sua curiosidade seria aguçada e seu senso crítico
daria os primeiros e preciosos passos. Se permitíssemos que elas
crescessem perguntado sobre as estrelas (aqueles pontos inúteis no
céu) logo elas estariam questionando nossas tradições, atentando
contra a moral e os bons costumes e fazendo piadas com o Papa como se
ele fosse um qualquer. Portanto, crianças, se forem observar as
estrelas, aproveitem a tecnologia do século XXI e providenciem uns
dedos de silicone para contá-las de forma mais segura.
-><-
Moral da história (mas ainda não estamos no fim)
A
moral da história é que esse lance dos dedos de silicone é uma
bela cutucada no cu do sistema. Claro que é imoral, antiético, blá,
blá, blá e etc. (ninguém precisa escrever isso em nenhum lugar
para as pessoas se darem conta disso). Mas, por outro lado, essa
situação reflete um aspecto importante de nossa sociedade: não
adianta tentar obrigar
as pessoas a fazer a coisa certa (ou o que quer que seja considerado
certo) porque o “certo”, queiramos ou não, ainda é o lucro a
qualquer custo. E enquanto esse conceito permear nossa sociedade
(eternamente, talvez) não haverá tecnologia que impeça fraudes. E,
como o sol nasce para todos, todos nós estamos sujeitos à tentação de se bronzear um pouco mais. Como alguém disse uma vez: onde existe uma situação
em que é possível sair lucrando, alguém vai descobri-la e vai
lucrar. Não importa se é aqui, em Brasília, na Etiópia ou no
Vaticano.
-><-
Aproveitando
a deixa para dar uma surra de rastelo nas promessas da tecnologia
Você
lembra quando implantaram, na empresa onde você trabalha, o sistema
de ponto eletrônico por impressão digital, com a desculpa de que
assim seria impossível um colega registrar o ponto do outro? Pois é.
E a tecnologia falhou novamente. #CHUPASISTEMA
-><-
Uma
alternativa eficaz
Contrariando
o que eu escrevi anteriormente, creio que talvez exista uma forma de
evitar fraudes nos pontos eletrônicos (pelo menos por homens). A
solução seria passar o pênis ao invés do dedo. Quando ouvi a
notícia sobre os dedos de silicone fiquei imaginando como seria o
processo de “clonar” os dedos. Provavelmente foi aplicada uma
forma de gesso (ou algo assim, note que sou leigo no assunto) e a
partir do molde foi fabricada uma cópia em silicone. Agora imagine
como seria o processo de copiar um pênis. E mais: imagine como seria
andar por aí com meia dúzia de pênis nos bolsos. E mais ainda:
imagine como seria pegar cada um deles e passar no ponto eletrônico,
sabendo que eles são idênticos aos pênis dos seus colegas de trabalho.
Certamente tais situações vexatórias inibiriam boa parte das
fraudes em pontos eletrônicos. Fica a dica.
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