quinta-feira, 8 de julho de 2010

Momento quase literário...

Tanto faz as foto-fatos nos jornais,
revistas, reality sows, fazendas e
Cabanas da vida...
No Mundo, um Crepúsculo são gritos histéricos
num cinema adolescente...
No Mundo, um Guerreiro da Luz liga um projetor...
E As Violetas continuam na Janela 
- Sentinelas

sexta-feira, 21 de maio de 2010

Desafios da Igreja para o novo milênio

Se você ainda não ouviu as pérolas do arcebispo de Porto Alegre, Dom Dadeus Grings, veja aqui. Há também vídeos no YouTube, mas dá muita raiva. Talvez ler seja melhor do que ver. O estômago do leitor irá decidir.

Indo direto ao ponto: como pode Dom Dadeus, uma pessoa "culta" e "letrada", fazer afirmações tão absurdas? Ele diz que a "liberalização" da sexualidade gera desvios de comportamento, mas esquece de especificar quais são esses desvios. Parece que ele se refere à pedofilia (que ele mistura com homossexualismo, revelando a sua ignorância sobre o assunto); mas, para nós, que observamos a Igreja pelo lado de fora, parece que "desvios de comportamento" refere-se aos comportamentos que a Igreja impôs (e impõe) ao longo dos séculos, e não dos comportamentos naturais do ser humano. Na verdade, um dos papéis mais recentes da Igreja foi o da institucionalização do sexo. Ela quer institucionalizar as relações e a reprodução. É isso que nos ensinam na escola, na catequese e em casa (pelos pais, através de uma ferramenta cristã que se chama "poder familiar"). Para fazer sexo (e consequentemente, filhos), é preciso casar-se. Passar pelo crivo da Igreja. Estar inscrito em seus livros de registros. Depois de tudo isso, é permitido o casamento, o sexo, a procriação, etc. (preferencialmente nessa ordem).

Podemos imaginar que isso não acontece, que tudo é muito "liberal", que a juventude faz o que bem entende e ninguém ouve a Igreja. Entretanto, a forma como os jovens vivenciam a sexualidade é uma reação, em parte, ao poder do discurso da Igreja. Desde a mais tenra idade é inculcado nas crianças, de uma forma ou outra, as ideias distorcidas da Igreja sobre a sexualidade humana. A ideia de um deus invisível, que vigia e pune (ou recompensa) por cada ato praticado (ou não) vem tentando desenhar uma "moral" baseada na autorrepressão e na culpa. Note que esse discurso nem sempre é explícito. Não é exclusividade da Igreja, mas de uma ampla parcela da sociedade. Enquanto isso, a Biologia do ser humano real trabalha. Aos quinze anos, tudo o que um menino quer é experienciar o sexo, aquilo de que tanto se fala na TV, na escola, em casa e na Igreja. A mídia (que não perde nenhum nicho de mercado) atende a essa demanda produzindo e vendendo um sexo idealizado, indolor e inconsequente a um público que tem o sexo como algo moralmente inacessível. É esse sexo idealizado que o adolescente busca, justamente porque o sexo nas suas formas "reais" é, ainda, socialmente reprimido.

Muitos pais, ao perceberem (conscientemente ou não) que foram "engambelados" pela Igreja, e que passaram metade de suas vidas culpando-se por crimes que não cometeram, agora tratam de "dar" a seus filhos uma educação exatamente oposta àquela que receberam. Liberalismo total. São os extremos interagindo?... É só uma impressão minha...

Um dos desafios da Igreja para este milênio é, justamente, controlar essa "liberalização" da sexualidade. Mal sabe ela que suas próprias doutrinas são responsáveis por boa parte do que Dom Dadeus chama de "liberalização". Numa passagem mais polêmica da declaração do arcebispo de Porto Alegre, ele faz a seguinte afirmação: "Antigamente não se falava do homossexual. E [o homossexual] era discriminado. Quando começaram, ‘olha, eles têm direitos de se manifestar publicamente'... daqui a pouco eles vão achar os direitos dos pedófilos" (Portal G1 - 05/05/2010). Só faltou dizer que hoje deveria haver mais discriminação.

Isso deveria dirimir quaisquer dúvidas que restassem quanto a Igreja ser uma instituição, no mínimo, preconceituosa (há quem prefira outros adjetivos...), burra (porque mistura "opção" ou "orientação sexual" com patologias, e acima de tudo, desumana. Uma instituição que nega a sexualidade humana, muitas vezes manifestadamente presente em seu próprio seio, pode ser humana? Uma instituição que tenta a todo custo criminalizar o uso de preservativos (que em certos lugares é o único recurso disponível na luta contra a AIDS) pode ser humana? Uma instituição que orienta seus seguidores a acreditarem que a "verdadeira" vida vem somente depois da morte, pode ser humana? Realmente, a Igreja não é uma instituição humana. É Divina!






terça-feira, 6 de abril de 2010

Ah, sim, a mídia...


A cada quatro anos a grande mídia coloca as garras de fora e revela como funciona sua "imparcialidade" e seu “compromisso” com a informação. Essa afirmação já é lugar-comum na blogosfera. Entretanto, nos esquecemos que pequenos jornais ou rádios em pequenas cidades do interior tendem a fazer igual ou pior.

A notícia pura, o acesso aos fatos e às informações (de forma clara e imparcial) a crítica consciente e a responsabilidade de ser um “formador de opinião” parecem não existir. No mundo moderno, "globalizado", a notícia tornou-se um produto a ser vendido no supermercado, junto com margarina, gilete, sabão em pó e xampu. Daí o fato de termos um time de quinta categoria, com datenas e casoys da vida, sensacionalistas berrões e pseudointelectuais enchendo os jornais e telejornais com os seus produtos, da mesma forma que um vendedor de eletrodomésticos anuncia as ofertas do dia na porta de uma loja.

De tempos em tempos deixam de vender o seu peixe (com ou sem sangue) para pegar uma bandeira e fazer campanha, ou melhor, fazer a campanha do patrão, como nos idos(?) tempos do voto de cabresto. Parafraseando Lula, os patrões (dos jornalistas) fazem mais censura do que qualquer governo poderia sonhar em fazer. Reúnem-se para decidir o que deve ser veiculado e de que maneira. Como bons colonizados que somos, fingimos que isso é mentira, mania de perseguição, esquerdismo ou coisas assim.

Esse mal também atinge, como já foi dito, pequenos jornais interioranos. Aqui pela serra gaúcha, jornais criticaram, por exemplo, a luta dos professores e acusaram o CPERS de estar usando os professores para “manobras políticas contra o atual governo do estado”. Ora, todo movimento sindical é também um movimento político, e esse jornalismo de boteco quer, pelo visto, reinventar o sindicalismo, esvaziando-o dessa característica. Esse mesmo jornalismo é capaz de apresentar alguns políticos de forma gramaticalmente correta e educada, enquanto chama outros pelo título pejorativo de “figurões”. Não é preciso estudar “análise do discurso” para perceber o quanto esses folhetins são tendenciosos, quando não são burros, muitas vezes ferindo princípios básicos do jornalismo (que podemos aprender em casa, sem curso superior) como o de ouvir todas as partes e tratá-las de forma imparcial.

Os principais colunistas (no auge de suas “ameaçadas” liberdades de expressão), com raras exceções, são de chorar. As crônicas abrangem desde o saudosismo desesperado até o reacionismo prolixo. Aguns textos são desprovidos de qualquer senso de coesão e clareza (elementos tão caros nas redações de vestibular) ao mesmo tempo em que criticam o desempenho dos professores, numa hipocrisia de dar dó. Todas elas tendem a repetir a ideologia expressa nos grandes jornais ou revistas, até mesmo quando tratam de assuntos ou casos locais. Quando notícia passa a ser mercadoria, o resultado é esse. Ninguém quer vender no seu mercadinho um produto que seja desconhecido, ou fora de moda (seja lá o que isso quer dizer). Corre-se o risco de ser tachado de incompetente, atrasado, antiquado, caloteiro, enfim, corre-se o risco de perder uma fatia do mercado.

Ao contrário do que diz o nosso alquimista da lixeratura, Paulo Coelho, o guerreiro não está só. Então, não adianta trocar Rede Globo por Rede Record, nem trocar um jornal de circulação estadual por um mais "bairrista". Cada vez mais, os meios de comunicação como jornais, rádios e TVs estão se transformando num veículo exclusivo da indústria da publicidade e do entretenimeto. Seria um equívoco esperar deles qualquer coisa além disso, embora eles se autoproclamem detentores da verdade e salvadores da Democracia, quando na verdade, não passam de uma ferramenta usada por uma elite social para a manutenção do status quo.

OBS.: Apesar de tudo, sempre é bom ter um jornal por perto, principalmente agora, no outono, para acender um fogo, colocar no chão do carro ou usar no banheiro (resolvendo as palavras-cruzadas, obviamente).

quinta-feira, 11 de março de 2010

Oscar: um desserviço à humanidade


Podem me criticar, pois estou apedrejando o vencedor do Oscar, Guerra ao Terror, sem tê-lo assistido. Baseei-me apenas no trailer disponível no YouTube. O correto não seria assistir ao filme para depois criticá-lo? Talvez não, porque “merda a gente identifica pelo cheiro”. Diferente de um copo de vinho, não é preciso perder tempo levando-a à boca para saber do que se trata.

Num trailer de menos de dois minutos, tudo o que vimos não foi mais do que um grupo de soldados (norte-americanos, como sempre) dedicando suas vidas à nobre tarefa de desarmar bombas plantadas por terroristas malvados. Só isso. Essa é a ótica maniqueísta e infantil do vencedor do Oscar. Para mim, não passa de mais um filminho, em que, mais uma vez, os americanos salvam o dia. Nenhuma palavra sobre o porquê dos atentados, tampouco sobre o porquê daquele trabalho. Nada sobre o antes ou o depois. Dramas, motivações... nada. Só a adrenalina (ou o sono, dependendo do espectador) provocado pelas explosões e algum sentimentalismo piegas com relação às famílias dos soldados que esperam o retorno dos heróis. Nada mais do que isso. E não falo só do trailer, mas de toda a publicidade do filme, que segue a mesma linha, o que leva a crer que, de fato, o filme não passa disso.

A imprensa local taxou Avatar (que é somente uma história sobre colonização) de infantil, inocente e simplista. Houve até quem o adjetivou de moralista e ecologista. Paciência. É verdade que Avatar é só efeitos especiais (diversão rápida e fácil para um sábado à noite), e que também não mereceria nenhum prêmio relevante; mas ao menos me fez lembrar, por incrível que pareça, do “descobrimento do Brasil”, com todos os interesses portugueses estuprando os então habitantes locais. Apesar do final-feliz-e-bobo de sempre, Avatar não foi tão fantasioso como parece. Mas o que me intriga é o seguinte: será que essa Ode ao Imperialismo chamada de Guerra ao Terror será jogada no mesmo saco de “filmes de fim-de-semana” em que colocaram Avatar? Alguém vai acusar esse documentário de ser simplista e de não ter “profundidade”? Existe algo mais clichê do que a velha receita do mocinho-e-bandido inventada nos Estados Unidos e reafirmada a cada filme?

Poucos irão reclamar desse filme, pois todos gostam do que gosta o Rei. Todos assistem ao que o Rei assiste. E o Rei recomendou formalmente, através do Oscar, Guerra ao Terror, enquanto que por aqui (e pelo resto do mundo) esquecemos que um filme bom não precisa de um orçamento milionário, nem de toneladas de efeitos especiais, e, menos ainda, do Oscar. Quando esse filme cansar de faturar nos cinemas, vai passar gratuitamente na “Sessão da Tarde”, concluíndo assim o seu ciclo e a sua tarefa de colonizar, cada vez mais, o nosso pensamento, apesar das hipotéticas boas intensões.

segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Entre zeros e uns


Não é novidade que a tecnologia superou a pretensiosa missão de suprir necessidades para passar a criá-las. Computadores poderosos, câmeras digitais, TV digital, televisor de plasma (com a maravilhosa tecnologia capaz de achatar as imagens), cinema digital, música digital (com a incrível função que impede o ouvinte de diferenciar a voz humana de um violino), enfim, tudo digital. Temos relacionamentos digitais, virtuais. Com eles aprendemos a ter medo de olhar nos olhos de uma pessoa de “carne e osso”. Desaprendemos a falar e a conversar. Viver é simplesmente consumir.

Consumimos para suprir necessidades irreais, inventadas. Produzimos e consumimos lixo tecnológico. Vamos de carro à academia para andar numa esteira elétrica. Mandamos “torpedos” de feliz aniversário para o amigo do apartamento ao lado. Trocamos nosso telefone por um melhor (?) a cada ano. Trocamos nosso MP3 pelo MP4, 5, 6, 10. Pagamos para estacionar o carro numa via pública. Acreditamos que fazemos escolhas e que somos livres. No entanto, passamos a vida insatisfeitos.

Conseguimos rir da mulher embriagada que gritou “devolve o meu chip”. Reality Shows (que não têm nada de 'reais') massificam pensamentos e comportamentos. Mas somos livres, somos habitantes de um mundo onde zeros e uns produzem um ilusionismo comercial disfarçado de ovelhinha. Compramos aparelhos de ginástica tão criativos quanto inúteis, roupas que encolhem a barriga, seios postiços, detectores de mentira, caneta espiã, turismo espacial, fuscas, ferraris, fantasias sexuais, dentes brancos e perfeitos, perfumes, pomadas para tudo. Oh, o homem progride! Estamos indo em direção ao super-homem nietzchiano e não me avisaram! A realidade é mesmo uma ficção? Pergunta um desatento.

De qualquer maneira, essa minha descrição do mundo é equivocada e enfadonha. Percebi isso ao receber a notícia de que Tessalia e Michel, do BBB 10, fizeram sexo debaixo do edredon. Clique em qualquer lugar e assista ao vídeo. Vale a pena, pois deve ser a primeira vez na história da humanidade que pessoas praticam o coito debaixo de um cobertor. Aproveite sua liberdade e direito de alienar-se. E bom divertimento!

segunda-feira, 21 de dezembro de 2009

Sobre Paulo Coelho (uma breve e provisória conclusão)

Representantes de uma época.

Há pessoas mais equilibradas, menos radicais, que preferem manter-se numa confortável posição intermediária, ou neutra (ainda descubro se tal posição existe) em relação a certos assuntos. Evitam a todo custo um posicionamento mais específico. Alguns creem tratar-se de uma virtude. Acordam todo dia sentido-se capazes de agradar a gregos e troianos. São chefes de seção acreditando que podem satisfazer, ao mesmo tempo, a direção e os operários. São professores universitários pensando que estão agradando a reitoria e os alunos. São reitores que expulsam alunos de “trajes inadequados”, e depois anulam a expulsão, numa tentativa de agradar a todo o mundo.

Bandas de garagem querem ressuscitar o punk, mas não querem que a mamãe os veja mal vestidos no YouTube. Estudantes fazem associações e grêmios estudantis, mas são inativos, limitando-se a festinhas de fim de ano, evitando conflitos por medo de perder alguns amiguinhos do Orkut. Gostos? Não se discute. Crenças? Não se discute. Política? Não se discute. O Século XXI parece com aquelas vovozinhas que vivem dizendo que “gostos, cores e amores, não se discute”, mas que ficam horrorizadas ao descobrirem que suas netinhas gostam de meninas.

Dizem que Paulo Coelho pode ser uma iniciação à leitura. De fato, pode. Mas, contabilizando, na minha pequena rede de relacionamentos (estudo, família e trabalho), ainda não há ninguém que tenha dado o “passo à diante”. A grande maioria dos que liam – e gostavam – de Paulo Coelho, hoje está lendo Augusto Cury, Zíbia Gasparetto, livrinhos que falam de diferenças entre homens e mulheres, Quem mexeu no meu queijo (ou salame, ou presunto, sei lá...). Alguns foram ao fundo do poço lendo A Bíblia da Esposa que Ora. Outros, lendo Herry Poter, acreditam que “qualidade literária” está relacionada com o “tamanho do livro”. Os que tentavam passar para textos mais pesados logo desistiam. “Esse livro é muito chato, aquele é muito difícil e daquele outro, não consegui entender nada...”

Em contrapartida, buscando na memória por meus amigos mais exigentes quanto aos livros que leem, reparei que aqueles colegas já eram seletivos ainda na escola. No Ensino Médio, ouvindo falar dos “mestres da literatura”, tinham curiosidade em conhecê-los. Iam à biblioteca, retiravam Fernando Pessoa, liam, não entendiam nada, mas não desistiam.

Fica a pergunta, principalmente aos educadores: Será que Paulo Coelho é válido como primeiro passo no mundo da literatura? Será que a quantidade de leitura importa mais do que a qualidade dos textos?

Somos representantes de uma época. Não queremos ofender a ninguém. Queremos agradar a todos. "Você gosta de Paulo Coelho? Tudo bem, ele pode abrir-lhe o caminho para a literatura. Gosta de Fernando Pessoa? Que bom, eu nunca li, mas se é poesia, deve ser bom. Gosta da Bíblia da esposa que ora? Sem problemas, o importante é sentir-se bem. Está lendo Crepúsculo? É bom, pois cativa os jovens...". Vivemos num tempo em que ninguém quer ser pedrinha no sapato de ninguém, e é natural que seja assim, afinal, isso dá prejuízo, não leva a nada e não faz ganhar nada. Cada um com os seus problemas. É tu na tua e eu na minha. Caminhando e cagabdo a turba segue.


Imagem: Josh Neuman